quinta-feira, 11 de julho de 2013

Man of Steel, Mark Waid e dilemas morais

ATENÇÃO: ESTE TEXTO CONTÉM SPOILERS

Como muitos devem saber, o novo filme do Superman, Man of Steel, tem provocado muitos debates de natureza ética. E não é para menos. Ao longo dos anos, Superman se constituiu na representação fictícia definitiva de nossa consciência moral. Superman sempre faz o que é certo. Por isso escrevi recentemente em um artigo que

In my own opinion, I believe that there is not any imaginary hero who has become more mythological than Superman, in our day. In fact, he can be easily considered the archetype of modern superhero, and all the others superheroes are, in essence, a variation of him, according to Christopher Knowles (2008: 140); but much more than that, I even affirm that never has there existed a hero in history – and here I refer even to the great heroes in Homeric poems – who represented or represents our moral convictions, in such a perfect way. For Superman, above all, appears in popular imagination as a man truly good, in moral sense. In general human conscience, the “super” in his name does not represent only physical power; above all, it refers to his incredible moral superiority. Therefore, the myth of Superman reveals through the expressive language of his adventures, our more universal moral convictions*

Por estas razões, não é de se admirar a capacidade que Superman possui de provocar, no público, debates que problematizem questões de ordem moral. O escritor Mark Waid, um profundo admirador do Superman, se abalou profundamente com o desfecho do filme, onde Superman, para salvar pessoas inocentes, tira a vida de Zod. As impressões de Mark Waid foram documentadas pelo próprio:

Superman wins by killing Zod. By snapping his neck. And as this moment was building, as Zod was out of control and Superman was (for the first time since the fishing boat 90 minutes ago) struggling to actually save innocent victims instead of casually catching them in mid-plummet, some crazy guy in front of us was muttering “Don’t do it…don’t do it…DON’T DO IT…” and then Superman snapped Zod’s neck and that guy stood up and said in a very loud voice, “THAT’S IT, YOU LOST ME, I’M OUT,” and his girlfriend had to literally pull him back into his seat and keep him from walking out and that crazy guy was me. That crazy guy was me, and I barely even remember doing that, I had to be told afterward that I’d done that, that’s how caught up in betrayal I felt. And after the neck-snapping, even though I stuck it out, I didn’t give a damn about the rest of the movie.**

Antes de tudo, gostaria de dizer que Mark Waid é um dos meus escritores favoritos, e acredito que Kingdom Come não seja apenas uma das melhores histórias do Superman, mas uma das melhores HQ’s de todos os tempos. Mas acho que as negativas reações histéricas de Waid diante de Man of Steel não têm uma razão de ser, ao menos naquilo que diz respeito ao desfecho do filme. Em Man of Steel, Superman é posto diante de uma situação que não poderia exigir dele outro comportamento: ou ele matava Zod, ou ele permitia que Zod matasse pessoas inocentes. Este estranho fetiche – que Waid parece adotar – pelo imperativo absoluto do “não matarás” parece ter confundido a cabeça de alguns leitores do Superman. Sim, Superman não mata. Mas jamais devemos perder de vista que o objetivo do Superman é sempre fazer o bem, fazer o que é justo, e repudiar o mal e as injustiças. E há circunstâncias nas quais a justiça pode exigir uma morte. Portanto, o dever absoluto do “não matarás” precisa de complemento: “não matarás injustamente”. O final de Man of Steel é um excelente exemplo disso. Se numa determinada circunstância a justiça não pode ser honrada senão através da morte de um injusto, então é justo que o injusto morra. Em Man of Steel, Superman fora colocado em uma situação onde sua omissão em tirar a vida de Zod resultaria na morte de outras pessoas, e, assim, ele seria indiretamente responsável pela morte daquelas pessoas também. Isto é: ele próprio cometeria injustiça. Portanto, ele tinha que escolher entre o assassino Zod e entre aquelas pessoas inocentes. E ele escolheu, acertadamente, as pessoas inocentes. Isso não é utilitarismo. Superman não matou um homem para propiciar a felicidade a uma maioria, mas matou um homem porque este era o único meio de repelir, naquelas circunstâncias, a injustiça que este mesmo homem queria deliberadamente cometer. Zod poderia estar ameaçando a vida de um único homem; a decisão do Superman teria que ser exatamente a mesma. Logo, não se trata de utilidade ou de números, mas apenas de repelir o ato injusto pela única via possível naquelas circunstâncias. Por todas estas razões, eu gostaria de perguntar ao Mark Waid, usando um exemplo análogo: 

"Sr. Waid, vamos supor que o Superman esteja diante de um dilema moral. De um lado ele tem um tremendo genocida, e de outro um homem inocente. Em razão de circunstâncias que fogem ao seu controle, ele NÃO PODE SALVAR OS DOIS. Tem que escolher. Quem o Superman, de acordo com seus padrões éticos, salvaria?". 

