domingo, 10 de abril de 2016

A Guerra Civil da Marvel e suas tendências políticas


Como o filme "Capitão América: Guerra Civil" está a poucos dias de estrear, vou postar aqui algumas das minhas inúteis considerações (mas altamente instigantes para umas 10 pessoas no mundo inteiro, das quais ao menos 9 eu ainda não conheço) onde misturo política e quadrinhos referentes à HQ que inspira o filme citado.

No ótimo documentário "superheroes: a never ending battle", Grant Morrison diz que o Capitão América da HQ "Guerra Civil" é um "liberal", no sentido norte-americano do termo, por se opor ao governo. Errado, Morrison. "Liberais", neste sentido, não são opositores do governo. Ao contrário: desde o New Deal de Roosevelt, liberais americanos se caracterizam por impor ao governo responsabilidade cada vez maior pela promoção - através das chamadas "ações afirmativas" ou interventoras - do welfare state (que é a ideologia utilitarista da maior felicidade ou prosperidade possível para o maior número possível). Portanto, esses liberais desejam AUMENTAR o governo, e não diminuí-lo. O valor que norteia suas ações é, em primeiro lugar, a igualdade material, a qual só pode ser obtida através de intervenções estatais, que pressupõem um estado bem crescidinho.

Mas o Capitão desta HQ é um paladino da liberdade individual (que, diga-se de passagem, é e sempre será causa de desigualdades materiais), e por isso ele protesta de modo extremamente brutal contra a intromissão do governo (apoiado pelo Tony Stark) na liberdade do indivíduo de escolher vestir-se de forma exótica e quebrar a cara de criminosos, sem precisar prestar contas a ninguém por isso. Parece-me que esta atitude aproxima o Steve Rogers dos LIBERTÁRIOS norte-americanos, que, em grande medida, compõem as fileiras do Tea Party (e que são os maiores inimigos dos liberais e de certos roteiristas da Marvel Comics que escrevem apaixonadamente... o Capitão América).

Portanto, estou retificando parcialmente o que anteriormente havia dito neste mesmo blog. No meu post "Why Captain America is Conservative", eu usei a "Guerra Civil" para ilustrar meu ponto de vista de acordo com o qual Steve Rogers é conservador. Embora eu ainda veja o Capitão América como sendo predominantemente conservador (afinal, não podemos esquecer que Rogers é, em essência, um soldado que luta por seu país, com uma viva consciência sobre o dever patriótico, e bastante motivado por costumes usuais em gerações passadas), no entanto sua atuação em Guerra Civil é bastante libertária. Não vejo tanto Burke ou John Adams ali; vejo muito mais Thomas Paine. É certo que muitos têm dificuldade de distinguir, atualmente, libertários e conservadores nos EUA. Mas isso não anula a distinção que de fato há entre estas duas tendências. Penso que o melhor critério de distinção está na identificação dos valores perseguidos por cada tendência. Libertários - que na verdade são representantes contemporâneos dos liberais clássicos europeus - colocam a liberdade individual acima de qualquer outro valor, enquanto que conservadores colocam a ordem ao lado da liberdade (e conservadores como o inglês Roger Scruton até mesmo colocam a ordem acima de qualquer valor).

Por outro lado, sempre pensei no Stark como o verdadeiro liberal da trama, por apoiar intromissões governamentais onde outrora não existiam, o que é uma forma de progressismo (e o liberalismo norte-americano é o mesmo que progressismo). Mas mudei de ideia. Ele é um conservador, uma vez que o valor que o impulsiona é a ordem, que conservadores têm em alta conta, colocando-a até mesmo ao lado da liberdade (e não muito abaixo, como geralmente fazem os libertários). O curioso é que eu me considero conservador, mas não consigo deixar de simpatizar muito mais com o Capitão América do que com o Homem-de-Ferro.

Mas enfim... nenhum dos dois grandes protagonistas em questão é liberal. Na verdade, acho que o único super-herói realmente liberal que conheço é o arqueiro-verde. A mulher-gato que aparece na HQ "Injustice: gods among us" também é liberal. Mas quem se importa com as tendências políticas da mulher-gato (ou com todas essas coisas que acabei de escrever)?

Mulher-gato reproduzindo, quase ipsis litteris, o discurso do partido democrata na HQ "Injustice: Gods Among Us". Liberais estão mal representados nos quadrinhos, não?

domingo, 27 de março de 2016

Minha opinião sobre "Batman v Superman" (sem spoilers)

- Impressão geral sobre o filme (texto escrito no período de seu lançamento)

Quando foi anunciado, há algum tempo atrás, que a sequência de Man of Steel se daria por meio de um enfrentamento direto entre Batman e Super-Homem, eu decidi me resignar diante do fato inevitável de que meu herói favorito (refiro-me ao Super-Homem) seria exposto ao ridículo nas salas de cinema. Pois em uma luta entre Batman e Super-Homem, apenas o primeiro pode sair ganhando: se o Super-Homem vence não há mérito nenhum, uma vez que o Batman é um homem comum; mas se o Super-Homem perde, uma enorme vergonha recai sobre o Homem de aço, uma vez que ele foi derrotado... por um homem comum. Por isso, quando se trata da temática de quadrinhos "fulano versus cicrano", o "Batman versus Super-Homem" aproveita apenas aos fãs do morcego. Se for para apreciar esse gênero de histórias, os fãs do Super-Homem querem vê-lo enfrentar o Lanterna Verde, o Caçador de Marte, o Capitão Marvel, o Thor, Hulk, etc. Querem batalhas épicas entre peso-pesados. 


Para piorar a situação, divulgou-se ainda que a fonte de inspiração seria aquela famosa história escrita por Frank Miller (sobre a qual já me manifestei aqui neste blog). Mais adiante, o diretor Zack Snyder declarou que o filme teria mais espaço para o Batman, que precisaria ser reintroduzido no novo universo cinematográfico da DC. Foi quando constatei decididamente: "Batman v Superman" será um filme anti-superman, dedicado ao Batman.
Mas depois de assistir ao filme, tenho que admitir que, para minha surpresa, "Batman v Superman" é um dos melhores filmes de super-heróis dos últimos anos. 
Por quê? O filme em questão simplesmente cumpre todos os requisitos que devem ser exigidos em um trabalho do gênero. Há moralidade, coragem, altruísmo e ação. Há também alguns insights psicológicos interessantes, relativos à situação hipotética criada em Man of Steel: afinal, o que sentiria o Homem se posto diante do Super-Homem?


E há uma boa história. Em nenhum momento senti tédio, mas permaneci compenetrado durante as 2:30h dentro das quais se estendeu o filme. Não posso dizer o mesmo de filmes do gênero que vi mais recentemente, como Capitão América 2 ou Vingadores 2. Lembro-me que Man of Steel também teve seus momentos cansativos. Batman V Superman, não. O roteiro teve seus furos? Sim. Mas eu nunca vi roteiros sem seus furos ou inconsistências em outras obras do gênero. Seria ingenuidade esperar que "Batman V Superman" pudesse revolucionar algo neste sentido.


As atuações também não deixaram nada a desejar. Ben Affleck, que fora tão contestado, realizou um bom trabalho como Bruce Wayne e Batman. Cabe aqui ressaltar que agora o personagem se utiliza da tecnologia para alterar sua voz quando vestido de Batman, em lugar daquela voz gutural alvo de tantas paródias, interpretada por Christhian Bale na trilogia dirigida por Nolan. O resultado ficou muito melhor.


A atuação de Henry Cavill também me agradou bastante, inclusive mais do que a de Affleck. O Superman de Cavill não é uma versão sorridente e otimista, mas tem tom trágico e sustenta uma postura de profunda austeridade e seriedade. Pessoalmente, gosto muito deste Superman, que me faz lembrar de sua versão de "kingdom come", embora muito mais jovem.


Ainda no que diz respeito às atuações, o único ponto fraco que consegui encontrar é o Lex Luthor de Jesse Eisenberg. Em minha opinião, sua interpretação ficou caricata demais. Este Lex comporta-se como um cientista louco com trejeitos extremamente histriônicos; um misto de doutor Silvana e Coringa, sem compartilhar do carisma destes últimos. Faltou-lhe a frieza emocional e sobriedade que marcam as grandes versões de Lex Luthor. Para não dizer que não foi feita alguma justiça ao lendário vilão, deve-se reconhecer que seu maquiavelismo e inteligência incomparáveis foram plenamente honrados e preservados.


