terça-feira, 3 de novembro de 2020

Gerry Conway, o lugar do Justiceiro na cultura, e os danos que o partidarismo provoca na mente humana

 

Arte de Mike Zeck

Schopenhauer dizia que o microcosmo reflete todo o macrocosmo, e, por isso, para que você conheça o todo, basta prestar muita atenção em alguma de suas partes. Este tipo de convicção também parece ter orientado a prática antropológica e etnográfica de Malinowski. E é por isso que, por meio deste texto, sinto-me autorizado a tentar concluir algo sobre a humanidade a partir de um fato bastante singular, e que muitos julgariam de pouca importância. Refiro-me às atitudes do escritor de quadrinhos Gerry Conway em relação a uma famosa criação sua, o Justiceiro (ou Punisher).

 

Já expliquei que o símbolo associado ao Justiceiro, a famosa caveira, tornou-se em nossa cultura um sinal de Justiça Retributiva, bem como de outros valores que a ela estão marginalmente associados: a coragem, o fortaleza, a ousadia, e até mesmo a agressividade. Afinal, a Justiça não é uma virtude para pessoas passivas. Sim, desde Platão sabemos que Justiça é harmonia, um estado de ausência de lesividade, e é por isso que ela fora definida na clássica fórmula latina como neminem laedere – “não lesar ninguém”. Entretanto, o justo não é somente aquele “não lesa ninguém”, mas também aquele que busca impor a punição àqueles que lesaram alguém. Afinal, Justiça é sobretudo equivalência, igualdade, proporção, e disso sabemos muito bem desde Aristóteles (que expôs tudo isso muito bem até o ponto em que os preconceitos da época não atrapalharam seu raciocínio, por exemplo, ao supor existir diferente dignidade entre aquele que desempenha cargos públicos e aquele que não desempenha-os).

 

Consequentemente, aquele que destrói aquele estado de harmonia deve ser penalizado por isso, e esta pena deve ser proporcional à gravidade do ato lesivo. Eis aí o ponto que define o Justiceiro e o símbolo de sua caveira: Frank Castle pune os homicidas com a morte, pois somente a vida paga a vida. E, convenhamos, impor a punição estritamente justa não é para qualquer um. É preciso algum rigor espiritual para isso, pois, no caso do homicídio, ser justo significa condenar à morte aquele que matou alguém.

 

Claro, a cabeça da maioria das pessoas não capta toda esta miríade de conceitos, e por isso vulgariza-os sob noções mais simplórias, ou mesmo através de sentimentos irrefletidos. No fim das contas, tudo aquilo é resumido na impressão “badass” que aquele símbolo da caveira causa nas pessoas. É por isso que a caveira se popularizou entre aqueles cuja profissão está intrinsecamente associada ao conflito físico ou, ao menos, à possibilidade de esse tipo de conflito ocorrer: soldados e policiais.

 

Exemplo emblemático disso foi o famoso sniper norte-americano Chris Kyle. Durante o tempo em que serviu na Guerra do Iraque, Kyle atuou em uma unidade autointitulada de The Punishers, cujos membros costumavam adornar seus uniformes e equipamentos com o símbolo do Justiceiro (este fato é mostrado no filme sobre a vida de Kyle, American Sniper, dirigido por Clint Eastwood). O próprio Kyle justificou em sua autobiografia a predileção da unidade pelo famoso personagem da Marvel Comics, nos seguintes termos: “ele matava caras maus. Ele fazia com que os criminosos o temessem [...]. Nós pintávamos [a caveira] com spray em nossos Hummers e uniforme, e em nossos capacetes e em todas as nossas armas. Nós a pichávamos em todo prédio ou muro sempre que podíamos, nós queríamos que as pessoas soubessem: ‘nós estamos aqui e queremos acabar com vocês’1.

 


Na época, Gerry Conway manifestou sua desaprovação: “Eu era uma pessoa contra a guerra. Eu argumentei contra ela, e certamente escrevi contra ela [...] Eu estou pasmo [...] Como criador, é muito difícil pra mim ver isso. Ninguém pediu minha permissão2. Esta última frase revela um nível de pretensão tão descabido que só podemos considerá-la como um deslize da parte de Conway. Afinal, ninguém precisa pedir permissão a Conway. Os soldados não estavam comercializando produtos com a marca “The Punisher”. Eles estavam homenageando a criação de Conway. É realmente triste constatar que Conway, ao ver sua criação sendo adorada por homens que arriscaram suas vidas para proteger ele e seu país, não possa manifestar nada além de descontentamento e reprovação. Conway não gosta de guerras? Ok. Mas ele criou um personagem que simboliza o aspecto tanto trágico quanto heroico da guerra3. E certamente lucrou com isso.

 

Depois, tivemos o caso dos policiais norte-americanos. Já comentei sobre isso no texto anterior, e expus a forma um tanto tola como a Marvel Comics lidou com o assunto (o que só serviu para denunciar a própria hipocrisia e petulância de seus escritores e editores). Qual foi a resposta de Conway quando questionado sobre isso? Novamente, críticas:

 

Pra mim, é perturbador sempre que vejo as autoridades abraçando a iconografia do Justiceiro, porque o Justiceiro representa a falha do sistema legal. Ele acusa o colapso da autoridade moral social e a realidade de que algumas pessoas não podem depender de instituições como a polícia ou o exercito para agirem.

        O anti-herói vigilante é fundamentalmente uma crítica ao sistema legal, um exemplo do colapso social, então quando policiais colocam a caveira do Justiceiro em seus carros ou quando militares usam patches da caveira, eles estão basicamente indo para o lado de um inimigo do sistema. Eles estão adotando uma mentalidade de fora-da-lei. Não importa se você pensa que o que ele faz é ou não justificado, se você admira ou não seu código moral, o fato é que ele é um fora-da-lei. Ele é um criminoso. A polícia não deveria adotar um criminoso como seu símbolo.

        [...] Meu ponto de vista é o de que o Justiceiro é um anti-herói [...] Se um oficial da lei, representando o sistema de justiça, coloca o símbolo de um criminoso em sua viatura [...] ele ou ela está fazendo uma declaração muito imprudente sobre seu entendimento da lei”.4

 

E talvez Conway esteja fazendo uma declaração muito imprudente sobre seu entendimento da mentalidade desses policiais. Eu duvido que eles associem a caveira do Justiceiro ao fato do mesmo ser um “fora-da-lei”. A caveira está associada à valentia, à justiça, e até a sentimentos mais simplórios. Mais ou menos como disse Chris Kyle, a caveira significa para muitos algo como “somos durões e podemos acabar com vocês”. Conway está supondo que esses policiais são aficionados na leitura de The Punisher, o que provavelmente não é o caso. E mesmo que fosse, o Justiceiro não é totalmente contra a lei. Ele vai atrás daqueles que infringem a lei (sobretudo aquela que proíbe o homicídio). Isso demonstra que há cumplicidade entre o personagem e o sistema legal. Ou ao menos uma cumplicidade parcial, uma vez que, sem dúvida, o personagem infringe a lei processual. Além disso, convenhamos... a definição de “criminoso” é simplesmente “aquele que desobedece leis”, ou “fora-da-lei”, como Conway supõe? Considerando a quantidade de leis positivas absolutamente injustas que já foram sancionadas e aplicadas ao longo da história da humanidade, eu diria que aquela definição de criminoso é criminosa.

 

O argumento de que o Justiceiro simboliza a falência do sistema legal e que policiais servem a este sistema e que por isso seriam totalmente incompatíveis, é extremamente fraco. Sim, policiais servem ao sistema legal. Mas disso não se segue que eles estejam totalmente felizes com o sistema legal. Se os policiais estão frustrados com o sistema, não vejo por que razão eles não podem se manifestar a respeito. No entanto, reitero que eu não acredito que este seja o motivo principal do uso da caveira em suas viaturas. Creio que o motivo seja muito mais simplório, e até mais estético do que filosófico.