Mark Waid deveria responder: "Superman salvaria o homem inocente, pois o injusto não possui o mesmo mérito que o justo; e se o Superman se abstivesse, o justo morreria, e então o Superman é que estaria cometendo injustiça". Esta é a resposta que qualquer homem, interpretando as motivações do Superman, e que fosse possuidor de uma consciência moral, poderia dar, pois o Superman é justamente isso: uma representação de nossa consciência moral. O problema é que o Waid respondeu este meu dilema, ainda que indiretamente, e a resposta dele foi extremamente ofensiva - não comigo, é claro; mas com o próprio Superman. Em recente entrevista dada ao site Voices from Krypton, Waid disse:

My answer is I wouldn’t have put him in that position. As a writer, and I could be wrong, I don’t think Superman is built for that kind of story.***


Vale dizer, Waid declarou – talvez sem ao menos perceber as sérias implicações de sua afirmação – que o Superman não é um personagem apto a responder dilemas éticos realmente difíceis. Pois eu – que levo esse personagem a sério – penso justamente o contrário: Superman talvez seja a melhor representação fictícia da consciência moral humana. O Superman é aquele que guia a humanidade através de seu exemplo, e se estamos diante de uma dúvida, de um pesado dilema moral, quem melhor do que ele para nos dar a resposta? Por outro lado, se Waid prefere ver o Superman lidando somente com situações irreais, e que não provoquem o menor esforço reflexivo por parte do público, então ele tira do personagem toda sua profundidade e valor, e o converte numa simples figura de entretenimento, na linha do Patolino, Pernalonga ou Supermouse. É claro que o mito do Superman comporta uma dimensão mais simples e alegre. Particularmente, eu gosto do Superman de Superfriends, e das aventuras mais inocentes da Era de Prata. Mas prefiro o Superman da graphic novel Peace on Earth. Certamente Waid também prefere. Afinal, Kingdom Come é basicamente um conto sobre moralidade e decisões difíceis no campo da ética. Mas então por que Waid se surpreende e protesta quando vê seu herói favorito tendo que tomar decisões difíceis e dolorosas, em prol da justiça?


* “Charity and Justice: a defense of altruistic ethics and political liberalism based on Schopenhauer’s philosophy and Superman’s myth”, in: http://thefreehold.us/?p=2164



*** http://voicesfromkrypton.net/man-of-steel-exclusive-talking-superman-with-mark-waid/

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Em defesa de Orson Scott Card, e um protesto contra o absurdo.


Acho que certos ativistas que lutam pelos direitos dos gays já estão indo longe demais. Agora querem proibir o escritor Orson Scott Card de escrever histórias do Super-homem, porque o sujeito em questão é um membro da National Organization for Marriage, um grupo que faz lobby nos EUA para manter a proibição de casamentos entre pessoas do mesmo sexo. Basicamente, o argumento que alguns ativistas* contrários a Card utilizam é o de que o Super-homem representa o que há de melhor nos homens, e como eles não consideram o sr. Card um bom homem (porque sustenta opiniões diferentes das deles), então ele não seria digno de escrever uma história de um homem que representa o bem. Há muito tempo eu não leio uma bobagem tão grande. Explico.Vamos assumir, só por um momento, que o sr. Card seja um sujeito maléfico, só porque considera errado que os gays assumam matrimônio entre si. Agora imagine se generalizássemos este julgamento, segundo o qual apenas bons homens podem escrever histórias sobre o Super-homem, e o transformássemos em lei: então TODOS os escritores deveriam passar por um teste de moralidade e excelência ética. Agora vamos assumir que semelhante teste seja possível. Se aprovados, então os escritores testados poderiam escrever o Super-homem; se reprovados, então não poderiam. Fácil concluir que, se isso fosse posto em prática, o personagem já teria sido esquecido, porque jamais surgirá um ser humano tão bom assim. Pois a imperfeição moral do gênero humano é um fato incontestável. Portanto, o protesto em si já é absurdo, porque se baseia em um princípio absurdo. 