Não perderei tempo comentando a Mulher-Maravilha de Gal Gadot. Basta dizer que, ao que parece, ela é a grande unanimidade em todos os reviews que li até agora. E todos a elogiaram bastante. Não tenho o que acrescentar.


A trilha sonora de Hans Zimmer está excelente, e fiquei bastante feliz com o fato de que preservou-se os principais temas de "Man of Steel".
Eis, portanto, um resultado final que eu qualificaria como excelente, uma vez que os três elementos principais que definem a qualidade de uma obra cinematográfica - história, atuação e trilha sonora - são, em geral, bastante satisfatórios. 


Como fã do Superman, eu não poderia exigir muito mais. Ao contrário do que imaginei, não se tratou de um filme apenas do Batman (com participações do Super-Homem). Snyder conseguiu manter em excelente equilíbrio entre os dois protagonistas. Além disso, o embate direto entre os dois heróis é um momento um tanto insignificante, considerando todo o contexto do filme. Na verdade, eu ousaria dizer que o personagem do Superman possui um protagonismo maior, pois ele é o grande tema da história, o ponto gravitacional em torno do qual quase tudo gira. Ninguém se importa com o Batman (exceto Clark Kent), mas todos falam o tempo todo sobre o Superman. As duas questões principais de "Batman v Superman" são: afinal, o que os simples homens sentiriam diante do Super-Homem (um problema de ordem psicológica) e como um Super-Homem deve se comportar diante da humanidade (um problema de ordem ética). Em grande parte, o roteiro é dirigido pelo ódio e medo sentidos pela humanidade em relação a Kal-El, e a busca do mesmo por aceitação e redenção. Logo, não seria exagero dizer que o Super-Homem é o coração de toda a trama, e o motor que movimenta a história. Além disso, o número de elementos de seu universo pessoal são extremamente preponderantes em toda o filme: temos Lois Lane (com participação extremamente significativa), Perry White, Martha Kent, e as grandes ameaças são constituídas pelo já mencionado Lex Luthor e o poderosíssimo Apocalipse.


E, por fim, devo dizer que o MELHOR e mais belo momento de todo o filme (ao menos em minha opinião) é inteiramente protagonizado por Superman.

Veredito: Batman V Superman é um filme perfeito? Não. Está a altura dos dois primeiros filmes do Superman, com Christopher Reeve? De forma alguma. Mas ainda assim é um bom filme de super-heróis? Certamente. Antes de julgar este filme, temos que levar em consideração as limitações próprias ao gênero. Repito: Batman V Superman tem alguns problemas, mas são problemas compartilhados por todos os filmes do gênero produzidos ao menos nesta última década. Tendo em vista estas considerações, devo dizer que, em minha opinião, Batman V Superman é um filme bastante satisfatório.

- Meus comentários sobre o teor moral de Batman v Superman (texto escrito em 2.020)

Em sua parte mais significativa, a história narra o contraste entre a grandeza de um homem, e a pequenez de muitos outros homens. Nesta última categoria, podemos colocar Lex Luthor, a senadora Finch e, temporariamente, o Batman. Na primeira, o Superman. E por que faço esta qualificação? Uma característica dos mesquinhos é o fato de que os mesmos são consumidos pelo ódio dos impotentes, pelo ressentimento. Pessoas mesquinhas tendem a se esforçar não em superar, mas a destruir e degradar tudo aquilo que secretamente percebem como maior do que elas mesmas. 

E por que o Batman é colocado por mim nesta categoria dos mesquinhos? Porque em boa parte da história, o seu motivo principal é o ódio impotente diante do poder que o Superman representa. Mas não nos enganemos. O Batman não pode aqui ser considerado uma espécie de republicano plenamente consciente da necessidade de freios e contrapesos, isto é, de um equilíbrio saudável que agora é ameaçado pela simples presença de um Superman. Se essa foi a intenção dos roteiristas Chris Terrio e David Goyer, então ambos erraram o alvo. Pois é intrinsecamente incoerente colocar o milionário (talvez bilionário) Bruce Wayne como um amante do equilíbrio de poderes. Não. O rico Bruce Wayne, patrão de boa parte de Gotham City, sempre exerceu uma fatia de poder muito maior do que a larga maioria dos seres humanos. Como Batman, seus recursos bélicos e tecnológicos, além de suas incríveis faculdades físicas e intelectuais (quase sobre-humanas), sempre o colocaram acima dos demais. Além disso, sua máscara sempre permitiu-o agir sem ser responsabilizado. Sim, o Batman/Bruce Wayne é alguém muito poderoso; certamente o mais poderoso em seu universo pessoal. Logo, não é coerente sequer imaginar que o Batman esteja interessado em equilíbrio de forças, pois ele nunca viu problemas com o fato de que, até então, ele próprio era o mais forte. 

Mas agora surge o Superman, cujos atributos quase divinos (o Batman é alguém que se aproxima do sobre-humano; e o Superman, alguém que se aproxima de Deus) reduzem a quase nada as habilidades do Batman e o enorme patrimônio de Bruce Wayne. Resultado? O então mais poderoso sente-se patologicamente compelido a destruir o novo homem mais poderoso. Esta nossa interpretação é confirmada pelos roteiristas no momento em que os mesmos colocam aquelas palavras na boca de Alfred que, ao lado do Superman, é o outro grande homem da história, porque intelectualmente capaz de manter uma visão objetiva e clara sobre as coisas: "é assim que começa. A febre, a raiva, o sentimento de impotência... que convertem bons homens em cruéis". É como se Alfred, assumindo o lugar de Nietzsche, dissesse ao seu pupilo Bruce Wayne: "você está se tornando ressentido". E, tal como Nietzsche nos ensina, o ressentimento leva os homens impotentes ao ataque, à calúnia. Guiados pelo ódio dos impotentes, homens ressentidos logo se apressam a caluniar aquele que eles percebem como sendo o mais poderoso e mais forte. E, assim, ao invés de contemplarem maravilhados o Superman e suas boas ações, e dizerem "ele é grandioso", eles apontam o dedo e gritam: "ele nos ameaça!". E, assim, os atos heroicos e altruístas do Superman são degradados, no vocabulário do ressentido, em manifestações de poder (e convém notar aqui que o próprio Nietzsche foi refém deste tipo de ressentimento, ao ser incapaz de reconhecer na moralidade nada além de vontade poder), e sua grandiosidade, em ameaça. 

É precisamente esta mesma mentalidade que guia o comportamento da senadora Finch. Quando o Superman obedece à sua convocação e se apresenta no capitólio, as palavras em tom hostil da senadora Finch (o ressentido sempre tem necessidade de ser hostil) são "é assim que a democracia funciona. Nós conversamos uns com os outros. Nós agimos sob o consentimento do governo". Tradução: "Superman, eu o odeio por não controlá-lo; eu o odeio por você não vir até mim, ouvir-me e submeter-se aos meus imperativos". Este é o preciso significado de suas palavras, que são prudentemente floreadas pela típica retórica político-democrática. "Conversar" significa "ouvir ao Congresso". Em outros momentos do filme, a senadora Finch acusa o Superman de "agir unilateralmente". Mais um vez, isso é apenas um eufemismo para "ele não faz aquilo que o mandaríamos fazer". Podemos reduzir todo o conteúdo das falas da senadora Finch a "eu o odeio por não se colocar sob o jugo do meu poder". 

Lex Luthor é o terceiro ressentido. Quando este diz que é ilusório acreditar que o poder pode ser inocente, há alguma verdade nisso. Geralmente, o poder não é inocente (porém, que esta sentença não é universal, segue-se do fato de que para fazer o bem, é preciso ter poder para tal. Logo, o bem pressupõe poder, tanto quanto o mal pressupõe poder). Mas sua frase apenas mascara os seus verdadeiros sentimentos, que é o de ódio e impotência diante de um poder maior que o seu próprio. Pois se Luthor realmente se incomodasse com o fato de que o poder jamais pode ser inocente, então ele deveria começar por repreender a si mesmo, considerando o enorme poder de que ele próprio desfruta. Como bom vilão de quadrinhos, o propósito de Luthor na história é o de amplificar, por meio de seu próprio comportamento caricato, as intenções mais sórdidas do ser humano que, em realidade, manifestam-se muito mais sutilmente, mediante toda sorte de floreios, auto-enganos, auto-indulgências mascaradas sob enormes camadas de eufemismos e retórica canalha. Luthor é a versão desnudada do lado mais sórdido de Wayne e Finch.