 

Aqui, alguém pode dizer “o Conway não gosta que usem o símbolo do Justiceiro simplesmente porque ele não acredita que ele seja um bom exemplo, ponto”. De fato, o próprio Conway disse sobre Frank Castle que, em sua “opinião, ele não é uma boa pessoa”5. Mas se este é o ponto de Conway, por que diabos ele deseja que o símbolo com o qual ele próprio não simpatiza (apesar de ter ajudado a criar) seja utilizado por pessoas com as quais ele simpatiza? Pois é esta a sua postura adotada relativamente ao movimento Black Lives Matter (BLM). Em sua campanha - iniciada em junho deste ano, e que objetiva associar o símbolo do Justiceiro ao BLM, e conseguir fundos para financiar este movimento – Conway escreve que

 

Por muito tempo, símbolos associados ao personagem que eu co-criei têm sido cooptados por forças de opressão e para intimidar americanos negros. Este personagem e seu símbolo nunca foram criados como um símbolo de opressão. Este símbolo é o de falência sistemática da justiça igualitária [equal justice]. É hora de reivindicar este símbolo para a causa da justiça igualitária [equal justice] e do Black Lives Matter6.

 

Em outras palavras, agora o Justiceiro não é mais um símbolo que significa o “fora-da-lei”, ou mesmo um “criminoso”. Frank Castle não é mais “uma má pessoa”. Agora ele é um campeão da “equal justice”. Como explicar isso? Policiais não podem usar a caveira, pois ela significa “crime”. Mas participantes do BLM podem usar a caveira. Ora, então o BLM é um movimento criminoso? Não, não... esqueça a retórica anterior. Agora Conway decidiu que a caveira é sobre justiça, equal justice! Se é assim, por que os policiais e os militares no Iraque não poderiam ostentar um símbolo que se refere a tão belo princípio? Por que policiais e militares não podem ser igualmente favoráveis à equal justice? Porque, naquela oportunidade, Conway só enxergava aspectos moralmente reprováveis no simbolismo do Justiceiro. Mas agora sua interpretação mudou. Como desfazer este imbróglio?

 

Não vejo saída senão admitindo o seguinte: o problema de Conway não era tanto com o personagem, mas com as pessoas que homenageavam o personagem que ele criou. O Ego de Conway não suportava ver o produto de seu trabalho criativo ser homenageado por pessoas cujas atividades ele desgosta. Por ser simpático ao BLM, ele deseja ver o símbolo que ele ajudou a criar associado àquilo que o agrada. Só assim consigo explicar por que a retórica da crítica cedeu espaço à retórica do proselitismo, e Frank Castle, implicitamente, voltou a ser um cara legal.

 

E agora posso retornar ao ponto que inaugurou deste texto, isto é, sobre como fenômenos microcósmicos podem pôr às claras aspectos macrocósmicos. A conduta dúbia de Conway revela como a mente humana pode se meter em autocontradições, guiada por orientações emocionais muitas vezes ocultas até mesmo para o próprio agente. E, o mais interessante, é o modo como “douramos a pílula”, isto é, o modo como ocultamos estas orientações emocionais através da máscara do moralismo e do discurso aparentemente esclarecido. E, sobretudo, o quanto nosso Ego, nosso amor de si mesmos, funciona como uma força inconsciente no processo de preservação de nossas pretensões narcisistas. No fundo, Conway apenas não quer ter sua imagem refletida em certos espelhos, e eu acho que ele vê algo dele no velho Castle, porque ele é o criador do personagem. Daí ele se incomodar tanto ao ver a imagem do personagem ser apropriada por indivíduos atuantes dentro de certos grupos. Não devemos nos esquecer o modo como ele se expressou em sua campanha: o Justiceiro fora "cooptado" ("co-opted") pelo outro grupo, e agora é hora de ele ser "reivindicado" ("it's time to claim this symbol...") por nosso grupo. Sintomático. Talvez este seja o cúmulo do narcisismo: julgar que certos espelhos são indignos de refletirem nossa própria imagem. E a imagem refletida é tudo: ela tem prioridade até mesmo em relação à coerência consigo mesmo. É como se Conway dissesse: “não importa o que eu disse antes; eu apenas não quero ver minha imagem refletida naqueles caras, e quero vê-la refletida nesses caras”. Meu palpite é o de que esta não é uma característica exclusiva de Conway, mas que sua atitude apenas revela um padrão bastante disseminado em nossa espécie. Mas por ora, é só um palpite. A conversão desta constatação em juízo universal demandaria um trabalho de verificação de vários casos particulares que não pretendo executar no momento.

 

Como leitor de quadrinhos de longa data, eu só gostaria de fazer mais duas considerações. Primeiro, registrar minha admiração por Gerry Conway. Apesar do que escrevi até o momento poder ser visto como uma crítica a ele, o fato é que tenho grande admiração por seu trabalho. Não só por ter criado o Justiceiro, mas sobretudo por causa das histórias que ele escreveu do Homem-Aranha durante os anos 70 e 80, e que foram as primeiras histórias que tive o prazer de ler. Considero-as a melhor fase do herói aracnídeo. Por isso, Gerry Conway está entre meus escritores favoritos.

 

A segunda coisa que eu gostaria de fazer é manifestar uma preocupação. Espero que o texto escrito por Conway para promover esta artificial parceria entre Justiceiro e BLM não faça escola entre os escritores da Marvel, que já causaram danos demais a Frank Castle. Não, não estou dizendo que sou contra pessoas utilizarem símbolos do Justiceiro na luta contra práticas racistas. Sou contra os tolos de mente acrítica (aquela turma do “se o criador falou, então está falado”) começarem a restringir o Justiceiro à luta contra racistas, como se essa fosse a única manifestação da injustiça.

 

Aliás, a expressão equal justice pode facilmente induzir cabecinhas ideologizadas (que se caracterizam por sua estreiteza de pensamento, já que costumam limitar-se aos lobbies e novilínguas dos grupelhos aos quais pertencem) a imaginarem que o Justiceiro luta apenas por igualdade racial. Na verdade, esta expressão, equal justice, é um pleonasmo pueril. Pois a justiça é sempre sobre igualdade ou proporcionalidade (quando a igualdade literal não é possível). E é por isso que tanto policiais, soldados, ou civis comuns que são vítimas de violência motivada pelo racismo, podem se sentir à vontade junto aos símbolos relacionados ao Justiceiro: ele representa Justiça Retributiva, e esta impõe a proporção correta entre crime e castigo. No contexto deste universo moral, não há negros ou brancos, mas apenas culpados ou inocentes, e a punição proporcional ao dano causado. Esta é uma mensagem universal e por isso pode ser significativa para qualquer um. Restringi-la a uma mania, a um modismo, empobrece-a. Em todo caso, fico feliz que Conway finalmente percebeu que a caveira do Punisher significa justiça. Agora ele precisa perceber que, pelas mesmas razões, o símbolo da caveira é adequado a qualquer um e em qualquer contexto de busca por justiça retributiva, e isso inclui soldados e policiais.

O Justiceiro pode ser vítima daquele mesmo empobrecimento, se restrito a uma luta particular e à perspectiva de um grupo particular. O que torna o Justiceiro extremamente interessante é o fato de que, para ele, o mundo não se divide em cores, mas entre os inocentes que devem ser protegidos e os culpados que devem ser punidos. E estas duas classes podem ser encontradas em qualquer grupo, a depender dos critérios de definição. Do ponto de vista econômico, há os ricos e os pobres; do racial, os negros e os brancos; do religioso, os crentes e os ateus; do político, os direitistas e os esquerdistas. Mas pela perspectiva de Frank Castle, isso tudo é de pouca importância, pois culpados e inocentes estão disseminados e misturados em todos estes grupos, e esta é a única classificação que realmente importa para o Justiceiro: a classificação moral, exclusivamente baseada na escala da culpa e da inocência



Notas

1 Cf. https://time.com/3819227/punisher-iraq-isis/

2 Cf. https://time.com/3819227/punisher-iraq-isis/

3 Desde sua criação, o Justiceiro é mostrado como alguém que acredita na continuidade de sua missão de soldado, antes atuante no Vietnã, agora atuando contra criminosos dentro de seu próprio país. Sua mentalidade de militar em Guerra fica explícita sobretudo no fato de que o mesmo mantinha um “diário de guerra”, no qual registrava sua perspectiva pessoal sobre os acontecimentos que vivenciava.