Mas vamos analisar o modo pelo qual estes ativistas estão agindo: encontraremos mais absurdos. Aqueles que não concordam com as opiniões de Card estão organizando um boicote contra ele, que compreende desde simples campanhas para que as pessoas não comprem os trabalhos por ele escritos - o que é tolerável e permissível, embora injusto -, até petições dirigidas à DC Comics para que a empresa demita o homem**. Há até uma distribuidora de quadrinhos que já declarou que não irá receber as edições assinadas por Card***. Basicamente, querem que o sujeito perca o emprego e que seja impedido de trabalhar por causa das convicções políticas e morais que sustenta. Aqui não há somente absurdo: há também hipocrisia descarada, sobretudo se considerarmos que os responsáveis por esta verdadeira caça a Card são justamente aquelas pessoas que exigem, em seus discursos, tolerância e liberdade de expressão. Tais fanáticos deveriam fazer o que todas as pessoas lúcidas de espírito sempre fizeram ao analisar um trabalho de ficção: saber distinguir o autor de sua obra. Por acaso ler as HQ's escritas por Alan Moore ou Grant Morrison implica apoiar o uso eventual de drogas alucinógenas – simplesmente porque eles já alegaram tê-las usado - e adoção de crenças ocultistas – que eles afirmam cultivar? Creio que não. (Particularmente, eu aprecio muito os trabalhos de Moore e Morrison, mas como homens, considero-os uma dupla de patetas exóticos). Os ativistas que lutam pelo direito de pessoas gays se casarem deveriam aplicar o mesmo raciocínio em relação a Card. E eu mal posso esperar pra ler estas histórias do Super-homem assinadas por ele. Se forem ruins, eu simplesmente direi: “são histórias ruins”. Se forem boas, eu simplesmente direi: “são histórias boas”. Só isso. Sem essa de "Card é moralmente mau", "Card é indigno", "Card, é um homofóbico maldito", etc.

* Posso citar Glen Wedon (http://www.npr.org/2013/02/17/172229592/man-of-tomorrow-superman-orson-scott-card-and-me) e e Andrew Weeler (http://www.guardian.co.uk/commentisfree/2013/feb/14/orson-scott-card-superman-boycott)

** https://www.allout.org/en/actions/dccomics-osc

*** Trata-se da Zeus Comics, cf http://www.newsarama.com/comics/orson-scott-card-superman-controversy.html

sábado, 11 de junho de 2011

O “Reboot” da DC ou "Como criar um super-vilão metaquadrinístico"

A notícia mais comentada atualmente entre os leitores de quadrinhos é tal “reboot” (palavrinha cretina, mas bastante popular, que em si significa coisa nenhuma, mas que é utilizada no mesmo sentido de “reinício” ou “novo começo”) que os personagens da DC Comics sofrerão. Primeiro, a DC liberou imagens que mostravam os seus principais heróis da Liga da Justiça (com exceção do Ciborgue, que não é de modo algum um dos “heróis principal”) com novos uniformes. Alguns apresentavam mudanças quase insensíveis (como o Batman); outros, mudanças mais radicais. Foi o caso do Superman. Aliás, o Superman se tornou a figura central da polêmica. Aparentemente, a grande maioria dos leitores de quadrinhos se sentiu desconfortável com seu uniforme e seu aspecto excessivamente jovial; e, aparentemente, praticamente TODOS os seus fãs simplesmente odiaram a mudança. E aqui se encontra a questão realmente interessante: o tal “reboot”, longe de fomentar o entusiasmo dos leitores de quadrinhos de modo geral, e dos fãs do Superman em particular, tornou-se o ponto central das atuais discussões de fóruns voltados ao gênero apenas pelo medo e ansiedade que tem provocado. Sim, todos querem saber sobre o tal “reboot”, mas não pela sadia curiosidade relacionada à expectativa de uma grande história, e sim para satisfazer dúvidas sobre um futuro que parece incerto e sombrio. Por isso, podemos comparar a ansiedade do atual leitor de quadrinhos com o pavor que todos sentiriam após ouvir um anúncio da comprovação da proximidade do fim do mundo. Pois é justamente isso que a DC tem anunciado: o fim de um mundo, ainda que fictício.