E o que o Superman faz diante de tantos ataques e calúnias? Ele simplesmente tenta ao máximo fazer a coisa certa, enquanto é alvo de cusparadas e de comentários mesquinhos em programas de TV. Como grande herói da história, esforça-se ao máximo para manter-se fiel ao ideal concebido por seu pai Jonathan Kent, apesar de todas as dificuldades impostas não tanto pela realidade, mas pelos caprichos de indivíduos cobiçosos. Por isso, é realmente triste quando o Superman, já muito próximo de ceder à pressão de um ambiente tão contaminado pela maldade, diz angustiado para Lois: "ninguém permanece bom neste mundo". 

Entretanto, apesar de sua decepção -- que jamais converte-se em ressentimento -- seu último ato é o de sacrifício supremo para salvar um mundo que o ataca. A proximidade entre Superman e Jesus Cristo é bastante manifesta neste ponto. E, dando continuidade à semelhança, seu exemplo de altruísmo e amor tem por consequência resgatar o Batman do abismo de sua própria mesquinhez. "Falhei com ele em vida, não vou falhar com ele em morte", são algumas das últimas palavras de Bruce Wayne, agora convertido em apóstolo do Superman. No final das contas, o heroísmo puro do Superman triunfa, na medida em que, pelo seu exemplo, consegue salvar das próprias trevas a alma de um homem. E é graças a isso que o Batman, que começa a história como um ressentido, conclui-a trazendo novamente dentro de si a boa vontade de um herói.  


quinta-feira, 23 de julho de 2015

O que o mito do Superman pode nos ensinar?



Há muito tempo penso que os super-heróis em geral não são simples figuras de entretenimento ou escapismo barato. Não; eu vejo nos super-heróis uma força pedagógica, na medida em que eles expressam e reforçam ideais morais a partir de seu exemplo. Os antigos gregos enxergavam seus heróis da mesma forma, e por isso Homero era considerado não apenas um poeta de grande imaginação, mas sobretudo um educador. Neste texto, procuro demonstrar alguns aspectos do mito do primeiro e mais arquetípico super-herói, o Superman, aspectos estes que podem nos ensinar algo sobre nós mesmos enquanto espécie humana, bem como guiar nossas vidas.

1. O Superman é símbolo de uma rejeição. Mas rejeição a quê? Rejeição a tudo que há de mais prosaico, insosso, baixo, débil, e patético na humanidade. Se somos predominantemente egoístas, Superman é inteiramente altruísta; se, fisicamente, somos naturalmente frágeis e débeis, ele, em contrapartida, é a imagem do poder encarnado. Em suma, ele é aquilo que deveríamos ser, mas que não somos. E ao ser tudo o que deveríamos ser, mas não somos, Superman representa-nos uma imagem de repúdio ao “humano, demasiado humano”1. Portanto, ao contrário do que muitos pensam, há muita agressividade na mera imagem do velho escoteiro. Algumas pessoas o odeiam, e com razão: pois se sentem ofendidas por ele, tal como o indivíduo vaidoso se sente ofendido pela simples presença daquele que ele sabe ser um rival superior. Para o narcisista, é extremamente difícil olhar para qualquer outra coisa que não o próprio retrato. Mais difícil ainda para ele é deparar-se com uma imagem que representa sua própria superação, e assim, que funciona como uma denúncia de suas próprias carências e defeitos. Por esta razão o Superman não se encontra em seus melhores dias de popularidade. Em tempos de selfie, isto é, em um período no qual presenciamos esta epidemia de narcisismo universal, um Super-homem não pode ser muito popular. Como escreveu brilhantemente Mark C. Henrie, “a psique da modernidade anseia por identificar-se com um protagonista e, acanhada, evita o julgamento implícito contra o prosaico que é expresso por meio da vida exemplar do herói”2. Mas justamente aí consiste uma das grandes virtudes de seu mito: ele nos convida à superação de nós mesmos e ao abandono do estado de mediocridade. Mas para aceitar este convite, primeiro devemos neutralizar nosso próprio egoísmo e vaidade, e parar de admirar apenas aquilo com o qual nos "identificamos".

2. Superman nos ensina o imensurável valor da compaixão, mas sem deixar de conciliá-la com a justiça. Poucos heróis demonstram tanta compaixão pelos mais fracos como o Superman. Diferentemente da maioria dos heróis, ele não luta motivado por emoções cuja base é egoísta, tal como o ressentimento pessoal ou a vingança. Seus pais não foram assassinados, e nem seu tio. Ele simplesmente não suporta ver outro homem sofrer, e por isso decidiu agir como herói. Mas apesar de seu grande coração, ele não hesita em dar ao vilão aquilo que este merece. Inocentes são dignos de compaixão. Mas o culpado deve ser detido, mesmo que por meio de super-pancadas. Muitos filósofos, sociólogos e psicólogos buscam "causas" para a maldade e comportamento antissocial, como se a espécie humana fosse fundamentalmente angelical e repleta de boas intenções e, portanto, como se devesse existir causas externas de nossa eventual corrupção. Assim pensam muitos homens. Mas um super-homem prefere pensar que todo indivíduo é dono de seu destino, e, por isso, na mesma proporção em que deve ser parabenizado por seus acertos, deve ser julgado e punido por seus erros. 

3. Superman é o “escoteiro”, um personagem “old fashioned”. E com isso demonstra que a defesa dos velhos valores e costumes define um verdadeiro super-homem. Apenas os pequenos escravos das circunstâncias seguem os modismos passageiros. E é melhor deixarmos os desejos de inovações radicais para vilões progressistas que sempre perseguem sonhos utópicos de dominação, tais como Lex Luthor. Sim, Superman é definitivamente aquilo que alguns chamam de “conservador cultural”, ou “tradicionalista”. E não há vergonha alguma em sê-lo, uma vez que esta é a marca deste homem superior.

4. Seu mito nos ensina o valor da família e o quão sagrada ela é, além de prestar uma singela homenagem à salutar simplicidade da vida rural. O que mais me agrada na versão produzida por John Byrne é que os pais adotivos do Superman estão vivos, e assim podemos acompanhar a relação familiar na qual um super-caráter pode ser forjado. O que seria do bom Clark Kent, não fosse a forte união matrimonial de um homem e uma mulher e o amor que ambos conferiram ao seu filho adotivo? Uma família unida e organizada é capaz de feitos maravilhosos! Além disso, jamais podemos esquecer que embora Clark viva na grandiosa e atribulada Metrópolis, o que faz dele verdadeiramente nobre é a sua origem simples adquirida na pequena Smallville.

5. Nada que é realmente bom pode vir deste mundo. O Super-homem não é um homem nascido na Terra, que se tornou superior após ler “Assim falou Zaratustra”, ou algum texto evolucionista de Herbert Spencer. Ele veio de um mundo “muito, muito distante”. Portanto, em meu modo de interpretar o mito do Superman, penso que ele nos ensina que devemos ser humildes enquanto espécie, e portanto ele afasta aquele humanismo patético que consiste na crença muitas vezes difundida de que somos capazes de realizar toda e qualquer coisa com base em nossa – supostamente profética e onipotente – racionalidade. “Não há limites para o homem!”. Há, sim. E justamente porque somos homens.

