sábado, 19 de agosto de 2017

Afinal, o que é o Justiceiro de Garth Ennis: homenagem ou calúnia à ideia de justiça retributiva?

Entre os fãs do vigilante Frank Castle parece haver um forte consenso: Garth Ennis é um dos melhores escritores que já passaram pelos títulos do Justiceiro. De fato, qualquer fã do personagem tem um duplo débito em relação ao escritor irlandês. Em primeiro lugar, Ennis foi um dos grandes responsáveis por resgatar Frank Castle do ostracismo, após o personagem sofrer intensos maus tratos por parte da Marvel no final dos anos 90 (vide a saga em que o Justiceiro se torna parte da máfia, ou quando muda de etnia após passar por cirurgias, ou quando começa a trabalhar para anjos celestiais após morrer). Em segundo lugar, não se pode negar o óbvio: Ennis sabe contar boas histórias, e isso foi essencial para o processo de recuperação do prestígio do Justiceiro.

Após reconhecer os méritos de Ennis, agora passo a uma análise mais crítica de seu trabalho no Justiceiro. O que devo adiantar de imediato é que, a meu ver, Ennis sustenta uma postura bastante ambígua em relação a Frank Castle. Em certas histórias, Ennis parece respeitar o personagem e seu simbolismo moral; parece de fato se comprometer com a defesa da ideia de justiça distributiva. Bastante emblemático neste sentido é a história “The devil by the horns”, publicada em The Punisher #3 (vol.3 – selo Marvel Knights), de junho de 20001, na qual o Justiceiro confronta novamente o Demolidor. Creio que nenhum outro escritor anterior que narrou um embate entre Justiceiro e Demolidor (como Frank Miller, Ann Nocenti e Mike Baron) tenha feito uma defesa tão apaixonada e convincente da ética de Frank Castle diante das críticas de Matt Murdock.

 The Punisher #3 (Vol.3). Capa de Tim Bradstreet.





Nesta história, mais uma vez Demolidor ataca o Justiceiro sob o argumento de que matar criminosos é errado, e que portanto Frank “possui uma escolha”, e que obviamente, a escolha correta seria não matá-los. Mas Frank estava preparado. Ele consegue atordoar o Demolidor, que desperta momentos depois, totalmente preso e imobilizado em correntes, com um revólver carregado amarrado em suas mãos, e apontado para o Justiceiro. Castle queria colocá-lo diante de um dilema moral: ele tinha a chance de impedir que o Justiceiro fizesse sua próxima vítima, mas a única maneira de fazê-lo era matando-o, com um tiro em sua cabeça. Isto é, caso o Demolidor quisesse evitar que Castle matasse mais um criminoso, ele teria que apertar o gatilho antes de Castle. De qualquer forma, ele teria uma morte em sua consciência.



O "debate" entre Justiceiro e Demolidor. Arte de Steve Dillon.

A questão é: é melhor ter na consciência a morte do agressor, ou a morte da vítima? Quando o Demolidor pergunta “que tipo de escolha é essa?”, Castle responde: “o tipo de escolha que faço sempre que aperto o gatilho”. A mensagem é clara. O Justiceiro faz o que faz porque no mundo em que ele vive é preciso decidir: ou se mata o agressor, ou se permite que a vítima pereça nas mãos do agressor cuja vida fora poupada. De qualquer modo, alguém perderá sua vida, o criminoso ou o inocente, e a responsabilidade está nas mãos daquele que tem o poder de decidir2. Castle decidiu que neste terrível dilema, deve-se preferir pela preservação da vida do inocente, porque ele não suportaria ter em sua consciência a morte do inocente. Logo, o culpado deve morrer. Portanto, o Justiceiro vive em função de um código moral, segundo o qual o culpado deve ser punido e o inocente deve ser protegido. Sua conduta é resultado de dois motivos que agem entre si reciprocamente: o desejo de punição do culpado e o desejo de preservação da vida do inocente. Portanto, pode-se dizer que a rigidez de seu comportamento em relação aos criminosos encontra em sua empatia pela vida dos inocentes um correlato fundamental.