4 cf. https://www.syfy.com/syfywire/punisher-creator-gerry-conway-cops-using-the-skull-logo-are-like-people-using-the

5 Cf. https://time.com/3819227/punisher-iraq-isis/

6 Cf. https://www.customink.com/fundraising/black-lives-matter-skulls-for-justice-presented-by-gerry-conway

terça-feira, 6 de outubro de 2020

Mathew Rosenberg: um bom exemplo de como não se deve escrever o Justiceiro





Recentemente, a Panini lançou por aqui o arco “Rua a rua, quadra a quadra”, do Justiceiro, escrito por Mathew Rosenberg e com arte de Szymon Kudranski. Quando fora publicado lá fora há mais ou menos 1 ano atrás, esta história provocou alguma polêmica, pois é nela em que Frank Castle aparece repreendendo policiais que utilizavam adesivos da caveira do Justiceiro em suas viaturas. Na verdade, a mensagem era do próprio Rosenberg, e fora dirigida não a policiais fictícios, mas reais: na época, de fato estava ocorrendo, nos EUA, de policiais fixarem a imagem da caveira em seus carros. Algumas pessoas manifestaram seu repúdio a esta atitude, e Rosenberg também resolveu expressar sua desaprovação, colocando o próprio Frank Castle na posição de porta-voz de sua opinião pessoal.

 




Particularmente, eu nunca entendi qual o motivo de escândalo. Do fato de que alguém veste uma camiseta com a imagem da caveira, não se segue que sairá por aí praticando vigilantismo ao estilo justiceiro. Logo, por que deduzir que o uso de adesivos por policiais terá efeito diferente? Eu penso que o motivo dos policiais se utilizarem da imagem da caveira se deve ao princípio que está associado àquele símbolo, graças à popularidade de Frank Castle na cultura norte-americana. Como eu já argumentei em textos anteriores, o Justiceiro simboliza a Justiça Retributiva, e isso significa: todos devem pagar por seus crimes, na proporção de seus crimes. E este princípio comporta certa latitude. Na prática, ele pode simplesmente funcionar como uma maneira de dar sentido à árdua profissão de policial (e, como muito bem nos ensinou Viktor Frankl, é a busca por um sentido que nos afasta do desânimo, do desespero e da alienação – esta última, um transtorno extremamente comum em nossas relações com as próprias atividades profissionais). É como se através da caveira o policial dissesse: “minha vida faz sentido; eu coopero para que os caras maus sejam pegos e respondam por seus crimes; sou um herói!”. Não significa necessariamente que os policiais praticarão vigilantismo. Do mesmo modo, se os policiais colocassem adesivos do escudo embandeirado do Capitão América (tal como Rosenberg, disfarçando-se de Frank Castle, sugere) isso não significaria que os mesmos estariam dispostos a vestir máscaras coloridas e substituir seus revólveres pelo lançamento de discos. Significaria apenas que eles aderiram ao princípio ínsito àquela imagem, algo lato como “eu sirvo a meu país”. (E, convenhamos... talvez eu esteja indo longe demais aqui. É bem mais provável que as motivações dos policiais sejam mais simplórias. Talvez eles usem a caveira simplesmente porque consideram "badass" a imagem e simbologia que ela representa). 

 

Aliás, isto é o que nos fascina nos símbolos. Eles se referem a princípios que abrangem uma enorme latitude de significados, e por isso não estão restritos à estreiteza de um único padrão de comportamento. Através do símbolo do Capitão América, um policial poderia dizer a si mesmo: “tal como o Capitão, eu também sirvo ao meu país, ainda que à minha maneira”. Do mesmo modo, através da caveira, o mesmo policial poderia dizer: “tal como Frank Castle, eu também honro a Justiça, ainda que à minha maneira”. A razão de os policiais reais terem de fato escolhido a imagem da caveira em vez do escudo do Capitão parece-me óbvia: o Justiceiro é um personagem muito mais contextualizado no mundo real do que o Capitão América. Policiais não enfrentam ameaças alienígenas e vilões fantásticos, e sim a escória que inunda as ruas com assassinato, roubo, estupro, e venda de drogas. Na prática, também não se trata tanto de defender o país, mas de combater indivíduos concretos para proteger indivíduos concretos. E este é o cenário dentro do qual se articula o mito do Justiceiro. Por outro lado, se os profissionais da Marvel Comics são contrários ao elemento cativante que indubitavelmente há no vigilantismo heroico e romantizado, então eles deveriam considerar parar de publicar as aventuras do Justiceiro. Mas algo me diz que esta possibilidade nunca passou por suas cabeças. Isso só pode significar que eles próprios não acreditam realmente em tais polêmicas, ou, se acreditam, então eles não estão dispostos a desistir de uma fonte de lucro em função de seus princípios morais. Ou seja: ou são dissimulados, ou são hipócritas. 

 

Mas vamos ao meu ponto principal: o modo como Rosenberg escreve o Justiceiro, e que eu reprovo totalmente. Na verdade, grande parte daquilo que julgo ser um problema já se encontra nesta cena que comentei até aqui. Quando o Justiceiro rasga o adesivo da caveira e diz ao policial que o exemplo a ser seguido é o Capitão América, o policial responde: “quem você pensa que é? Gostando ou não, você começou uma coisa. Mostrou como se faz. Agora não gosta que outros sigam seu exemplo?”. Claro, aqui Rosenberg promove uma caricaturização das motivações humanas. Como já expliquei, do uso de adesivos da caveira não se segue necessariamente o engajamento em práticas de vigilantismo. (No excelente e divertido arco "Bem-vindo de volta, Frank", de Garth Ennis, os policiais eram mostrados como totalmente simpáticos ao Justiceiro, inclusive recusando-se a investigá-lo, e não se via nenhum problema moral nisso). Mas vamos assumir, por hipótese, que os policiais tenham de fato este tipo de intenção. O policial tem um ponto aqui. É uma afirmação que aguarda um contra-argumento. Mas o que diz Castle em seguida? “Se eu descobrir que estão tentando fazer o que faço, venho pegar vocês dois”. Em outras palavras, Castle não contra-argumenta. Ao contrário: ele rebate o policial com uma ameaça. Qualquer pessoa que tenha estudado algo como a teoria dos códigos de linguagem de Basil Bernstein, sabe que responder uma provocação ao diálogo com um imperativo e um apelo à própria autoridade é um sintoma claro de debilidade intelectual.

 

E é este o problema do Frank Castle escrito por Rosenberg: ele parece um robô (ou talvez um zumbi), destituído de qualquer inteligência ou introspecção. Porém, em minha opinião, não existe modo mais grosseiro de descaracterizar o Justiceiro, pois é exatamente o elemento da introspecção que faz dele um personagem tão fascinante. Desde sua estreia, em Amazing Spider-Man #129, o Justiceiro era mostrado como alguém que tinha consciência de suas razões, e que argumentava em favor das mesmas. Este elemento da introspecção chegou à sua maturidade em Marvel Presents #2, que contém história escrita por Gerry Conway, através da qual o leitor tinha a oportunidade de saber cada pensamento de Frank Castle (que eram registrados em seu “diário de guerra”), e atingindo sua perfeição através do trabalho de escritores como Steven Grant (pra mim, o melhor de todos que já passaram pelo Justiceiro), Mike Baron, Carl Potts, David Lapham (Means and ends é uma das melhores coisas que já li), e Garth Ennis. Através dos trabalhos dos nomes citados, temos a oportunidade de conhecer todos os argumentos, valores e máximas morais que Castle articula em sua consciência. Percebemos que se trata de um homem cônscio de suas razões que, quando confrontado por pontos de vista opostos – sobretudo em seus encontros com o Demolidor – mostra-se plenamente capaz de argumentar em favor de seus próprios princípios e valores (como exemplo, vide Punisher #10, de Mike Baron; Means and ends, de David Lapham; Punisher #3, vol. 3., de Garth Ennis).

 

Em Justiceiro Ano 1, magistralmente escrita por Dan Abnett e Andy Lenning, é mostrado que na base de suas ações estão princípios morais conscientemente assumidos: “por vezes a lei é incapaz de agir [...] por essa razão, de vez em quando é preciso agir à margem da lei, para compensar sua inadequação em obter a punição natural. Eu não falo de vingança. Revanchismo não é um motivo válido [...] Estou falando de justiça”. Este personagem tão rico em introspecção, cuja consciência sempre se mostra preenchida por julgamentos e argumentos morais, em nada me lembra a máquina desalmada (que aparentemente fora literalmente programada para matar por matar) escrita por Rosenberg. O que é lamentável, pois para mim, o elemento da introspecção é tão característico do Justiceiro quanto a imagem da caveira que ele ostenta no peito. E, pelos motivos alegados, causa-me estranheza que o Justiceiro não se julgue um exemplo, conforme exposto em seu diálogo com os policiais. Ele não tem convicção de seus princípios morais? Talvez o que ele queria dizer era que os policiais não deveriam jogar fora suas próprias vidas, embarcando em seu ofício suicida e ascético, o que é bastaste correto. Há muitas histórias do Justiceiro que expressam este sentido. Mas nunca saberemos ao certo, pois Rosenberg não nos dá pistas sobre o que Frank Castle estava pensando. Na verdade, a impressão que se tem é a de que o personagem não pensa.