6. Super-heróis possuem super-poderes. É absurdo pensar que com inteligência, engenho, capital e algo como um cinto de utilidades podemos ser super-heróis. O mito do Superman afasta essa fantasia humanista. Se ele não tivesse super-poderes, então provavelmente seria apenas um homem comum, com uma família, uma casa, e um emprego, porque é isso que homens comuns e mentalmente sadios fazem. Portanto, paradoxalmente, penso que os personagens mais irreais são justamente aqueles que seriam supostamente mais realistas, tais como o Batman, Rorschach ou o Homem-de-ferro, pois, apesar de serem simples homens, eles realizam aquilo que não está ao alcance de nenhum homem realizar. Mas então o mito do Superman nos convida à vida prosaica, à mediocridade? Claro que não. Ele nos convida à realização do bem, mas dentro de nossas possibilidades. O Superman é um super-herói, porque dentro de suas possibilidades ele pode lutar contra super-vilões. Mas apesar de não contarmos com incríveis poderes, no entanto ainda podemos seguir seu exemplo de moralidade. Podemos tentar ser boas pessoas. Não podemos enfrentar fisicamente assaltantes armados ou impedir terremotos, mas podemos ser bons cidadãos, bons amigos, bons filhos, bons pais, bons maridos, etc. Este é o melhor meio de incorporarmos, em nossa vida concreta, aquele que é para mim o melhor aspecto deste mito: sua bondade e moralidade tipicamente cristãs. Como o próprio Superman diz em uma velha história da Era de Prata: “sejam bons uns para os outros, e todo homem pode ser um super-homem”3.





1 Em minha opinião, o Übermensch de Nietzsche também era “humano, demasiado humano”. Nossas cadeias – e algumas de nossas universidades – estão repletas de “humanos, demasiado humanos” deste tipo, isto é, pessoas que veem as tradições morais da humanidade como meros limites ao seu arbítrio e que anseiam liberar seus mais insólitos apetites “dionisíacos”.
2 HENRIE, Mak. C. “Russell Kirk e o coração conservador”, 2013, p. 59.
3 A história em questão foi chamada no Brasil de “Os últimos dias do Superman”. Foi escrita por Edmund Hamilton e desenhada por Curt Swan, sendo publicada originalmente em Superman 156, de outubro de 1962. No Brasil, foi publicada pela Panini na coletânea “A maiores histórias do Superman”, em 2008. 

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Grant Morrison: “Superman começou como um socialista”. Sinto muito, Morrison. Mas você está completamente errado.




Quando Grant Morrison publicou, em 2011, seu livro “Supergods: what masked vigilantes, miraculous mutants and a sun god from Smallville can teach us about being human” (aqui no Brasil sob o título “Superdeuses: mutantes, alienígenas, vigilantes e o significado de ser humano na era dos super-heróis”), eu não tive vontade de ler, embora o tema me agradasse muito. O motivo de meu desinteresse se devia ao fato de que já naquela época eu conhecia o incrível contraste que há entre a qualidade do trabalho do Grant Morrison escritor e o nível de patetice de suas próprias opiniões sobre os super-heróis que escreve. Além disso, folheando rapidamente a obra no período de seu lançamento, Morrison não me parecia dizer nenhuma novidade, diferentemente do trabalho de Christopher Knowles, “Our superheroes wear spandex” (aqui no Brasil publicado com “Nossos deuses são super-heróis”, pela Cultrix), onde o autor, entre outras coisas, procura identificar as raízes arquetípicas e místicas dos nossos super-heróis. Um trabalho ousado e brilhante. Mas agora retornemos a Morrison, nosso fantástico gênio superestimado...

Vasculhando textos sobre super-heróis e política na internet, deparei-me de maneira totalmente acidental com a afirmação “Superman is a socialist superhero”. Fiquei curioso, tal como qualquer pessoa fica quando diante de alguma afirmação absurda; afinal, por se tratar de um dos principais símbolos da cultura norte-americana, o Superman sempre me pareceu o oposto de ideais socialistas e coletivistas. Mas a América do Norte parece estar mudando... então resolvi conferir o real teor da oração apenas para ter certeza de que se tratava de alguma frase sensacionalista. E de fato era. O enunciado em questão era uma simples alusão à afirmação de Grant Morrison registrada no livro supracitado, onde ele escreve: “Superman começou como um socialista, mas Batman era o herói capitalista definitivo”. É fácil ver que a intenção de Morrison era apenas dizer que o Superman das primeiras histórias, datadas de 1938, era um socialista. Mas ao unir Superman e “socialismo” na mesma sentença, ele deu o primeiro passo para que leitores que possuem dificuldade de interpretação e jornalistas sensacionalistas chegassem à estranha conclusão de que Superman é socialista. Além disso, analisando as frases de Morrison em seu conjunto, percebe-se que se trata de um momento do texto onde o autor procura opor as qualidades e características dos dois heróis, na tentativa de destacar seus contrastes. “Superman tinha um patrão; Batman, um mordomo. Superman trabalhava sozinho; Batman tinha um parceiro. Superman era o dia; Batman, a noite. Superman era apolíneo; Batman, dionisíaco” etc, etc. Parece-me que, para dar continuidade à métrica das oposições, Morrison resolveu soltar a pérola em questão. Ora, se o Batman, cuja identidade secreta é a do rico industrial Bruce Wayne, é supostamente um capitalista1, e sendo Batman e Superman opostos, então o Superman em seus primórdios poderia ser considerado um socialista, não? – Não. Explico. E o primeiro passo da minha explicação será fazer o que quase ninguém faz nestes debates que envolvem super-heróis e política: começarei pela exposição dos conceitos utilizados no debate.

Desde o início do século XX, é difícil tomar a palavra “socialista” dissociada das teorias de Karl Marx. Eventualmente o termo “socialista” era também utilizado para se referir a teorias anarquistas na linha de Bakunin ou Proudhon (estes seriam os “socialistas libertários”), mas sua ligação com o marxismo se tornou muito mais forte e endêmica. De qualquer forma, “socialismo” se tornou sinônimo da crença de que o principal motor social é a estrutura econômica e a luta de classes a ela associada, a qual se tornou ainda mais acentuada com o fortalecimento do capitalismo e, portanto, para que esta luta termine, deve-se então eliminar, via revolução, a classe capitalista causadora deste conflito, juntamente com seu instrumento favorito de dominação: a propriedade privada. Em suma, os burgueses capitalistas, enquanto classe opressora, devem desaparecer; e os trabalhadores ou proletariado, que é a classe oprimida, deve operar este processo de desaparecimento. Portanto, em linhas gerais “socialismo” seria a ideologia que se compromete com este tipo de perspectiva social. Logo, se eu digo que o Superman “começou como um socialista”, com isso estou afirmando que o personagem era comprometido, em suas primeiras aventuras, com a eliminação da classe burguesa através da ação político-revolucionária. Em outras palavras, este Superman teria que fazer coisas como levantar a bandeira da foice e do martelo, gritar “trabalhadores, uni-vos!”, a bradar discursos contrários à propriedade privada dos meios de produção2. Mas em nenhum momento ele o faz. Jamais consegui encontrar, nestas primeiras histórias, uma única frase ideológica, classista e anticapitalista atribuída por Siegel ao seu Superman. Mas então de onde diabos Morrison tirou a ideia de que o Superman era “socialista”?

De fato, o Superman dos primeiros dias era um pouco diferente daquele que conhecemos hoje (ou que conhecíamos, até a recente reformulação dos “novos 52”). Ele era sem dúvida um herói, com um forte senso moral. A essência já estava lá. Mas o temperamento era diferente. O Superman era muito mais irritadiço e misterioso. Não vemos nele a atitude “escoteira” que hoje faz parte de seu caráter, isto é, seu desejo de seguir as leis escolhidas pela humanidade e de trabalhar ao lado das instituições democráticas e autoridades eleitas. Não; diferentemente do que Morrison escreveu em um trecho supracitado, se esse Superman era apolíneo, ele o era apenas em um sentido muito limitado, pois nele podemos testemunhar bastante da histeria emocional dionisíaca3. Embora sua aparência externa já fosse messiânica, no entanto, em muitos momentos suas atitudes são a de um Gólem ressentido, antipático e vingativo. Superman e Batman não eram tão diferentes como Morrison faz parecer. Este Superman já lutava pelos oprimidos, e por isso seu alvo eram todos os tipos de opressores que se manifestavam na sociedade americana daquele período. Superman não poupava ninguém que causasse o mal: ele enfrentava desde mafiosos, motoristas negligentes, e até mesmo técnicos de futebol irresponsáveis. Nestas circunstâncias, empresários capitalistas cruéis para com seus empregados também não poderiam escapar, e, talvez por esta razão, Morrison tenha interpretado este Superman como “socialista”4. Em Action Comics n. 3, temos um momento exemplar: Superman castiga o dono de uma mina que não tinha a menor consideração pelas condições de trabalho de seus empregados. Na história, Superman faz o empresário, chamado Thornton Blakely, passar pelas mesmas situações que seus empregados enquanto trabalhavam. A partir daí, Blakely compreende que era impossível trabalhar sob aquelas condições e, agora conscientizado, promete de bom grado a Clark Kent que irá cuidar da segurança de seus empregados. Em nenhum momento, Superman desejou que o país reformasse sua política econômica. Ele apenas desejou uma reforma moral daquele empresário em particular. Para Superman, o problema não estava no arranjo econômico da sociedade, mas na maneira como aquele indivíduo havia escolhido tratar seus empregados. Esta atitude está muito mais próxima de um conservadorismo da linha de Edmund Burke ou Russell Kirk do que de qualquer comportamento revolucionário de inspiração socialista.