Como já escrevi acima, esse “reboot” é ainda mais agressivo em relação ao Super-homem, pois as imagens do novo Super-homem mostram também novidades substanciais no uniforme. Portanto, o problema está aí: na descaracterização do uniforme. Uma mudança nos aspectos acidentais da biografia ou do uniforme do Super-homem não são repudiáveis. Na verdade, são normais. O Super-homem já passou por várias reformulações neste sentido, sem que provocasse aversão. Só na última década, ele já teve duas origens diferentes (uma contada por Mark Waid, e outra por Geoff Johns). Mas uma alteração substancial no uniforme do Super-homem já é outra história. Em verdade, o Super-homem jamais sofreu uma alteração substancial – seja no uniforme, seja na sua biografia – desde sua criação (com exceção do Super-homem elétrico. Mas essa mudança foi passageira). Os elementos essenciais sempre estiveram lá, desde que fora criado por Siegel e Shuster em 1938. Ele sempre foi um alienígena vindo de Kripton, que chegou à Terra, dentro de uma nave, enviado por seu pai para que não perecesse com seu planeta natal; ele sempre foi super-forte, super-rápido e invulnerável a armas de fogo; da mesma forma, sua capa, botas e sunga vermelhas sempre estiveram no seu uniforme, assim como o “S” no peito e a roupa azul.É por isso que os fãs do Super-homem (inclusive este que está escrevendo) normalmente sustentam uma postura conservadora com relação ao Super-homem. Porque para eles, admirar o Super-homem não é somente admirar um mero personagem de quadrinhos; mas o respeito que nutrem pelo Super-homem assemelha-se ao respeito que um patriota nutre por sua bandeira. E há razões pra isso. Há muito tempo o Super-homem abandonou o status de mero personagem fictício para tornar-se também um símbolo, cuja existência transcende a mera ficção passageira para alcançar um tipo de ficção toda especial: a mitologia. Assim, torna-se perfeitamente compreensível a estupefação dos fãs do Super-homem diante da ameaça da reformulação radical. Não se muda um símbolo, e nem se reformula um mito. Não se tiraria as faixas vermelhas da bandeira dos EUA; então por que haveria de se alterar a roupa do Super-homem?



Consequentemente, um “reboot” sobre o Super-homem – nas proporções que a DC anuncia – deixa de ser mera propaganda de uma nova história, para tornar-se verdadeira ameaça: a ameaça da corrupção de uma lenda, ou descaracterização de um símbolo. Mas este não é o ponto deste texto, porque eu, sinceramente, não acredito num “reboot” do Super-homem nessas proporções. Cedo ou tarde, ele volta a ser exatamente como sempre foi. Eu já havia falado sobre a ilusória inatualidade do Super-homem no artigo anterior. Tudo que escrevi lá, continuo afirmando. Até porque aquilo fora escrito a partir  de uma consideração sub specie aeternitatis (aqui uso a expressão apenas em sentido análogo) dos quadrinhos, a qual comprova que a pretensa inatualidade do Super-homem e sua conseqüente necessidade de alteração sustenta-se apenas numa mente canhestra que provavelmente começou a ler quadrinhos há poucos dias e, ainda assim, numa leitura concentrada em títulos de personagens como Wolverine e afins. A ameaça do “reboot” é apenas ilusória, porque ela esconde seu verdadeiro fundamento ou razão de ser: a construção de um super-vilão metaquadrinístico. Vou me explicar. Um super-vilão é aquele personagem que se opõe ao super-herói. Enquanto o super-herói é a personificação do bem, da preservação e da construção, o super-vilão é a personificação do mal, da destruição e da desconstrução. E como eles apresentam interesses opostos, a consequência é a luta e enfrentamento mútuo. E é este choque de vontades que seduz o leitor. É claro que, assim como o super-herói é fictício e existe tão somente dentro da ficção (nas páginas dos quadrinhos), assim também deve ser o super-vilão, do contrário eles não poderiam enfrentar-se, certo? Errado! Pois há um vilão que não está nas páginas de quadrinhos, mas se encontra fora e além dela, e por isso ele é um vilão metaquadrinístico. No entanto, seus interesses são exatamente idênticos aos do vilão dos quadrinhos e, portanto, opostos ao do herói: ele cobiça a destruição em lugar da preservação, e a desconstrução em lugar da construção. Isto é, ele é o próprio mal. No momento, esse vilão metaquadrinístico é a própria DC comics, ou, mais particularmente, seus atuais principais idealizadores (Dan Didio, Jim Lee, Geoff Johns etc.). Estes sujeitos incrivelmente “maus” desejam destruir e desconstruir tudo; e seu poder é tamanho, que nem mesmo o Homem de Aço mostrou-se invulnerável o suficiente para resistir. (Ao menos momentaneamente. Como eu já disse, acredito firmemente que ele irá voltar com força total e com a sunga por cima da calça, para livrar, mais uma vez, Metrópolis dessa ameaça tão perversa). Mas os vilões metaquadrinísticos estão, no momento, se afirmando; e seu plano parece estar dando certo. Em todos os fóruns do gênero, o assunto entre os debatedores não é sobre que vilão o Super-homem ou Batman enfrentarão; o problema não é a ameaça nos quadrinhos; mas é justamente a ameaça fora dos quadrinhos. A questão não é mais “como o Super-homem poderá enfrentar Brainiac agora?”; mas sim “meu Deus, vejam o que a DC fez com o Super-homem! Será que ele um dia voltará ao normal?”. Ou seja: discute-se sobre a destruição e desconstrução que pode ser proporcionada somente por um vilão metaquadrinístico. E esses vilões são tão sádicos e poderosos, que eles, além de destruírem de acordo com seu arbítrio o mundo do herói, ainda brincam com a mente do leitor. Assim, a DC, após anunciar em maio mudanças tão radicais, no início de junho declararam que tais mudanças não significavam um “reboot”. Ou seja: basicamente, disseram que o “reboot” não é um “reboot”, em flagrante contradição com o princípio lógico da não-contradição! Quantas mentes não devem ter se danificado ao tentar compreender aquilo que, em verdade, não pode ser compreendido, justamente porque não faz qualquer sentido. Temos que admitir: é um estratagema magnífico, digno de uma mente brilhante e cruel como a de um Lex Luthor!