 

Creio que por trás desta desumanização de Frank Castle esconde-se a suposição de que o impulso de punição é intrinsecamente psicopático. Até onde pude notar, esta interpretação é inaugurada por Garth Ennis, a partir de seu trabalho sobre o Justiceiro no selo Max. Interessante notar o quão longe esta interpretação está das histórias clássicas escritas por Grant, Potts e Baron. Nesta que considero a fase de ouro do Justiceiro, suas aventuras tinham um tom mais heroico, e sua personalidade, era muito mais natural. Castle sustentava relações de amizade e, eventualmente, até sorria. Neste período, os escritores aparentemente não viam conflito entre o fato de ser um homem e impor a punição àqueles que a merecem. Não havia contradição no fato de que Castle tinha tanto ódio da criminalidade quanto amor pelos inocentes, a começar pela sua família que fora assassinada. Mas Ennis pareceu pensar diferente. Em Born, ele deixa claro que Frank Castle gostava de matar muito antes de sua família ser assassinada. E este processo de desumanização do Justiceiro, que já ocorre parcialmente em Ennis1, adquire seu apogeu em Rosenberg. O resultado: se substituíssemos o título da revista por “Jason: sexta-feira 13”, talvez fizesse mais sentido.

 

Particularmente, eu prefiro o Justiceiro clássico, definido por Grant, Potts e Baron. A meu ver, é perfeitamente possível pensar que o ódio pelo criminoso cresce na mesma proporção que a compaixão pela vítima (ou pelas vítimas). É por isso que concordo inteiramente com Schopenhauer quando este, em suas teses filosóficas, derivava a Justiça a partir da compaixão. Por outro lado, a amenidade para com criminosos tem de ter por pressuposto alguma ausência de sensibilidade para com suas vítimas.

 

Mas há um ponto positivo naquilo que Rosenberg escreveu, e que, a meu ver, deveria ser definitivamente incorporado à personalidade do personagem e futuramente explorado. Refiro-me ao momento em que, durante o confronto com o Barão Zemo, Castle puxa a máscara do vilão enquanto diz: “máscaras são para covardes”. Esta aversão às máscaras parece-me uma boa premissa. Aliás, sempre achei estranho o fato de heróis como Demolidor e Homem-Aranha darem lições de moral no Justiceiro, considerando que o uso de máscaras é tão contrário à convivência civilizada quanto o fato de Castle fazer de si mesmo acusador, júri e executor. A máscara esconde nossa identidade e, escondendo nossa identidade, liberta-nos do ônus de sermos responsabilizados por nossos atos. E sem responsabilização, não há réu sobre o qual possa incidir o juízo de imputação, essencial ao exercício da jurisdição penal. Em suma: com máscara, sem identificação; sem identificação, não há exercício da jurisdição; sem jurisdição, como poderia haver civilização?

 


Por isso, quando o Demolidor argumenta contra o Justiceiro (na já citada Punisher #10, aqui publicada em Superaventuras Marvel # 92) que, se todos seguissem seu senso de justiça, a sociedade seria um caos, Frank poderia contra-argumentar: “e se todos usassem disfarces como você, a sociedade também seria um caos”. Arrisco até mesmo dizer que o rosto ocultado sob uma máscara é, em seu princípio, muito mais danoso à vida social civilizada do que o comportamento violento, porém franco, do Justiceiro. O potencial destrutivo do anonimato institucionalizado é incalculável. É realmente desconcertante o fato de que o advogado Mathew Murdock também não perceba isso2.



1 Exponho minhas críticas a Ennis neste texto: https://herosinvictus.blogspot.com/2017/08/afinal-o-que-e-o-justiceiro-de-garth.html

2 Sobre o embate ético entre Justiceiro e Demolidor, vide meu texto: https://herosinvictus.blogspot.com/2017/07/a-etica-de-demolidor-versus-justiceiro.html

sexta-feira, 1 de maio de 2020

A polêmica em torno de "Superman versus Thor"


Considerações introdutórias

Na cultura popular, é provável que a maior rivalidade entre heróis poderosos tenha sido aquela de Hulk e Superman, uma vez que os mesmos representam, no contexto daquela cultura, o auge da força física. Porém, percebi que desde os anos 90 surgiu, dentro de círculos mais estreitos, uma outra forte rivalidade: aquela entre Thor e Superman. O motivo disso seria o seguinte: além de Thor ser incrivelmente forte, ele ainda conta com a magia de seu martelo, o Mjolnir. E, como se sabe, a magia é uma fraqueza do Superman.

Em 1997, a revista Wizard (n.11) publicou por aqui um pequeno debate entre os escritores Louise Simonson e Walt Simonson, para se determinar quem deveria vencer num combate entre Thor e Superman. A resposta de Walt foi a seguinte:

“Qualquer espécie de luta entre oponentes relativamente equiparados, como no caso de Thor e Superman, ficaria claramente ao critério do escritor. Mas partindo da ideia de que o Thor é um ser místico, e magia ser uma das coisas contra a qual o Super-homem é vulnerável, eu provavelmente apostaria no Thor. Por outro lado, o Super é incrivelmente poderoso. Numa luta arrasadora e prolongada, se ele conseguir ser atingido pelo martelo, isso pode fazer a diferença. Se alguma coisa dá vantagem ao Thor, é a magia. Se alguma coisa dá vantagem ao Super, provavelmente é sua velocidade e inteligência. Mas sou tendencioso, Escrevi o Thor. Acho que ele venceria”.

Louise discordou de seu marido:

“Tá legal, veja o que está escrito no martelo ‘se você for digno...’. Acho que ninguém é mais digno que o Super-homem. Ele pegaria o martelo e passaria a ter também o poder de Thor. E assim que fizesse isso, Thor não teria a menor chance”.

O impasse duraria até 2003, quando finalmente foi lançado o crossover JLA/Avengers, escrito por Kurt Busiek e desenhado por George Pérez. Em JLA/Avengers, Superman e Thor finalmente se enfrentam. O resultado? Superman vence. 

Superman derrotando Thor em JLA/Avengers

Desde então, muito se discute sobre este resultado. Aqueles que não concordam com o mesmo, alegam que a magia do Mjolnir deveria ter um efeito deletério imediato sobre o kryptoniano. Portanto, o âmago da discussão gira em torno da natureza da fraqueza do Superman à magia. Como discussão mais marginal, tem-se também a dúvida sobre quem seria mais forte, mais rápido, mais resistente. E em todas estas discussões, abundam coleções, verdadeiros dossiês de fatos e “feitos” já registrados nas HQ’s, que ora abonam uma posição, ora outra.

Com este texto, não pretendo dizer que este ou aquele deve vencer. Neste ponto, concordo inteiramente com Walt Simonson: entre personagens relativamente equiparados, tudo fica a critério do escritor. Na verdade, trata-se de um texto mais crítico, porque examina atentamente os pressupostos (errôneos) sobre os quais baseiam-se aqueles que julgam saber, com exatidão, quem deveria vencer.

Além disso, o tema tem especial importância porque o mesmo oferece-nos um excelente gancho para determinar melhor a natureza da vulnerabilidade do Superman à magia.


Por que colecionar “feitos” (ou elaborar “dossiês”) é insuficiente

Muitos discordam de Busiek. Mas o problema é que, ao discordarem, recorrem a argumentos que fortalecem, em lugar de enfraquecerem a autoridade de Busiek. Explico. Basicamente, aqueles que discordam de Busiek estão com isso a afirmar, explícita ou implicitamente, que Busiek fez uma má escolha de roteiro. Mas com base em que dizem isso? Com base em outras escolhas de roteiro. Eles rebatem uma escolha com outra escolha. Este é, aliás, o modus operandi dos fãs de quadrinhos que recorrem, de maneira acrítica, a infindáveis coleções de escolhas de roteiros de outros escritores. Em alguns fóruns de fãs de quadrinhos, estas cansativas e infindáveis coleções de fatos particulares tirados de quadrinhos já publicados são chamadas de “dossiês”.