Acredito que a história deste período com um conteúdo mais político seja aquela publicada em Action comics n. 8, que trata de delinquência juvenil. Nela, o Superman concorda explicitamente que a delinquência juvenil é produto das condições sociais miseráveis a que estes jovens são submetidos. No entanto, apesar de ele crer que a conduta criminosa de jovens seja produto de circunstâncias econômicas externas, o mesmo não parece se aplicar ao criminoso adulto da mesma história, que é tratado pelo Superman com extrema severidade (Superman chega a lançá-lo a incrível distância, como se fosse um simples objeto). Mas, apesar de seu explícito progressismo político relativo ao problema da delinquência juvenil, ainda não encontramos nenhum elemento suficiente para taxá-lo de “socialista”. Este relativo progressismo não chega aos extremos do socialismo. (Além disso, em fevereiro de 1940 já temos a famosa história "How Superman would end war", de Shuster e Siegel, onde o Superman derrota e captura os dois grandes ditadores socialistas daquele período, Hitler e Stalin, com o primeiro defendendo uma versão "nacionalista" de socialismo, e o segundo representando o socialismo marxista-leninista. Se Superman realmente começou como socialista em 1938, então aparentemente em 1940 ele já havia abandonado suas convicções...).

Talvez o ponto de vista de Morrison esteja amparado por uma interpretação hiperbólica daqueles fatos descritos. Interpretações hiperbólicas são bastante comuns na maioria das pessoas, pois elas possuem uma certa dificuldade em medir objetivamente as proporções das coisas. Assim, é comum muitos deduzirem, a partir de um simples olhar atravessado, uma explícita ameaça de morte; ou de uma tímida crítica construtiva, uma ofensa grave. Assim, é possível que a partir de pequenas atitudes representadas por Siegel e Shuster na figura do Superman, Morrison tenha deduzido, de maneira hiperbólica, que Superman era um ávido leitor de Karl Marx e – quem sabe? – frequentador assíduo das Internacionais. Mas será que poderíamos esperar mais de alguém que gostaria que a Mulher-Maravilha fosse lésbica e sadomasoquista, e que afirmou categoricamente que a base do conceito do Batman é “totalmente gay”5?






1 Obviamente que esta suposição é extremamente problemática. Já vi algumas pessoas, sobretudo em websites norte-americanos, afirmarem que o Batman é conservador (no sentido vulgarmente atribuído ao termo nos dias de hoje) porque ele é um empresário capitalista. Mas Engels também era um empresário capitalista e, no entanto, era socialista até a alma. Isso seria uma contradição? De modo algum. Na verdade, a lógica do capitalismo não é inteiramente distinta da lógica do socialismo marxista. Ambos desejam a mesma coisa: a continuidade da produção das riquezas materiais. O ponto de discórdia consiste apenas no fato de que os socialistas acreditam que, em uma determinada fase histórica, o capitalismo não será mais capaz de desenvolver estas forças produtivas; acreditam que o capitalismo irá travá-las. Como dizia o soviético N. Colesov, “chega um momento em que as velhas relações de produção cessam de corresponder às novas forças produtivas e se transformam num empecilho ao seu desenvolvimento (...). Este conflito só pode ser resolvido pela substituição das velhas relações de produção por novas (“A propriedade social”, 1963, p. 15-16). Os defensores do capitalismo, diferentemente, acreditam que eventuais crises econômicas podem ser sanadas, sem que o sistema econômico capitalista precise ser extinto.
2 Sim, eu conheço muito bem a Graphic Novel “Red Son”, de Mark Millar. Mas estou falando do Superman regularmente publicado, e não de uma Elseworld – isto é, uma história alternativa excluída de qualquer cronologia do herói já considerada “oficial” – que apresenta uma visão totalmente isolada, ainda que interessantíssima. Além disso, o simples fato do Superman ser socialista em uma versão alternativa já demonstra por si só que a qualidade de “socialista” não pertence ao “verdadeiro” Superman.
3 Knowles, muito mais atento aos conceitos do que Morrison, escreve que “nos primeiros números de Action Comics, o Superman não era o Apolo sorridente e idealizado que conhecemos hoje”.
4 Entre pessoas de pouca formação teórica em linhas e pensamentos políticos, é quase lugar comum a opinião de que ser “capitalista” significa ser conivente com toda e qualquer forma de abuso social que empresários venham a cometer, enquanto que “socialista” significaria adotar qualquer tipo de postura crítica em relação à atuação destes empresários. É possível que Morrison trabalhe, ainda que de maneira pouco consciente, com conceitos falsos e reducionistas deste tipo.
5 Em entrevista à Playboy, Morrison disse: “Gayness is built into Batman ... Obviously as a fictional character he's intended to be heterosexual, but the basis of the whole concept is utterly gay. I think that's why people like it.”. 

quinta-feira, 11 de junho de 2015

"Liga da Justiça: crise em duas Terras" e a questão do significado moral de nossas ações




O longa animado “Justice League: crisis on two earths", escrito por Dwayne McDuffie, foi produzido e lançado já há alguns anos, mas somente agora tive a oportunidade (e interesse) em assisti-lo. Agora, arrependo-me amargamente de não tê-lo feito na época em que fora lançado. Devo admitir: é um excelente trabalho, e, diferente de muitos longas animados descartáveis lançados nos últimos anos (sejam eles produzidos pela Marvel/Disney ou DC/Warner), “Justice League: crisis on two earths" cumpre seu dever e honra aquela que, a meu ver, é a verdadeira finalidade de todo conto de super-heróis: fazer-nos vivenciar eventos fantásticos que, em última instância, conduzem-nos a questões morais. Pois muito mais do que do que apresentar histórias imaginárias sobre homens que voam e possuem superforça, as histórias em quadrinhos, desde a década de 30, propõem a resposta para a seguinte questão: considerando que um homem consegue voar e é superforte, o que ele deveria fazer com semelhantes poderes? Jerry Siegel e Joe Shuster respondiam, de maneira intuitiva através de suas histórias imaginárias, que tal homem deveria lutar pela verdade e justiça. Algumas décadas depois Stan Lee e Steve Ditko responderiam a mesma questão de maneira mais consciente através da famosa sentença: “com grande poder, vem grande responsabilidade”.

Dwayne McDuffie, por meio de “Justice League: crisis on two earths", convida-nos a aprofundar um pouco mais nossas intuições morais por meio do seguinte problema: considerando que exista uma lei física segundo a qual para cada uma de nossas ações e escolhas realizadas surge um outro mundo ou realidade no qual uma outra versão nossa realiza justamente a conduta oposta, qual seria então o real significado de nossas ações? Ou, dito de maneira mais simples: se para cada ação boa que realizo em meu mundo cria-se uma correspondente ação má em um mundo paralelo, que sentido haveria em ser bom? Não é meu interesse aqui discutir até que ponto o problema levantado em “Justice League: crisis on two earths" corresponde à teoria “dos muitos mundos”, seriamente proposta pelo físico Hugh Everett III, ou outras teorias científicas do gênero. Meu objetivo é simplesmente o de avaliar nossos juízos morais a partir daquela hipótese imaginária.