Creio que não seja necessário dizer novamente que tenho convicção de que tudo isso não vai durar muito. Mas é interessante notar o deslocamento da vilania atual: a verdadeira ameaça não pode mais ser trazida pelo vilão dos quadrinhos, então os criadores se socorrem dos vilões metaquadrinísticos, que na verdade são eles próprios. A razão disso é que o interesse do leitor pela história em quadrinhos motiva-se, basicamente, pela dinâmica existente no conflito de interesses entre vilão e herói. O leitor quer ver o herói confrontar-se com uma ameaça sem proporções, suficientemente grande para fomentar-lhe a dúvida acerca do sucesso do herói. Só então, depois de sua milagrosa sobrevivência, é que a vitória parece realmente satisfatória. Mas essa dinâmica parece ter se desgastado ao longo destes 70 anos. Todos sabem que o vilão dos quadrinhos já não é suficientemente poderoso. E desde que Superman retornou de sua morte, e Batman de sua paralisia, durante os anos 90, comprovou-se que, no terreno dos quadrinhos, os super-heróis são infinitamente mais poderosos que seus vilões. Mas o mesmo não pode ser dito quando se trata do mundo fora dos quadrinhos. Aqui, os heróis estão realmente à mercê. E assim, com a entrada do super-vilão metaquadrinístico, o leitor pode sentir medo novamente, e apenas desejar, com a mais forte esperança, que seu herói favorito ao menos sobreviva.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Inatualidade do Super-homem?

Quando Hegel escreveu na sua obra “Princípios de Filosofia do Direito” (“Grundlinien der Philosophie des Rechts”) que a “História universal” é um “Tribunal do mundo”, na qual o “espírito universal exerce seu direito” (§340), temos que reconhecer que há alguma verdade nisto – ao menos se aplicamos essa regra ao mundo dos quadrinhos, que é o que nos interessa aqui. Na verdade, vamos especificar ainda mais o âmbito de atuação daquelas palavras de Hegel: à relação entre Super-homem e a repentina popularidade de certos personagens noventistas.

Para tanto temos que esclarecer nossa memória. Pra quem já não se lembra, no meio dos anos 90, surgiram certos títulos de quadrinhos que fizeram enorme sucesso entre os leitores: Wildcats, Gen13, Cyberforce, Savage Dragon, Youngblood e, finalmente, o mais bem sucedido e aquele que podemos apontar como líder deste movimento de “heróis” desajustados – Spawn!

Hoje em dia, isso talvez pareça improvável. Afinal, pouco se fala hoje sobre Spawn e companhia. Mas a revista Wizard não nos deixa mentir (que, diga-se de passagem, era uma excelente revista). Adotando como exemplo os números de dezembro de 96 a agosto de 97 da citada revista, podemos constatar, pela seção “os 10 melhores quadrinhos” (que, ao que parece, eram votados pelos leitores), que títulos como Gen13, Spawn e Wildcats estavam sempre no topo. Cyberforce estava sempre presente. Dos heróis mais tradicionais, apenas Batman e Homem-aranha se faziam presentes. X-men e Wolverine eram os maiores rivais dos “filiados” ao Spawn (e os próprios X-men e Wolverine também não poderiam ser encaixados nesta categoria? Bem, isso já é outra discussão...). Criadores como Jim Lee, Chris Claremont e Todd Mcfarlane eram os mais festejados. Mas e o Super-homem? Onde ele estava? O Super-homem aparecia apenas eventualmente; e ainda assim, ocupava no máximo o décimo lugar. Já nessa época havia dúvidas sobre o futuro do Super-homem. Muitos leitores o julgavam inatual. Aparentemente, tudo nele estava ultrapassado: o uniforme, o caráter, etc. Diante de personagens como Spawn e companhia, o homem de aço parecia simplesmente ultrapassado. E, o que parecia confirmar esses juízos, é que a própria DC decidiu reformulá-lo, transformando-o em um ser elétrico. Mas foi tudo ilusão. A tal reformulação foi mais tarde ignorada, e o Super-homem continuou vigoroso na sua velha tradição, e ainda continua, o que é provado pelo fato de que seus títulos continuaram ininterruptos durante todos estes anos. Mas e quanto ao Spawn, Wildcats, Gen13 e cia.? Sinceramente, não tenho resposta para essa pergunta... simplesmente porque nunca mais ouvi falar desse pessoal.