Dossiês possuem sua serventia. Afinal, caso alguém queira opinar sobre “quem ganha de quem”, é preciso obter conhecimento sobre os personagens envolvidos, e este conhecimento é adquirido por meio da leitura das históricas em quadrinhos publicadas. Este conhecimento enciclopédico é, portanto, necessário. Mas, por si mesmo, é insuficiente. Quem se utiliza de dossiês como argumentos exclusivos, parte de um falso pressuposto: que as HQ’s são, por assim dizer, um mundo real. Mas elas não são reais. Elas são o produto da imaginação e interpretações de diferentes indivíduos, os escritores, e nem sempre aquilo que um escritor elabora como roteiro é produto de uma fria e consciente análise. Talvez este escritor conheça menos o personagem que está escrevendo do que aquele que agora lê o gibi.

Por isso, repito: embora seja necessário possuir um saber enciclopédico sobre o personagem a fim de conhecê-lo, no entanto isso não é suficiente. Além do conhecimento enciclopédico dos fatos particulares descritos nas HQ’s, é preciso possuir conhecimento conceitual, isto é, o leitor há de ser capaz de analisar conceitos, a começar pelo conceito do personagem em discussão. Se queremos saber se Thor vence Superman, então precisamos conhecer o conceito de Thor e o conceito de Superman, isto é, conhecer os atributos pertencentes a cada um dos mencionados personagens. Afinal, é através da análise de conceitos que o leitor poderá qualificar/desqualificar criticamente o trabalho de um escritor. Só podemos saber quando um escritor escreve bem o Superman quando conhecemos o conceito do Superman. E uma única história conceitualmente coerente vale mais do que muitas histórias incoerentes conceitualmente.

Já leitores que raciocinam à base de dossiês, à base de coleções de fatos particulares publicados em HQ’s,  são forçados a aceitar tudo aquilo que é posto pelo escritor. No mundo desta classe de leitores, o escritor é um deus. E se você acredita na divindade do escritor, sinto muito: você é um idiota. Além disso, os partidários dos dossiês recaem sobre um paradoxo: eles apelam a escolhas de roteiros para desqualificar UMA escolha de roteiro, sem perceberem que escolhas de roteiro tem todas elas o mesmo valor. Quando alguém alega, por exemplo, que Busiek errou ao fazer Superman vencer, que Busiek fez uma má escolha de roteiro, argumentando que, em sua análise, a partir de dossiês, o Thor venceria,  esquece-se que a análise se baseia em outras escolhas de roteiros1. Não saímos portanto do âmbito das “escolhas de roteiros”, e por isso não há razão para dizer que uma escolha é melhor que a outra. É como comparar escolher sorvete de chocolate e sorvete de morango e, partir disso, tentar decidir quem tem razão.


A essa altura alguém pode dizer: mas uma escolha de roteiro, quando recorrente, é superior a uma escolha isolada. Tem-se aqui uma evolução, sem dúvida; mas o fator quantitativo não deixa de ser problemático. Como se diz em teoria do conhecimento, do fato de que muitos cisnes sejam brancos não significa que todos são brancos. E de fato não são. 

Portanto, a mera coleção de fatos, o elemento quantitativo, embora já seja uma evolução em relação à coleção de fatos que só ocorrem vez ou outra (por exemplo: Thor usar super-velocidade), é secundário em relação ao qualitativo (que só pode ser determinado pela análise de conceitos). Talvez o fato descrito em um dossiê seja apenas um erro de um escritor desconcentrado, ou mal informado. Talvez a indústria esteja inundada de escritores desinformados. Isto é totalmente possível, de um ponto de vista de lógico.


Critérios para determinar, com precisão, os atributos de um super-herói: condição de fato e condição lógica

Para relacionar um determinado atributo a um personagem — por exemplo, a invulnerabilidade ao Superman — deve-se verificar se: a) se ele exibe este atributo em suas histórias; e b) se o atributo é coerente em si mesmo. Vamos chamar a exigência “a” de “condição de fato”, e “b”, de “condição lógica “. 

A invulnerabilidade é atributo do Superman porque em suas histórias ele exibe invulnerabilidade (condição de fato) e porque, além disso, não é contraditório ou absurdo julgar que um alienígena de Krypton seja invulnerável (condição lógica) – afinal, ele é um alienígena, um desconhecido produzido por nossa imaginação e que não encontra exemplo na experiência real, e por isso é possível conferir-lhe atributos fantásticos sem cometer absurdos.  Portanto, a invulnerabilidade faz parte do conceito de Superman, uma vez que não contradiz nem a condição de fato e nem a lógica.

Mas se atribuíssemos invulnerabilidade ao Batman, isso seria absurdo, pois em suas histórias o Batman não exibe este atributo (falta então a “condição de fato”). E se um escritor fizesse uma história em que uma bala ricocheteia no corpo do Batman? Imaginem um escritor muito mal informado, ou fanático pelo Batman, e que por isso decide que o homem-morcego é fisicamente tão perfeito que seus músculos adquiriram resistência a projeteis de arma de fogo. Ora, é fácil perceber que isto seria absurdo, pois estaria em desacordo com a condição lógica. Afinal, Batman é um homem comum, e homens comuns não ricocheteiam balas. Viola o conceito que conhecemos de seres humanos dotá-los de invulnerabilidade a armas de fogo. Portanto, a invulnerabilidade não faz parte do conceito de Batman e, por isso, se a DC publicasse uma história na qual Batman ricocheteia balas, esta história seria qualificada por qualquer leitor minimamente pensante como “imbecil” e, em seguida, gentilmente ignorada.

Outro exemplo: há uma história na qual Hulk destrói um asteroide descrito pelo escritor como maior do que a Terra. Muitos utilizam este fato para dizer que Hulk é fisicamente mais forte do que Thor, Superman, etc. O problema é que um asteroide superior em tamanho à Terra é uma ideia estapafúrdia, fisicamente impossível, uma vez que, qualquer corpo celeste cuja massa é equiparável à de um planeta seria ele mesmo um planeta, e não mais um asteroide. Sua força gravitacional (que é proporcional à sua massa) faria com que o mesmo tomasse uma forma esférica, cujos movimentos no espaço seriam então descritos como a de uma órbita de planetas. Logo, além deste corpo celeste tomar forma esférica, ele também estaria impedido de viajar solto por aí, invadindo órbitas de outros planetas. Por consequência disso, é tolice levar em consideração uma história na qual Hulk destruiu um asteroide maior que a Terra, pois esta ideia não passa no teste da condição lógica. Um asteroide maior que a Terra é uma ideia intrinsecamente incoerente. O escritor pode desconhecer princípios básicos da Física, mas isso não significa que o leitor precise seguir seu exemplo.

 

Hulk destruindo um asteroide maior do que a Terra... como se isso fizesse algum sentido

Com isso podemos perceber que encontramos a “condição de fato” a partir da leitura das HQ’s publicadas. Mas a compreensão mais importante, e também mais interessante, é aquela que reconhece a condição lógica, pois é ela que nos mune de uma compreensão autônoma e crítica sobre um personagem. É por meio dela que podemos dizer “esta ideia é simplesmente tola e, embora tenha sido escrita e publicada, eu a rejeito”.


Superman e sua vulnerabilidade à magia

E a magia em relação ao Superman? Primeiramente, vamos fixar o que é fora de dúvida: Superman é vulnerável à magia. Isto está no conceito do personagem, vale dizer, está de acordo com a condição de fato e com a condição lógica (nos quadrinhos, Superman é mostrado como vulnerável à magia; e esta ideia não é incoerente em si mesma, pois é possível dizer, sem cair em autocontradição, “Superman é vulnerável à magia”).

O próximo e decisivo desafio é determinar a natureza desta vulnerabilidade. Existem duas posições: a) Superman é, por assim dizer, “alérgico” à magia, tal como à kryptonita; b) Superman é vulnerável à magia porque todo mundo é vulnerável à magia. Neste segundo caso, não se trata de uma fraqueza específica, mas de uma fraqueza compartilhado com todos os outros personagens. 

Agora vamos avaliar cada uma das posições.