Dentro do conto escrito por McDuffie, o personagem que levanta esta questão é o Coruja, justamente a versão maligna do Batman que conhecemos. Ora, se o Batman escolheu ser um herói em nossa “realidade”, disso se segue que, assumindo aquela hipótese, as escolhas heroicas que Batman fez em nossa realidade produziram escolhas ruins em outra realidade (e vice-versa... McDuffie não nos explica quem é a causa de quem aqui: se as escolhas boas do Batman produzem as escolhas ruins do Coruja, ou se as escolhas ruins do Coruja produzem as escolhas boas do Batman). Portanto, se para cada escolha boa que os heróis fazem existe uma escolha má correspondente em outra realidade, disso se segue que à nossa Liga da Justiça, defensora da verdade e da justiça, corresponde em outra realidade uma Liga da Injustiça (ou, como é chamada no longa, “Sindicato do Crime”) que causa injustiças e mentiras. Não importa o quanto o Superman se esforce em nosso mundo. Em outro mundo, ele possui um correspondente exato, tão poderoso quanto, mas moralmente oposto, chamado de Ultraman. Tanto quanto o Superman protege nossa vida e liberdade, Ultraman massacra estes mesmos valores em outra realidade. Então resta-nos questionar: se para cada bem produzido em um mundo real há um mal produzido em outro mundo igualmente real, então que sentido há em fazer o bem (ou mesmo o mal)?

Refletindo sobre isso, o personagem Coruja percebe quantas “implicações filosóficas” intrigantes há aí. E sua conclusão filosófica não poderia ser mais niilista. Para o Coruja, a totalidade da realidade é um erro, um empreendimento sem qualquer sentido, e, por isso, a “única ação realmente significativa” (uma vez que todas as outras não possuem verdadeiro significado moral na medida em que coexistem com ações paralelas e moralmente opostas) é aquela que destrói todo este processo de criação cósmica. E assim inicia-se a busca do Coruja pela destruição da “Terra Primordial”, da qual derivaram todas as outras, e cuja extinção ocasionaria a destruição de todas as outras Terras paralelas. Apenas esta ação (de destruir a Terra primordial) não encontraria uma ação correspondente e oposta em outra realidade. Logo, a única ação realmente relevante.

Em um combate corpo-a-corpo com o Batman, o Coruja explica suas conclusões filosóficas. Infelizmente, este talvez seja o único ponto em que o filme me decepcionou. Diante das conclusões do Coruja, eu gostaria que McDuffie colocasse na boca do Batman boas argumentações que demonstrassem ao Coruja o erro de suas conclusões niilistas. Gostaria que o Batman dissesse “Coruja, você está errado por tais e tais razões”. Mas o Batman não argumenta, não demonstra ao Coruja seus erros. O homem-morcego se limita a enfrentar o Coruja, e expressar seu desejo de continuar sobrevivendo e, consequentemente, de impedir que o Coruja triunfe em seu plano de destruição universal. A frase mais filosófica que Batman pronuncia é um tanto fora de contexto, e sem grandes implicações para o poderoso dilema proposto por sua contraparte maligna: “nós dois olhamos para o abismo... mas quando ele olhou de volta, você piscou”. Frase muito expressiva, mas que não nos conduz a qualquer argumento. Isso me leva a questionar: será que McDuffie, secretamente, concordava com o Coruja? Ou será que o autor, mesmo não concordando com as argumentações do vilão, no entanto não conseguiu encontrar argumentos que o contradissessem? Ou ainda, se encontrou estes argumentos, talvez não quis expô-los na animação, por julgá-los prolixos demais e, assim, resolveu contra-atacar o niilismo com a força estética e expressiva da ação heroica dos personagens da Liga da Justiça?

Com relação a McDuffie, creio que jamais saberei a resposta. Mas acredito que a segunda hipótese explique muito bem os sentimentos da maioria dos telespectadores que assistiram ao filme. Nossa razão diz que o Coruja está certo. Seus argumentos, aparentemente, não podem ser contraditados. Mas, apesar disso, queremos que Batman o detenha (ainda que o mesmo não apresente argumentos à altura); queremos que a Liga da Justiça continue a lutar pelo bem, apesar de isso acarretar a existência do Sindicato do Crime. Queremos que nossos heróis perseverem em sua tentativa de triunfo, apesar de que, assumindo a teoria do Coruja, esse triunfo nunca possa ser inteiramente alcançado. Pois se levarmos sua teoria às últimas consequências (o que não foi feito por McDuffie), então para a derrota do Sindicato do Crime em sua Terra, surgiu um Sindicato do Crime triunfante em outra Terra, e uma Liga da Justiça que foi desmantelada. E podemos pensar até mesmo que, para a derrota do Coruja, corresponde a vitória de um outro Coruja, e assim, esse outro Coruja teria destruído uma Terra Primordial e, com isso, toda uma outra totalidade de Terras paralelas, o que nos levaria à conclusão de que não poderia existir uma única Terra Primordial... Se a grande lei do universo é na verdade a violação daquela que acreditávamos ser a maior de todas as leis – o princípio da não-contradição – então toda e qualquer coisa está condenada a coexistir sempre com seu contrário (ainda que este contrário se manifeste em outra realidade). E assim, o bem sempre irá vencer e perder ao mesmo tempo, ainda que vença em um mundo, mas perca em outro. Então a palavra final teria que ser a do Coruja: “que importa?”.

Mas eu creio que exista um modo de contradizer o Coruja, e provar filosoficamente que, apesar do bem jamais triunfar verdadeiramente, no entanto, a busca pelo bem continua a se justificar. E meu argumento principal consiste basicamente no seguinte: nossas intuições morais não estão baseadas em resultados. Se a moralidade tivesse uma base meramente pragmática ou utilitarista, isto é, se o bem se definisse pelo seu resultado externo ou sua propriedade de produzir vantagens, então o Coruja teria toda razão. Mas o fato é que nossa consciência moral emite juízos e convicções que independem do sucesso de nossas ações. Antes, ela apenas emite sentenças que valem em si mesmas. Dito de modo mais filosófico, nossa consciência moral enuncia o que devemos fazer independentemente daquilo que efetivamente fazemos e que efetivamente podemos concretizar. Em suma: ela separa o mundo do Ser (isto é, o conjunto de relações causais e efetivas que ocorrem no mundo externo) do mundo do Dever-ser (que se reporta apenas a nossas regras morais e, portanto, enuncia aquilo que devemos fazer com uma certa independência das relações causais e efetivas que se pronunciam e atualizam na ordem do Ser). Mas tudo isso apreendemos de maneira não refletida, mas intuitiva. Isto é, sabemos que a Liga da Justiça deve sempre fazer bem; apenas não conseguimos justificar por quê. Por isso, torcemos pela Liga da Justiça, ainda que saibamos que, assumindo a teoria do Coruja, esta mesma Liga da Justiça nunca poderá triunfar absolutamente, senão muito relativamente.


Portanto, esta seria a grande lição deixada por “Justice League: crisis on two earths". A lição de que não importam as evidências científicas em contrário, nossa consciência moral jamais abandonará suas convicções, porque ela não está subordinada às leis que dirigem o mundo externo. Neste mundo externo, vigora o fatalismo da causalidade física e a incerteza quanto ao destino moral da humanidade. Em nosso mundo interno, diferentemente, percebemos nós mesmos como agentes livres e eternamente responsáveis pelas nossas ações, independentemente de seus resultados e antecedentes. 

domingo, 14 de dezembro de 2014

Why Captain America is conservative

by Rogério M. O. Filho

I’ve seen a lot of people arguing about the political leaning of Captain America. And after reading various texts and articles throughout the web, I finally have concluded: Captain America is conservative. Why? Well, before answer that question, I think we must begin by the definition of the central concepts: what does it mean to be “liberal” (in American sense of the word)? What does it mean  to be “conservative” (when such word is used inside United States of America)? – as David Hume wrote in his Enquiry concerning human understanding, when “a controversy has been long kept on foot, and remains still undecided, we may presume that there is some ambiguity in the expression, and that the disputants affix different ideas to the terms employed in the controversy.

If by “conservative” we understand a jingoistic attitude, a blind optimistic nationalism, an egotistical obsession by the protection of own money and patrimony as if “freedom” had only an economical extension, a fanatical individualism, and the opinion according which the authority of government and the safety is more important than freedom, so I must say: Captain America is not conservative. But none of those qualifications can be considered a definition of true conservatism. Conservatism is not pure individualism:

“True Conservatism, conservatism uninfected by Benthamite or Spencerian ideas, rises at the antipodes from individualism. Individualism is social atomism; conservatism is community of spirit” (KIRK, 2001, p. 242) [1].