Por isso, ao menos neste aspecto em particular, as palavras de Hegel podem ser consideradas verdadeiras. O tribunal da História absolveu o Homem de aço; mas condenou duramente à pena de ostracismo todos aqueles personagens que, enfim, tiveram que desaparecer tão rapidamente quanto surgiram. E é por isso também que é risível, diante daqueles que conhecem muito bem os precedentes do tribunal da História, aquelas opiniões que ainda hoje insistem em ocupar espaço, segundo as quais o velho e bom Homem de aço está “ultrapassado”, que seus valores são inatuais, que seu traje não possui a mesma força simbólica de outrora, etc. Devo alertar a estes jovens leitores que não se deixem enganar: tais opiniões não são novidade e, no entanto, jamais conseguiram provocar sequer um único arranhão no que há de mais substancial no mito e popularidade do Maior de Todos os Heróis. Antes, o Super-homem se apresenta como o que há de mais tradicional nos quadrinhos: não provoca histeria ou paixões momentâneas, mas está sempre presente de modo essencial, ainda que por vezes tal presença não seja notada pelo indivíduo desatento – assim como ocorre com o ar que respiramos.

É por isso que, para nos utilizarmos de uma linguagem hegeliana, aquelas opiniões são produto do mero “entendimento”, do “sentimento”, da “subjetividade”, mas não da “razão” e, portanto, não reflete em nada a “Ideia”, e o verdadeiro “espírito” de uma cultura. Pois, em última instância, é a favor deste último que a História, em seu tribunal, profere sua decisão. Diante da História a ilusão subjetiva não tem qualquer direito. Afinal, será que existe maior ilusão no universo dos quadrinhos do que aquela da suposta inatualidade do Super-homem?

sábado, 6 de novembro de 2010

Grandes Batalhas dos Quadrinhos: Super-homem versus Capitão Marvel, 4ª Parte

Ainda no mesmo que Reino do Amanhã (1998), é publicada uma nova elseworld: “Superman – Distant Fires” (escrita por Howard Chaykin e desenhada por Gil Kane).


Assim como Reino Amanhã, “Distant Fires” se passa num futuro possível, igualmente apocalíptico. Graças a um desastre nuclear, quase toda a vida na Terra é exterminada. Superman acredita ser o único remanescente. No entanto, como resultado do gigantesco desastre, ele perde seus poderes, e passa a vagar pelo globo, a procura de respostas e de possíveis sobreviventes. Em sua jornada, confronta seres monstruosos devido a mudanças genéticas decorrentes do desastre nuclear. Após meses de viagem, acaba encontrando a Mulher-Maravilha e, para sua surpresa, descobre que ela vive em uma espécie de “aldeia” juntamente com outros heróis (e até vilões) sobreviventes, os quais, agora sem poderes, construíram sua própria sociedade para se defender dos monstros mutantes. Entre os “aldeões”, estão: Ajax, Wally West (Flash), Guy Gardner, o Coringa (cujocaráter está totalmente alterado), Cheetah, Scott Free (Sr. Milagre), Grande Barda, e... Billy Batson, outrora Capitão Marvel! A chegada do Superman causa intensa alegria, e ele não tarda a se tornar o líder.