Apesar disso, em muitas situações a narrativa e argumentação de Ennis pareceu funcionar como uma intensa calúnia à causa do Justiceiro. Isso fica particularmente evidente na história "Born", que narra o período em que Castle lutou no Vietnã. Ennis deixa claro que Castle é guiado em primeiro lugar por um forte desejo de matança. A justificativa ética de suas ações aparece apenas como um aspecto residual e secundário em sua conduta. Demonstração cabal disso é o momento em que Castle provoca, ainda que de maneira indireta (mas totalmente deliberada), a morte de um general, apenas porque este estava prestes a mandá-lo de volta pra casa. Mas Frank Castle não queria ser afastado do combate no Vietnã, porque para ele o ato de matar é um fim em si mesmo.
Capa de "Born". Arte de Wieslaw Walkushi


Quão longe está este Frank Castle de sua versão clássica escrita por gente como Gerry Conway, Steven Grant, Mike Baron e Carl Pots! Quão longe isto está da sua origem contada por Dan Abnett a Andy Lenning, publicada em Punisher: year one3, e que para mim é a origem definitiva do famoso vigilante da Marvel Comics. Na origem contada por Lenning e Abnett, Frank Castle torna explícita suas motivações: compensar a inadequação da lei positiva quando esta não pune o culpado, com a finalidade de alcançar a punição (ou justiça) natural. “Eu não falo de vingança”, diz Castle. “Revanchismo não é um motivo válido (...). Estou falando de justiça”4.

Capa de The Punisher Year One. Arte de Dale Eaglesham e Vince Evans.

Mas em "Born", o Justiceiro de Ennis não é um Punisher, uma vez que seu objetivo principal não é punir. Não; a punição é indissociável de um comprometimento ético com a justiça, conforme fica claro a partir do texto magistral de “year one”. "Punir" é o mesmo que impor a justiça. É o justo castigo. Mas em "Born", Frank parece apenas querer matar... pelo simples fato de que gosta de matar. E para tanto vale tudo, até mesmo eliminar um general. Quantos heróis e policiais o Justiceiro clássico não teria matado, se fosse prevalecer a interpretação de Ennis sobre o personagem. 

Portanto, digo que a interpretação de Garth Ennis da personalidade de Castle está errada, pois não explica o fato de que o Justiceiro jamais agiu em outras histórias sob aquelas mesmas motivações descritas em "Born". A finalidade literária de se contar uma origem é a de explicar o porquê de o personagem em questão agir como ele age agora; de explicar ao leitor porque ele se tornou aquilo que agora ele é. Mas se cotejarmos o capitão Castle escrito por Ennis com o Justiceiro existente desde 1974 (ano de sua criação e publicação), a impressão que se tem é a de que se trata de outro personagem. Portanto, houve uma falha clara da parte de Ennis5. O escritor não tentou ajudar-nos a entender o Justiceiro, mas tentou recriá-lo. E nesta reformulação a mensagem parece ser esta: é preciso ser um psicopata para aderir a um código moral fundamentado na ideia de justiça retributiva; é preciso ser um psicopata sádico para pensar que aquele que mata, merece morrer afinal. Portanto, com “Born” – e com outras histórias escritas por Ennis, em que Frank parece mais uma máquina desalmada programada para matar – exprime-se uma verdadeira calúnia à ideia de justiça retributiva e, consequentemente, àquele elemento conceitual que constitui o núcleo moral de Frank Castle.






1 no Brasil, fora publicada pela Panini no encadernado "Bem-vindo de volta, Frank", em 2008.
2 O que se pode discutir aqui é se a perspectiva de Castle sobre a sociedade na qual ele vive é, de fato, a perspectiva mais correta. Na visão do Justiceiro, a violência urbana é tamanha que tal situação se assemelha a uma guerra, e em uma guerra o adversário deve ser derrotado, mesmo que pelos meios mais brutais. E é por isso que, em sua fase clássica, o Justiceiro sempre registrava suas ações em seu famoso “diário de guerra”. Obviamente, na perspectiva do Demolidor, ainda vivemos em uma sociedade predominantemente ordeira, ainda que imperfeita. 
3 publicada no Brasil pela editora Abril Jovem em 1996 como uma mini-série quinzenal, sob o título de “Justiceiro: Ano Um”.
4 Este discurso fora reproduzido no bom filme The Punisher, de 2003, estrelado por Thomas Jane.
5 Na edição encadernada de Born publicada em 2016, é possível visualizar nas últimas páginas, como um elemento extra, o texto originalmente proposto por Ennis. Nele, Ennis é explícito ao analisar as motivações de Frank: “Frank simplesmente gosta disso (de matar), e a morte posterior de sua família é um pouco mais que uma desculpa”. Ele também deixa claro que a “voz” misteriosa com a qual Castle dialoga no Vietnã – que parece ser simplesmente a parte obscura e cruel de sua consciência – é na verdade o Grim Reaper (isto é, o Ceifador). E talvez por perceber que isso é um tanto ridículo, Ennis escreve que “we’ll play this subtly, no outright statements”. Essa atmosfera mística, que se resolve em uma metafísica grosseira e pueril, não coincide em nada com o conceito do Justiceiro. 

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