The image of conservative as simply the rich capitalist is a caricature:

“In America an impression began to rise that the new industrial and acquisitive interests are the conservative interest, that conservatism is simply a political argument in defense of large accumulations of private property, that expansion, centralization, and accumulation are the tenets of conservatives. From this confusion, from the popular belief that Hamilton was the founder of American conservatism, the forces of tradition in the United States never have fully escaped” (KIRK, 2001, p. 229).

According to Russell Kirk – maybe the greatest expert on American and English conservatism in all the world – the first founder of true conservatism in America was John Adams (p. 71) whose “primary concerns” were “private and public virtues” (p. 99). Conservatism is much more about morals than economical issues. That’s the reason why true conservatism has as greatest feature the belief in a moral transcendent order, which is independent of individual subjective opinions and momentary preferences. Such moral order is gradually revealed only through the concrete and reiterated experience; such kind of experience receives the name of “tradition”. That’s the reason why a true conservative is always an uncompromising defender of traditions and moral principles, "the permanent things", such as equal justice – or equality before God and courts of law, which is completely different from equality of condition and economical levelling  – personal freedom, private property, and recognition of own individuality (the last two are closely linked with freedom) .

Such rigidness which characterizes the conservative mind contrasts the progressive or liberal mind. For the american progressive or liberal – they mean the same in United States – the world must change according the new exigencies of the social and economical circumstances. That’s the reason why Bentham’s and Mill’s english utilitarianism is almost the complete synonym of american liberalism: because they share the belief that nothing but the satisfaction of the majority can be sacred. Because of that, they – American liberals and English utilitarians – must be progressives: as long as the opinions and moods always change, so the laws and moral principles which rule the society must be changed as well – except, of course, the principle of general utility or majority happiness. There’s no object of spiritual devotion here, except the general happiness itself.

I think now it is clear for the reader – who knows something about Captain America – in which side of american political spectrum we can put our star spangled hero. The Captain is a traditionalist whose concept represents a man entirely devoted to those principles on which America was originally created. He doesn’t represent the American government transitory policies; he doesn’t represent this or that party; these or those groups of interest. He only represents the American principles and the American traditions. Nothing less, nothing more. As Frank Miller said before[2], Captain America is “a wonder anachronism”. This means: he’s always standing for those principles and traditions which make what America really is in its core and essence, but which is always threatened by new transitory desires of novelties from naive people or radical governments. Captain America is the tradition itself when it is standing against radical progress. And such posture incorporates the truest meaning of conservatism. Besides, the modern American liberals uphold firstly economic equality - although I believe they do not support socialism - while the conservatives, since Edmund Burke in England and John Adams in USA, support firstly personal freedom. And Captain America is not the "Sentinel of Equality", but the "Sentinel of Liberty". 

I think the most emblematic instance of that conservative attitude is the Civil War story (2006), written by Mark Millar. What makes Civil War a good example is the fact that it is explicitly political. Civil War begins when American government promotes a radical change in legislation: it creates a “superhuman registration act”, according which the superheroes must act under official regulation, as long as they’re considered “living weapons of mass destruction”. The new law converted them in something akin to police officers. One dangerous and abusive effect of such law is the legal obligation of revealing the secret identities. The heroes who don’t obey the new law, are punished as criminals. Captain America leads an anti-registration group because he disagrees with the new law, basically arguing that it is against liberty and that “masked heroes have been a part of this country for as long as anyone can remember”. Therefore, according to Captain America, the new law violates the American traditions. On the other hand, the hero Iron Man, who supports the radical new law, is the reformer or progressive here. Civil War shows us another aspect of liberal thought: it is based on what I would like to call "bad induction" as long as the enthusiastic desire of novelties comes sometimes from an unique happening (here, the tragedy in Stamford). On the other hand, the conservative thought is based on "good induction", as long as the traditions are made up by very long and reiterated experience. Some people interpreted Civil War as a parable for the gun control problem, where Captain America would represent the conservative side against the gun control and supporting the personal freedom and personal responsibility, and traditions. I think it is a good interpretation.




I’ve seen some people saying that Captain America would be a liberal because he was created during Franklin Roosevelt’s New Deal times, and so he would be a Democrat; that Steve Rogers grew up in Brooklyn and became an artist, and artists during that time were in general left-wingers and Democrats; and so on [3]. I think such arguments are logically vicious as long as they are based in generalizations and real-life assumptions. Besides, the character Captain America – so far as I know – never spoke in defense or favored any real political party, as the Republican Party or Democratic Party. The reason why he was never interpreted as a political party follower is because his concept is that of a man who represents the America, and not some partisan interest. When Captain America was created by Simon and Kirby, there was no serious political division inside United States of America. The internal problems in national economy were left aside because all the Americans had a common enemy: the National Socialist Party in Germany and its followers. America was never so united, except in its own Independence War. The legal and economical battles between Republicans and Democrats inside USA were left aside for the battle between the principles of freedom and nazi authority in international field. Therefore, Captain America is the product of the Second World War, and not of New Deal ideology [4].

Besides, the political parties as well their members are historically very shifting about their own political leanings, and the public itself in United States is always changing its own concepts about what does it mean to be "conservative" and "liberal". Franklin Roosevelt`s Foreign (interventionist) Policy could be considered "liberal" in 40`s, but today it would be easily called "conservative". In 18. century, Hamilton`s federalism was considered "conservative"; today, it seems much more "liberal"; and so on. That`s the reason why we can see so much people defending "liberal" ideas which are, in reality, conservative ideas, and conversely, so much people who imagine themselves as "conservatives", when they`re publically defending liberal conceptions [5].

On the other hand, I tried (predominantly based on Kirk`s work) throught this article to give an universal (and very abstract) concept about "American conservatism" and "American liberalism". The first means an uncompromsing attitude toward principles and fidelity to traditions; the second means compromissing attitude and progressive actions, always searching the circunstancial welfare and happiness of society. Anyway, in United States of America even some liberal people has a very traditionalist or conservative leaning because such people respect tha Federal Constitution - called by Kirk "the most sagacious conservative document in political history" - and supports traditional means of change, such as the parliamentary dialog and non-violent protests (that is, they can be progressives about the changes, but not about the means). (Therefore, it is very hard to find, at least in USA, people who are "pure" liberals or "pure" conservatives - as even conservatives sometimes can desire some kind of reform as well). In other countries which are much more radicals and progressives, the Constitutions mean something akin to mere pieces of paper [6].

A good instance of how Captain America doesn’t represent political parties, but simply traditional principles, is the classic Captain America #260 (1980), produced by Roger Stern and John Byrne. In that story, Captain America rejects the candidacy for US presidency, because as a politician he would be “ready to negotiate, to compromise”, but his duty is preserving “the dream”. In other words, Captain America could never put in relativism the “dream” – the American principles or the original project from the founder fathers – through the negotiating and compromising which is an essential part of political activity [7].


Therefore, when I say Captain America is conservative, I’m not affirming that Captain America is a supporter of any political party which by now is considered “conservative”, such as Republican Party, or supporter of any “conservative” movement, such as Tea Party. Such affirmative would be so incorrect as to say he’s a liberal because he would be a Democrat. Captain America could never represent a particular political party, because he doesn’t represent particular interests, but America principles and traditions. Because of his fidelity and uncompromising attitude toward those principles and traditions, Captain America can be easily considered a conservative.



[1] KIRK, Russel. The conservative mind. Seventh revised edition by Regnery Publishing.


[3] This kind of opinion has found great expression through this interesting article: http://www.lawyersgunsmoneyblog.com/2013/10/steven-attewell-steve-rogers-isnt-just-any-hero

[4] I know when the first Captain America issue was published, USA was not directly at war. But the plot was already about the battle against nazi Germany, and not some kind of New Deal proselytism.


[5] Therefore, it cannot be a surprise that Captain America co-criator, Joe Simon, who supported american interventionism at Second World War, supported George W. Bush and the war in Iraq and Afghanistan after the 9/11 attacks (see http://www.salon.com/2011/07/19/captain_america_politics/). In 40`s that was a "liberal"attitude; today, it is a "conservative" atittude. So I ask you: is Joe Simon "liberal" or "conservative"?  

[6] I can take my own country - Brazil - for instance. In Brazil, we have had 9 different Constitutions since 1822. Brazil is always trying to change... As a reflexion of political instability in Brazil - because of the absence of truly conservative ideas - we have political parties which represent all sort of interests and ideologies, from classical liberalism until marxism. For the most people who lives in countries as Brazil, the difference between liberals and conservatives in United States seems to be almost totally absent. 