E aqui o escritor Howard Chaykin mostra-nos um lado obscuro do Billy Batson, jamais explorado antes: um intenso senso de competitividade com o Superman, o qual desembocaria na mais terrível inveja. Diante do sucesso tanto político quanto romântico do Superman (ele e Mulher-Maravilha até se casam), Batson podia apenas desabafar no seu íntimo: “agora, mesmo sem poderes, ele ainda toma para si tudo aquilo que quero! Ele sempre foi o número um... e eu, um distante número dois!”.
Dominado pela amargura, Batson isola-se numa floresta, onde tenta invocar seus antigos poderes. E, ao gritar “Shazam!”, ele torna-se novamente o Capitão Marvel. Mas seu triunfo dura pouco: logo o mesmo raio o atinge novamente, e ele perde seus poderes. Batson repete o mesmo ritual, em segredo, durante os dias seguintes. Paralelo a isso, o raio mágico invocado por Batson provoca um insensível desequilíbrio natural, o qual gera duas conseqüências: o retorno dos poderes dos outros heróis, e uma progressiva agressão ao planeta Terra. Com seus poderes recobrados, Superman e Marvel se envolvem num dissídio político: Superman quer continuar a servir a humanidade e a defender o planeta, conforme à velha postura heróica; Marvel, ao contrário, quer tomar as rédeas da humanidade ele mesmo. A antiga sociedade então se dissolve em dois grupos antagônicos: um liderado por Superman, e o outro, por Capitão Marvel. No entanto, as intenções de Marvel iam além. Por meio de uma emboscada, Marvel e alguns comparsas matam Mulher-Maravilha, Ajax e Cheetah. Assim, ele finalmente consegue forçar um confronto decisivo com o Superman. Em meio à luta, embora a vantagem esteja aparentemente com o Superman (Marvel aparece com o rosto bastante ferido durante a briga), o que decide a batalha é um inesperado acidente: o trovão que havia conferido poderes a Batson atinge-o novamente, levando não somente seus poderes, mas também sua vida.
 

O grande mérito de “Superman – Distant Fires” é o fato de que Howard Chaykin – que escreveu também o ótimo “Liga da Justiça: sociedade secreta” –, além de nos proporcionar uma belíssima (embora triste) história, ressaltou essa rivalidade de uma maneira jamais imaginada. De fato, a história toda é sobre uma suposta íntima inimizade que havia permanecido secreta até mesmo para os leitores. Como o próprio Superman constata durante a trama: “nos velhos tempos, nunca fomos chegados... e eu sempre senti que, por trás daquele sorriso amigável, ele sempre ocultava uma montanha de ressentimento por mim”.

domingo, 31 de outubro de 2010

Grandes Batalhas dos Quadrinhos: Super-homem versus Capitão Marvel, 3ª Parte


A batalha mais épica entre as duas lendas só ocorreria em 1998, em Reino do Amanhã (Kingdom Come). Com desenhos de Alex Ross e história de Mark Waid, esse é não somente o mais belo embate entre os dois campeões do heroísmo, mas, em minha opinião, é o momento mais épico de toda a história dos quadrinhos. “Reino do Amanhã” se passa num futuro possível, dominado por anti-heróis irresponsáveis (em verdade, uma clara crítica às tendências dos anos 90). O Super-homem, decepcionado com a humanidade acolhedora do método “anti-herói”, decide retirar-se, e muitos heróis da velha guarda seguem o mesmo exemplo. Porém, um acontecimento catastrófico no Kansas chama a atenção do Super-homem, que então decide voltar para tentar guiar a humanidade mais uma vez. Sua volta inspira o retorno de toda a Liga da Justiça; contudo, é gerada uma violenta tensão entre os velhos heróis e os jovens anti-heróis. No entanto, a grande ameaça ao Super-homem é Lex Luthor (agora fingindo-se de filantropo): pois o coringa de Lex é ninguém menos que o então adulto Billy Batson, agora totalmente obediente graças aos subterfúgios psicológicos e fisiológicos de Lex Luthor. O clímax da história é justamente o combate final entre os dois peso-pesados, Superman e Capitão Marvel. O início da luta é apoteótico: Superman é atacado sem saber pelo quê, e quando se dá conta, está aos pés de um sorridente Capitão Marvel.


A luta se segue entre os dois, em meio a uma gigantesca batalha entre heróis e anti-heróis. A postura do Super-homem é mais defensiva: a todo momento procura convencer Marvel de que este deve cooperar, ajudá-lo a conter a guerra entre as diferentes gerações. Mas suas súplicas são inúteis: Marvel apenas responde com socos, que jogam Superman a metros de distância.

Quando Superman finalmente parece obter algum controle sobre a situação, disparando a visão de calor enquanto força um diálogo, Marvel então resolve apelar: grita “Shazam!”, e se afasta na velocidade de Mercúrio. O raio mágico acerta em cheio Superman, que se ajoelha agonizante. Com um sorriso sádico, Marvel continua a invocar o raio mágico, acertando o Super-homem tantas vezes, a ponto de este começar a sangrar.