A posição “a”, que afirma haver uma vulnerabilidade específica à magia, parece estar de acordo com a condição de fato. Vamos utilizar como exemplo um enfrentamento de Superman contra Shazam, em que o último derruba rapidamente o primeiro por força de um golpe "mágico" (ou pelo menos, essa é uma interpretação usual desta imagem): 


Mas a tese da alergia kryptoniana tem condição lógica? Será que há coerência em supor que kryptonianos, por serem kryptonianos, possuem uma espécie de alergia à magia tal como à radiação de kryptonita? De nossa parte, julgamos esta ideia incoerente em si mesma, portanto, ela não possui condição lógica. Pois Dizer que kryptonianos são alérgicos à magia é como dizer que a magia possui um efeito QUÍMICO específico sobre a FISIOLOGIA de uma raça alienígena específica. Isso seria como colocar a magia na classe dos fenômenos físicos cientificamente apreendidos. E magia, por definição, é uma quebra das leis físicas, é um transcender ou ultrapassar as leis físicas. Pois se não for isso, então ela está dentro dos limites das leis científicas, dos fatos da natureza e, por isso, deixaria de ser magia. “Magia” significa nada mais, nada menos, que “aquilo que não está sob leis naturais”. É um rompimento com os limites impostos pela realidade da matéria. Por isso, por exemplo, Zatanna pode tirar um coelhinho da cartola. Isso é uma quebra de uma lei natural, pois faz surgir algo a partir do nada (no mundo físico, nada pode surgir do nada; as coisas se transformam, mas não surgem do nada). Portanto, associar magia a “efeito químico específico sobre a fisiologia específica de entidade x” é uma contradição nos termos, é uma magia que não é magia, uma ideia logicamente incoerente em si mesma.


Mas e a posição “b”, segundo a qual a vulnerabilidade é universal, e por isso atinge também o Superman? Esta posição está de acordo com a condição de fato, e diga-se de passagem, parece-nos que em uma quantidade maior do que a tese anterior. Pensemos novamente nas batalhas entre Shazam e Superman. Na maioria destes conflitos, o raio mágico de Shazam machuca o Superman, mas não provoca “alergia” no mesmo. Os raios o afetam, mas não são mortais, como seria a kryptonita. (alguns exemplos disso podem ser vistos neste mesmo blog, quando abordei, anos atrás, várias batalhas entre Superman e Shazam) Na verdade, afetam-no como afetariam outros personagens se fossem atingidos. Seria ridículo se, por exemplo, a mulher-maravilha fosse  atingida em cheio pelo raio de Shazam, e em seguida aparecesse absolutamente incólume. Abaixo deixo um exemplo (e que acabei de encontrar) de Mulher-Maravilha esboçando sofrimento ao ser atingida por um raio mágico de Zeus. Se magia fosse uma fraqueza específica do Superman, isso significa que outros personagens seriam invulneráveis à magia. Mas como pode-se ver, a Mulher-Maravilha não é invulnerável à magia.

  
Outro exemplo: Hulk enfrentando Dr. Estranho. É possível ver que a magia de Estranho surte efeito altamente deletério sobre Hulk. Logo, Hulk não é invulnerável à magia. 


E a condição lógica? Creio que também há coerência com esta, e pelas razões já mostradas. Superman é vulnerável à magia, assim como qualquer outro personagem, porque a magia é uma quebra das leis físicas. Ora, os poderes do Superman se devem a leis pseudocientíficas (mas reais no contexto das HQ’s); e sendo a magia a quebra destas leis, então o Superman pode ser machucado por um golpe que quebra estas leis. E por isso, o mesmo pode ser dito sobre o Hulk, sobre o Gladiador, Hyperion, etc. Todos eles tiram seu poder de leis pseudocientíficas (mas verdadeiramente científicas no contexto das HQ’s). Logo, para sabermos como os golpes do Mjolnir afetariam o Superman, basta revermos como ele afetou outros heróis com rigor físico similar ao Superman que já foram enfrentados pelo Thor (Hulk, Gladiador, Hyperion, Nefária etc). Logo, o “Thor vs Superman” escrito por Busiek não é absurdo, mas está fundamentado em condições de fato e em condições lógicas. 

Conde Nefária - que não traz em seu conceito nenhum tipo de invulnerabilidade à magia - defende-se do golpe do Mjolnir com a palma da mão. O desfecho de Thor vs Superman em JLA/Avengers tinha um antecedente nesta história

Mesmo personagens cujos poderes têm origem mágica - como Shazam, Mulher-Maravilha, e o próprio Thor - também são vulneráveis à magia, uma vez que que um encanto mágico só poderia ser cancelado por outro encanto mágico explicitamente invocado para aquele fim, ou se aquele que fosse atacado se protegesse através de algum artefato mágico sobre o qual incidisse um encanto do tipo "proteção absoluta contra ataques mágicos de fulano", etc. Se, por exemplo, o Dr. Estranho fosse atingido pelo raio mágico de Shazam, talvez ele até morresse (sim, "talvez", pois não há porque presumir que um raio mágico teria o mesmo efeito que raios naturais sobre pessoas comuns), exceto se "cancelasse" o efeito do raio mágico por meio de algum encanto, antes que fosse atingido pelo mesmo.

Aliás, Busiek defende explicitamente a tese “b”, como podemos ver a partir de postagens em sua conta do Twitter:

 
               
 

 


Em suma: a hipótese “b” é superior à “a”, pois está de acordo com as condições de fato (e em um nível quantitativamente superior à “a”) e, acima de tudo, ela tem condição lógica, na medida em que anuncia uma ideia coerente em si mesma. 

Mas por que, então, é comum dizer “a magia é uma das fraquezas do Superman”, e incomum dizer “a magia é uma das fraquezas do Hulk (só para citar um exemplo)”? Creio que a explicação para isso seja a seguinte. Tradicionalmente, o Superman sempre foi reconhecido como um personagem completamente invulnerável. É assim que ele foi mostrado durante toda a Era de Prata dos super-heróis. Nestes termos, não se enumera os objetos contra os quais ele é resistente, mas enumera-se aqueles contra os quais ele não oferece resistência. Portanto, como a mais absoluta indestrutibilidade foi, durante muito tempo, atributo do Superman, então o jeito era explicitar aquilo que poderia machucá-lo, ou aquilo contra o qual seus poderes não surtiam os mesmos efeitos. 

Exemplo disso podemos encontrar no primeiro encontro entre Liga da Justiça e Sociedade da Justiça, ocorrido durante a Era de Prata, e que fora escrito por Gardner Fox (ver imagem abaixo). Em um dado momento, todos os heróis ficam presos em celas com jaulas mágicas. E, justamente por serem mágicas, Superman mostrou-se incapaz de quebrá-las. Porém, se isso fosse uma fraqueza específica dele, então outros “peso-pesados” deveriam ser capazes de quebrar as jaulas. Entretanto, nem Mulher-Maravilha, nem os Lanternas Verdes (Alan Scot e Hal Jordan), nem o Caçador de Marte, etc, são capazes de quebrar, por dentro, aquelas jaulas mágicas. Mas como a fama do Superman, principalmente durante a Era de Prata, sempre foi a de ser fisicamente insuperável, era necessário que o escritor deixasse claro porque também ele não era capaz de destruir as referidas grades. 


Resultado: Superman não é alérgico à magia, mas vulnerável à mesma tanto quanto qualquer outro personagem. 

Consequentemente, a partir destes argumentos, podemos dizer categoricamente que, se um escritor assume a tese “a”, ele está cometendo um erro.


Conclusão

Os acirrados debates sobre “quem vence quem” estão carregados de princípios e noções pressupostas não suficientemente esclarecidas. Em especial, os “dossiês” sempre denunciam este tipo de irreflexão entre aqueles leitores colecionadores de fatos inventados por outros seres humanos. É como se um fato inventado, imaginado, fosse real. Como esta suposição é ridícula, sugiro que, ao lado do conhecimento enciclopédico, faça-se também uso do conhecimento conceitual, crítico, pelo qual se possa julgar se o fato incluído no “dossiê” faz realmente sentido.

E é a partir deste raciocínio conceitual que desqualifiquei aqui a ideia de que magia provoca “alergia” no Superman, ou que se trata de uma fraqueza específica de kriptonianos. Superman é vulnerável à magia porque qualquer um é vulnerável à magia. Com base nisso, desqualifica-se também aquelas opiniões que supõem que um ou dois golpes do Mjolnir, ou a invocação de um raio, poderiam liquidar o Superman.