[7] I think Mark Gruenwald`s long run on Captain America title is another excellent example of Steve Rogers unbreakable morality as well his uncompromising attitude toward political issues.


terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Chuck Dixon e Paul Rivoche denunciam o relativismo moral nos quadrinhos modernos

O texto abaixo, escrito por Chuck Dixon e Paul Rivoche, foi publicado no Wall Street Journal em 8 de junho deste ano (http://www.wsj.com/articles/dixon-and-rivoche-how-liberalism-became-kryptonite-for-superman-1402265792). Por concordar inteiramente com seu conteúdo, resolvi traduzi-lo e publicá-lo no meu blog, Heros Invictus. Obs.: é de suma importância notar que os autores se utilizam da expressão "liberalismo" e "liberal" no sentido atribuído à palavra pelos norte-americanos, e que difere consideravelmente do liberalismo clássico nascido na Europa.


Como o liberalismo se tornou uma kryptonita para o Superman
Um conto sobre o declínio dos quadrinhos modernos ao relativismo moral

Por Chuck Dixon a Paul Rivoche

Na edição de número 900 da Action Comics, Superman decide ir às Nações Unidas e renunciar sua cidadania norte-americana. “’Verdade, justiça e estilo de vida americano’ – não é mais o bastante”, ele diz desanimado. Esta edição, publicada em abril de 2011, é, talvez, o exemplo mais dramático do declínio dos quadrinhos modernos ao politicamente correto, ambigüidade moral e ideologia esquerdista.

Nós somos artistas de quadrinhos e quadrinhos são nossa paixão. Mas, mais importante, eles têm inspirado e formado milhões de jovens americanos. Nosso medo é o de que os jovens leitores da atualidade estejam sendo mal servidos por um meio que frequentemente apresenta heróis que fazem concessões no campo da moralidade ou que não são diferentes dos criminosos que eles combatem. Com a ascensão do relativismo moral, “verdade, justiça e estilo de vida americano” perdeu seu significado.

A história começa nos anos 30. Superman, quando apareceu inicialmente nos primeiros gibis e depois no rádio e na TV, não era apenas “capaz de saltar edifícios com um simples pulo”; ele também era bom, justo, e maravilhosamente americano. Superman e outros “super-heróis” como Batman faziam de tudo para distinguir a si mesmos de vilões como Coringa e Lex Luthor. Superman até mesmo enfrentou a Alemanha nazista e o Japão imperial durante a Segunda Guerra Mundial.

O Superman também realizou cruzadas domésticas, sendo a mais famosa aquela contra a Ku Klux Klan. Um homem familiarizado com a Klan, Stetson Kennedy, confrontou os produtores do programa de rádio durante os anos 40 com alguns dos códigos secretos e rituais da Klan. Os produtores do programa desenvolveram mais de 10 episódios anti-Klan, “The Clan of the Fiery Cross”, que foram ao ar em junho de 1946. A oposição inequívoca assumida pelo programa de rádio ao fanatismo reduziu nitidamente o respeito de jovens americanos brancos pela Ku Klux Klan.

A família de um de nós, Paul Rivoche, fugiu da Rússia Soviética. O fato de que os criadores do Superman, Jerry Siegel e Joe Shuster, foram eles próprios imigrantes, inspirou Paul. Superman era um tipo de imigrante, que veio de Krypton – um planeta “muito, muito distante” – para a Terra. Paul cresceu no Canadá, mas ele quis retratar por meio de sua arte e ilustrações a admiração pela América do Norte e Estados Unidos. Um idealismo semelhante levou Chuck, o escritor em nossa equipe, aos quadrinhos.

Nos anos 50, as grandes empresas de publicação, incluindo a DC e aquela que mais tarde se tornaria a Marvel, criaram o Comics Code Authority, uma associação de regulação que emitiu regras como: “Crimes jamais devem ser representados de modo a criar simpatia pelo criminoso”. A ideia por trás do CCA, que tinha uma estampa de aprovação na capa de todos os gibis, era a de proteger o grande público daquela indústria – crianças – de histórias que poderiam glorificar o crime violento, o uso de drogas e outros comportamentos ilícitos.

Nos anos 70 (nossos primeiros anos nesta indústria), ninguém realmente alterou a fórmula dos super-heróis. O CCA mudou seu código para permitir “descrições complacentes do comportamento criminoso [...] e corrupção entre funcionários públicos” mas apenas “na medida em que seja retratado como excepcional e que o culpado seja punido”. Em outras palavras, ainda existiam sujeitos bons e sujeitos maus. Ninguém se importava com a preferência política de um artista se ele pudesse escrever ou desenhar dentro do cronograma. Os quadrinhos eram uma irmandade que transcendia a política.

Os anos 90 trouxeram uma mudança. A indústria enfraqueceu e eventualmente revogou a CCA, e os editores começaram a evitar a contratação de artistas conservadores. Um de nós, Chuck, expressou a opinião de que uma história aberta sobre AIDS não era apropriada para gibis endereçados às crianças. Os editores rejeitaram a ideia e pediram para ele se desculpar aos seus colegas apenas por tê-la expressado. Em seguida, Chuck passou a ganhar menos trabalho para realizar.

Os super-heróis também mudaram. Batman se tornou sombrio e ambíguo, um tipo de monstro infeliz. Superman se tornou menos patriótico, culminando em sua decisão de renunciar à cidadania norte-americana para que assim ele não fosse visto como uma extensão da política externa dos EUA. Um novo código, menos explícito mas muito mais forte, substitui o antigo: o código do politicamente correto e da ambigüidade moral. Se você discordasse da maioria dos editores de esquerda, você seria silenciado.

O problema do politicamente correto ultrapassa os quadrinhos tradicionais e se estende até às Graphic Novels. Estes trabalhos, a despeito do título, não são todos fictícios. Por anos uma Graphic Novel de “A People’s History of American Empire”, de Howard Zinn, tem sido ensinada nas escolas americanas. Há até mesmo uma versão cartoonizada de “Working”, de Studs Terkel. Che Guevara, a cubano marxista e revolucionário, é o assunto de muitas Graphic Novels, assim como a anarquista Emma Goldman.

Porém, nem todos os quadrinhos e Graphic Novels papagueiam a linha progressista. “Maus” e “Persepolis” venderam muitas centenas de milhares de cópias, e são ensinadas nas escolas. Nenhum destes grandes sucessos pode ser chamado de “esquerda” ou de “direita”. “Os Incríveis”, da Pixar, são uma parábola sobre o mal que há em rebaixar grandes pessoas porque elas exibem grandes talentos. Podemos, se quisermos, encontrar conteúdo libertário nos “X-Men”. Entretanto, a mensagem geral que a maioria dos quadrinhos modernos tem enviado é – em um mundo moralmente ambíguo largamente criado pelo império americano – “olhe para a esquerda”.

Isso seria menos importante se os quadrinhos estivessem desaparecendo. Mas eles estão mais populares do que nunca, como evidenciado por sucessos de Hollywood como “X-Men”. Um terço dos professores que têm o inglês como segunda língua nos EUA usam quadrinhos. Se você duvida do futuro desta mídia, olhe o Amazon, que comprou a ComiXology, uma companhia que traduz gibis para e-books. Ou tente ir neste mês de julho à Comic-Com, a convenção anual de quadrinhos.

Como um colega nosso escreveu recentemente na comicsbeat.com, quando se trata de compensar o atraso em relação à esquerda nos quadrinhos modernos, “os conservadores estão fazendo o curso de recuperação”. Como nossa contribuição àquele curso, nós dois investimos anos na Graphic Novel de “The Forgotten Men”, a nova história da escritora conservadora Amity Shlaes para a Grande Depressão. Mas o nosso é apenas um livro. Nós esperamos que os conservadores, os livre-comerciantes e, sim, os liberais que apóiam a livre expressão, juntem-se a nós. É hora de retomar os quadrinhos.


Sr. Dixon é autor de centenas de quadrinhos e ajudou a criar personagens como Bane e The Spoiler (Salteadora). Sr. Rivoche foi co-criador de Mr. X e ilustrou dezenas de capas do Batman, Superman e Homem-de-Ferro.