Finalmente, Superman reage e, logo após ouvir novamente o nome “Shazam”, movimenta-se em super-velocidade, conseguindo paralisar Marvel, impedindo-o de se afastar do raio. Resultado: Capitão Marvel retorna a forma de Billy Batson, ficando à mercê do Super-homem.
Confesso que, em termos de quadrinhos, até hoje nada me impressionou mais do que a história de Kingdom Come. Pra mim, ela representa o ápice do heroísmo, e justifica por si só o meu fascínio por essas duas figuras: é que somente Super-homem e Capitão Marvel poderiam protagonizar um evento tão grandioso. 

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Grandes Batalhas dos Quadrinhos: Super-homem versus Capitão Marvel, 2ª Parte

Em 1978, na revista All-New Collectors' Edition #C-58, há um dos combates mais longos entre Superman e Capitão Marvel, e um dos poucos realmente conclusivos.


Com história de Gerry Conway, e arte de Rich Buckler e Dick Giordano, os dois heróis mais poderosos dos quadrinhos se enfrentam em razão de um plano do feiticeiro chamado Karmang. Karmang planeja destruir a Terra-1 (lar do Superman) e a Terra-S (lar do Capitão) e, para tanto, é necessário antes destruir os dois heróis. E que maneira melhor senão jogando-os um contra o outro? Com a ajuda de Adão Negro e da entidade conhecida como Quarrmer – que havia tirado uma parcela dos poderes do Super-homem, na edição 234 e ss. de “Superman” (1971) – Karmang consegue corromper o Super-homem e Capitão Marvel... e a luta entre os dois tem início, na Terra-1. E que surra leva o pobre Capitão Marvel! Nesta história, a superioridade do Superman é tão notória, que até mesmo o “super-sopro” chega a jogar Marvel a alguns metros. Em outro momento, uma “simples” explosão sônica provocada pelo grito do Super-homem consegue afetar o Capitão Marvel. Como última alternativa, Marvel chega a cogitar aplicar o truque do raio mágico sobre o Superman. O mago Shazam então intervém no pensamento de Marvel, e diz que é necessário que a luta continue. Finalmente, Superman ataca Marvel com extrema brutalidade, e Marvel cai desacordado. Ao ver Marvel aparentemente morto, Super-homem cai em desespero e sua sanidade retorna. Então os dois heróis se juntam contra o verdadeiro inimigo.



A desculpa criada por Gerry Conway para a vergonhosa surra do Capitão Marvel, é que este último ficaria enfraquecido na Terra-1. 


Outra luta marcante aconteceria em 1984, no título “All-Star Squadron”, n. 36 e n. 37.



Só que aqui o Capitão Marvel enfrentaria o Super-homem da “Terra Paralela”, pertencente à Sociedade da Justiça da América, e atuante em plena segunda guerra mundial. Nesta história – escrita por Roy Thomas – o Capitão Marvel é tirado da Terra-S pelo próprio Adolf Hitler, graças à sua tecnologia nazista. Marvel é separado de Billy Batson, e se torna um super soldado nazista. No primeiro encontro entre Superman e Capitão Marvel, este último sai vitorioso. Os dois trocam golpes ao longo de 3 páginas e, por fim, Marvel aplica um soco extremamente poderoso que deixa Superman tonto, no chão. Embora ele não tenha ficado completamente desacordado, a vitória foi claramente do Capitão Marvel.

O choque foi tamanho para o Super-homem, que ele passou boa parte da edição seguinte (# 37) meio perturbado. Mas já na edição 37 os dois se enfrentariam novamente – embora de maneira mais breve – e dessa vez para salvar a sede do parlamento inglês. Capitão Marvel fora enviado por Hitler para que jogasse uma bomba extremamente letal sobre o parlamento inglês, mas Superman chega a tempo para interceptá-lo. Contudo, muito traiçoeiramente, Marvel dá um ponta pé na bomba antes da luta começar; assim, a bomba segue velozmente em direção ao parlamento. Superman então age rápido: aplica um soco em Marvel (que, a julgar pela fala do Super-homem – “pasted him one...” – fica temporariamente fora de combate) e voa para deter a bomba. Com a ajuda do Lanterna Verde (Alan Scott) e da Mulher-Maravilha, ele consegue explodir a bomba antes que ela detone o parlamento, impedindo, assim, a concretização do plano de Hitler. 


No entanto, esta vitória do Superman foi extremamente tímida se comparada àquela do Capitão Marvel, registrada na edição anterior. Obviamente, o domínio de Hitler sobre o Capitão Marvel não dura muito, e ele logo se une à Sociedade da Justiça para lutar contra os nazistas.