E por que qualquer um é vulnerável à magia? Porque "magia", por definição, é um rompimento das leis naturais. Portanto, "magia" é aquilo que não pode ser plenamente conhecido, e nem plenamente explicado. Justamente por isso, debates que envolvem personagens mágicos tendem a ser mais duradouros e polêmicos: porque em sua equação, há um termo "x" bastante indeterminado. É por isso que "Superman versus Thor" é um debate tão duradouro.

Entretanto, não estou com isso dizendo categoricamente que Superman derrota Thor, ou que sempre deveria derrotá-lo. Eu estou apenas dizendo que o Mjolnir não poderia ter sobre o Superman o efeito deletério que os admiradores do Thor supõem, uma vez que ele não possui este tipo de efeito sobre outros personagens fisicamente similares ao Superman. Thor ainda poderia derrotar a versão mais moderna, pós-Era de Prata, do Superman – esta mera possibilidade certamente existe, afinal, como Walt Simonson já disse, “tratando-se de personagens equiparados, a vitória fica à critério do escritor” – mas esta vitória não poderia ser facilmente alcançada a partir do ridículo pretexto de que kriptonianos são, por assim dizer, “alérgicos" à magia, tal como o são à kryptonita.



Notas


1 Este é um dos argumentos apresentados pelo apresentador do popular canal de Youtube “Ei Nerd” (https://www.youtube.com/watch?v=vzTE7uA7Xrw). Ele distingue “escolha de roteiro” e “análise”, e a partir disso julga que sua opinião é superior à de Busiek, uma vez que Busiek teria feito uma simples “escolha de roteiro” ao colocar o Superman na condição de vitorioso. Por outro lado, ele considera sua opinião superior porque formada a partir de uma “análise”, sem perceber que sua “análise” é apenas uma coleta de várias “escolhas de roteiro”. Em outras palavras, ele não conseguiu transcender as meras escolhas de roteiro. Ele está combatendo uma escolha de roteiro por meio de outras escolhas de roteiro.

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

"Akira" e seus significados




Antes de 2019 acabar, sinto que devo registrar alguns apontamentos sobre a maior obra de Katsuhiro Otomo. Refiro-me à série mangá e ao anime Akira. É espantoso, mas durante este ano reacendeu em mim um forte interesse por Akira; sim, espantoso, pois a história escrita por Otomo se passa exatamente em 2019, e eu não me lembrava disso.

Comecemos com um pouco de nostalgia (o que não é nada inoportuno, considerando a forte carga nostálgica que recai sobre os dois personagens centrais, Kaneda e Tetsuo). Provavelmente, assisti pela primeira vez ao Akira em algum momento do ano de 1992, se levarmos em conta que a primeira edição que adquiri do mangá, então publicado por aqui pela editora Globo, é a de número 18, datada de junho de 1992. E eu comecei a comprar as revistas após assistir à animação. E se me lembro bem, comecei a colecionar o mangá quase imediatamente após assistir ao filme, talvez com poucos meses de intervalo. É difícil lembrar. Afinal, em junho de 1992 eu ainda tinha 6 anos. Mas curiosamente, lembro-me do exato momento em que minha mãe alugou o VHS pra mim, por indicação do balconista da vídeo-locadora. Eu estava indeciso sobre qual filme alugaria (eu sempre ficava indeciso). Foi quando o balconista apontou para o pôster estampado na parede do ambiente, e que trazia aquela que se tornou a icônica imagem de Kaneda, segurando o rifle laser. “Já assistiu esse? Esse é bom”, disse-me o balconista. Concordei em levá-lo. Em retrospecto, a indicação do balconista parece loucura ou sarcasmo. Pois definitivamente Akira não é para crianças de 6 anos. Enquanto assistíamos, minha mãe percebeu isso. Lembro-me que ela odiou. “Quem afinal de contas é esse Akira?”; “não entendi nada”; “que desenho esquisito, violento”... estas foram algumas críticas que ouvi da minha mãe enquanto nosso videocassete rodava o VHS de Akira.

Mas, surpreendentemente, eu adorei. Eu gostei das cenas de ação, das motos, das luzes da cidade, da trilha sonora, do conflito entre Kaneda e Tetsuo e, principalmente (embora eu fosse incapaz de articular isso na época) pelo fato de que Akira não era um filme autoexplicativo. Havia espaço ali para descobertas, interpretações. No dia seguinte, revi o filme, desta vez desacompanhado. Eu queria descobrir o que era o tal Akira. Obviamente, não consegui. E revisitei-o mais um sem número de vezes naquele período de intenso frenesi (que possivelmente se arrastou para o ano de 1993 também), inclusive locando o mesmo filme várias vezes. Como já mencionei, também comecei a colecionar no mesmo período o mangá, cujos fascículos eu comprei (ou melhor, meu pai comprou) religiosamente do n. 18 até o n. 32 (depois do 32, não chegou mais nenhum na banca de revistas da minha cidade). Afinal, eu precisava entender o significado por trás do garoto Akira, e também queria acompanhar a interação entre os amigos/rivais Kaneda e Tetsuo. Sim, considerando que eu realmente lia e relia os fascículos de Akira, e que tanto o filme quanto o mangá provocavam em mim um agradável sentimento de assombro diante de um mistério que precisava solucionar (repito: um sentimento totalmente inarticulável para mim naquela época), e o fascínio pela personalidade dos personagens, então pode-se dizer que Katsuhiro Otomo forneceu-me minha primeira experiência literária e filosófica. Agradeço-o por isso, Sr. Otomo. (Hoje ocupo-me profissionalmente da Filosofia. Acreditem: ler Akira aos 6 ou 7 anos não é muito diferente de ler Husserl ou Kant aos 34. Talvez Katsuhiro Otomo tenha me influenciado num nível ainda mais profundo do que posso conceber).


O primeiro fascículo que adquiri de Akira, em 1992, e que guardo com muito zelo até os dias de hoje.



A arracionalidade fundamental da existência humana

Mas há mensagens em Akira que só podem ser propriamente compreendidas obtendo-se certa dose de maturidade.

Uma mensagem deste tipo é uma que parece-me ser quase uma tese metafísica do Otomo sobre a força primordial que conduz a vida. Isso fica mais claro nos últimos números de Akira (em especial, nos números 36 e 37, que só tive o prazer de ler recentemente). Akira apresenta uma tese filosófica sobre a vida em geral, e sobre a humanidade em especial: esta, a humanidade, é um desdobramento específico de uma força originária muita mais universal, uma força que tem se expandido desde a aurora dos tempos. Em um primeiro momento, esta força é em si irracional, é apenas um ímpeto de expansão de si mesma e, em sua cegueira, tanto cria quanto destrói. É por isso que ao ser dominado pela mesma, o corpo de Tetsuo adquire uma forma monstruosa, mas que também se assemelha a um bebê, como se estivesse destituído de qualquer Ego ou racionalidade, como se estivesse reduzido a um ímpeto voraz pela vida. Esta interpretação é fortalecida pelo fato de que, ao dirigir-se ao templo de Lady Miyako em busca de ajuda, torna-se rapidamente violento quando atacado pela monja paranormal, o que denota a predominância dos instintos sobre qualquer reflexão em seu comportamento. Em poucas palavras, aquela força que se apossa de Tetsuo e que era incrivelmente poderosa no garoto Akira corresponderia mais ou menos àquilo que Arthur Schopenhauer chamou de “vontade”.



Mas também é explicado por Miyako a Kaneda que o caos e dificuldades gerados por Akira (ou, mais precisamente, por este ímpeto que se expressa em maior medida no menino Akira) são circunstâncias escolhidas para “promover a evolução da humanidade”. Pelo diálogo entre Kaneda e Miyako, fica claro que Otomo supõe uma cisão entre as escolhas individuais e as escolhas desta força, deste ímpeto, que por sua vez corresponde ao gênero humano. Kaneda argumenta que mesmo a evolução deve ser um evento programado. Miyako responde que não se deve duvidar da capacidade do espírito humano em escolher seu curso de desenvolvimento. Considerando que os indivíduos em geral não podem fazer escolhas deste tipo (afinal, indivíduos só fazem escolhas individuais, e não generalizadas), então Miyako só pode estar se referindo a uma escolha tomada por aquela força que expressa a humanidade em geral.



Mais uma vez, podemos nos servir de Schopenhauer aqui, com sua distinção entre indivíduo e o gênio da espécie. Este último faz escolhas pelo primeiro a todo momento, sem que o primeiro esteja consciente disto (é o ocorre, por exemplo, no intercurso sexual. Para Schopenhauer, o indivíduo em sã consciência jamais escolheria isso; mas o caráter da espécie que habita no mais íntimo do indivíduo provoca nele uma impulsão vital e inconsciente para o sexo). A diferença aparente entre Otomo e Schopenhauer é a de que a força vital narrada por Otomo busca uma evolução, e evolução pressupõe algum planejamento (em Schopenhauer não poderia haver evolução). Logo, a força vital referida por Otomo não pode ser inteiramente irracional ou cega, mas precisa ser arracional, no sentido de que seus planos e desígnios podem soar incompreensíveis à racionalidade humana, restrita a uma perspectiva mais limitada ou circunstancial. O indivíduo vê na obra daquela força apenas caos e irreflexão. Mas sob uma perspectiva absolutamente abrangente, que enxerga o todo e não apenas as partes (isto é, sob o intelecto divino), o resultado não seria o caos, mas a evolução. E evolução pressupõe planejamento, finalidade. Toda evolução é teleológica. Afinal, só há coerência em se falar de evolução quando uma determinada forma de vida transita de um estágio inferior para um estágio superior. E o critério para se definir o que é inferior ou superior é a assunção de uma finalidade, uma meta a ser alcançada. Dizer que há evolução é dizer que estamos caminhando para o melhor, que estamos alcançando uma meta. Mas assumir uma meta ínsita à natureza também nos conduz à ideia de uma inteligência ordenadora, um criador. Afinal, como escreve Kant na Crítica do Juízo (B 335): “a teleologia não encontra nenhuma conclusão última para as suas pesquisas senão numa teologia”. Ah, estes evolucionistas... são tão criacionistas (sem sabê-lo, é claro)!1




Decadência moral e artificialismo; o possível significado do símbolo da cápsula

Uma outra noção mais profunda em Akira é a própria temática Cyberpunk. O gênero Cyberpunk tem um viés bastante contracultural, é verdade. E o mesmo vale para Akira, com as suas imagens de edifícios gigantescos e que denotam uma vida urbana noturna intensa, gangues de motociclistas, a famosa jaqueta de Kaneda com a imagem da pílula nas costas, com os dizeres “good for health, bad for education”, etc. Mas, curiosamente, à rebelião estética contida no gênero Cyberpunk corresponde uma mensagem política bastante conservadora. Pois Cyberpunk é sobre a miséria moral provocada pelo progresso e pela tecnologia. Cyberpunk é pessimismo em relação ao progresso. E como boa obra Cyberpunk, Akira também registra sua crítica implícita à vida noturna intensa, à substituição do espírito pela matéria, à soberba da ciência, etc., na medida em que também representa um mundo tomado pelo vazio espiritual porque os impulsos hoje de fato presentes na contemporaneidade finalmente se elevam, em Akira, a uma maior potência e com isso se apossam de tudo. Isto fica claro sobretudo se considerarmos a juventude retratada por Otomo. Os jovens são desordeiros, agressivos, preguiçosos, membros de gangues e experimentam estimulantes sintéticos com alguma frequência. Quem atualmente lida com jovens em escolas sabe como este aspecto outrora fictício da obra de Otomo materializou-se nos dias de hoje. Neste sentido, Akira funciona como uma denúncia sobre os males do materialismo e da falência espiritual, e um angustiado aviso sobre o que está por vir. É claro que Otomo poderia dizer-nos que esta falência moral é parte de uma “evolução”. E eu respeitosamente ousaria discordar.

Dito de modo mais preciso, em minha interpretação Akira é uma denúncia contra o artificialismo. O palco sobre o qual se desenvolve toda a história de Akira, a cidade de Neo-Tokyo, é pura ciência, pura arquitetura, pura engenharia, pura tecnologia. Não há espaço para a natureza, exceto em imagens nostálgicas que só existem na memória e consciência dos personagens. Em suma, Neo-Tokyo é puro artifício. Talvez seja este o sentido mais forte da cápsula estampada na jaqueta de Kaneda, pois a cápsula é um símbolo do artifício humano. Alguns certamente interpretam a imagem da cápsula como uma referência ao fato de que Kaneda e sua gangue eram mostrados como usuários eventuais de estimulantes sintéticos nas primeiras páginas de Akira. Mas devemos nos lembrar que o uso recreativo que os mesmos fazem daqueles estimulantes é mostrado apenas no mangá, e a jaqueta com a cápsula é utilizada apenas no filme, onde em nenhum momento Kaneda faz uso recreativo de drogas sintéticas. Além disso, mesmo no mangá, a atitude de Kaneda e sua gangue em relação ao uso das drogas sintéticas é no mínimo ambígua, um misto de receptividade e desprezo pelas mesmas. (No número 5 do mangá editado pela Marvel e, aqui, no Brasil, pela Editora Globo, Kaneda diz que por uma “questão de princípio”, “nenhum motoqueiro que se preza deixa um bando de viciados chutar seus traseiros”). Consequentemente, a imagem da cápsula na jaqueta de Kaneda não poderia ter conotação de apologia, pois isso me pareceria um tanto conflitante com a personalidade do próprio personagem que, apesar de marginalizado, sustenta desprezo por “viciados”.

Soma-se a isso o fato de que no mesmo mangá, drogas em cápsulas não são utilizadas apenas para fins recreativos; são utilizadas também pelo governo (muito mais do que pelos delinquentes da gangue de Kaneda) por razões científicas. O Coronel (outro personagem-chave de Akira) e seus cientistas utilizam cápsulas como um meio de obter controle sobre as crianças com poderes paranormais (Kiyoko, Masaru e Takashi) e, posteriormente, para obter controle sobre Tetsuo. Entretanto, o desenvolvimento de Akira nos mostra que este desejo de controle sustenta-se sobre pressupostos ilusórios, pois as crianças se tornam extremamente dependentes das cápsulas e, no caso de Tetsuo, a dependência química conduz à revolta e a um comportamento extremamente destrutivo, justamente o que o Coronel sempre buscou obsessivamente evitar. A ciência falhou, e o artifício não garantiu ordem alguma; apenas impôs o caos.


Logo, a imagem da cápsula só pode significar o artificialismo decadente que perpassa toda a história de Akira e seus personagens. É como se Otomo, através da cápsula estampada na jaqueta de um de seus protagonistas, quisesse nos passar toda esta mensagem não tanto de forma explícita ou autoexplicativa na sua própria história, mas pela via da imagem, da intuição estética. A mesma mensagem – isto é, a onipresença do miserável artificialismo em nossas vidas futuras – é apreensível a partir do icônico pôster da animação de 1988 (vide acima), com cabos ou fios elétricos de Neo-Tokyo subindo pelo corpo de Kaneda, que ali parece ser tão artificial quanto a cidade na qual vive, pois está preso à mesma. É neste artificialismo que consiste a tragédia de todos os personagens centrais de Akira, e que explica em grande parte a decadência moral dos mesmos – decadência moral que é cuidadosamente equilibrada por Otomo pelos vários feitos heroicos de alguns deles (Kaneda, Key, o Coronel, etc.), como um atestado implícito da imortalidade do livre-arbítrio e da consciência moral humana, que insistem em sobreviver mesmo em meio à degeneração da vida social dominada pela artificialidade e seus inseparáveis amigos, o materialismo e a mesquinhez. É neste ponto, e não na tese de uma “evolução” garantida por uma força arracional, que encontro algum raio de esperança na história de Akira.




Nota



1 Ernst Föhr, em um livro tão interessante quanto desconhecido, ao menos aqui no Brasil (Naturwissenschaftliche Weltsicht und christlicher Glaube, Editora Herder, Freiburg, 1974), escreve na página 106: “A palavra evolução vem da palavra latina ‘evolvere’ = revirar. Evolução significa diferenciação, desenvolvimento para formas de vida superiores [...]. A evolução das formas de vida é uma esplêndida indicação à teleologia, que o espírito do Criador [...] inseriu como lei na natureza viva”. A tese de Föhr é no sentido de que só se admite evolução se se admite um telos na natureza; e um telos só pode ser admitido sob a pressuposição de uma inteligência dirigente, um Criador: “pode-se aceitar totalmente um desenvolvimento superior à humanidade, se se presume, como nós, que a vontade eficiente do Criador estritamente teleológica tem dirigido a evolução” (p. 106).