sábado, 5 de maio de 2018
Thanos de “Vingadores – Guerra Infinita”: um vilão realmente perigoso
Vamos começar justificando o título deste texto: por que
afirmo que a versão cinematográfica de Thanos tornou-o realmente perigoso? Nos quadrinhos ele já não era o mais perigoso
vilão da Marvel? Sim, ele era. Mas isso não fazia dele algo realmente perigoso. E por quê? Porque em
minha forma de entender, um vilão realmente
perigoso é aquele que consegue seduzir o leitor (ou telespectador), pois muito
mais relevante do que surrar heróis fictícios em um mundo fictício, é a
capacidade que uma ideia possui de subverter a imaginação moral das pessoas
reais. E o Thanos cinematográfico é uma ideia com este poder. Agora vejamos os
fundamentos desta afirmação.
Há uma pequena diferença entre o Thanos dos quadrinhos,
originalmente concebido pelo grande Jim Starlin, e o Thanos que aparece no
último filme dos Vingadores: o primeiro é um amante da Morte, e o desejo de
conquistar sua amada constitui sua principal motivação, daí o seu desejo de
aniquilar toda a vida; o segundo, ao contrário, é um ser dedicado à melhoria
das condições de vida. Ele insiste que a vida se sustenta dentro de um
equilíbrio com a morte, e que este equilíbrio, quando rompido, tem por
consequência a decadência da vida, que é o sofrimento dos seres vivos. Quando
há mais geração de vida do que morte, a consequência é a escassez dos meios
materiais que sustentam a vida (se mais pessoas se alimentam, menos alimento
sobra). Aparentemente, esta versão de Thanos é sensível o bastante para se
revoltar com o sofrimento sentido pelos seres vivos, daí seu objetivo de
restabelecer o equilíbrio entre vida e morte, por meio da aniquilação pura e
simples dos seres vivos “excedentes”. Porém, Thanos insiste que esta
aniquilação precisa ser aleatória – isto é, não deve haver privilegiados ou
escolhidos - do contrário seria injusta. Isto é, além de sensível ao sofrimento
causado pelas limitações materiais inerentes à existência, Thanos também pretende
ser justo.
Portanto, se o Thanos de Starlin é um niilista, um cultor do
Nada, amante da Morte, o Thanos de “Guerra Infinita” é um ideólogo, um ser
apaixonado pela ideia de meliorismo das condições materiais de vida. E é este o
ponto em que eu queria chegar. Um niilista pode parecer atraente a algumas pessoas,
uma pequena minoria de amargurados em relação à vida. Mas o ideólogo é capaz de
seduzir a grande maioria das pessoas de nosso tempo, pois a obsessão pelo
meliorismo terreno, pela realização de paraísos terrestres, constitui a mais
poderosa ilusão moderna.
O Thanos de Jim Starlin também se mostra eventualmente preocupado com o equilíbrio entre vida e morte, mas sua motivação mais fundamental é sempre a de agradar a Morte.
Para resistir aos encantos da versão cinematográfica de Thanos (e de qualquer ideólogo
da vida real), o telespectador precisa possuir uma alta envergadura espiritual,
força moral suficiente para suportar a metaxy
platônica ou a tensão cristã, e assim aceitar que o real e o ideal devem
permanecer separados, como condição de sua complementaridade. Thanos é uma expressão da mentalidade
moderna que deseja romper esta fronteira (entre o real e o ideal), fundindo ao
real o nosso ideal.
Uma boa explicação destas noções o leitor poderá encontrar
no excelente livro “Revolta contra a modernidade”, de Ted V. McAllister1. Nele, McAllister analisa as ideias (e críticas)
de Leo Strauss e Eric Voegelin sobre a mentalidade moderna. Enquanto Strauss
destaca o problema do relativismo moral e sua contribuição para o
enfraquecimento do espírito do homem moderno, Voegelin concentra suas críticas
no mal da ideologia. McAllister, parafraseando Voegelin, define ideologia como
“um sistema intelectual fechado, no qual o conhecimento humano serve como meio
para a realização do contentamento terreno” (MCALLISTER, 2017, p. 39). A
ideologia depende da fé na possibilidade de realização do “contentamento
terreno”. Esta fé, por sua vez, baseia-se naquilo que podemos chamar, a partir
de Voegelin, de “imanentização dos símbolos de transcendência”.
Sistemas de crença tradicionais como o cristianismo nos oferecem símbolos de salvação, uma escatologia que dá sentido à história. Porém, esta salvação e essa escatologia permanecem transcendentes, no sentido de que não se confundem com uma vida ou realização terrenas. O paraíso cristão não é deste mundo, e nem a salvação cristã se realiza neste mundo. O ideólogo, que é nada mais do que o messias politizado (e, portanto, é um falso messias), apropria-se deste simbolismo transcendente e aplica-o ao mundo imanente, isto é, ao mundo material que vivenciamos por intermédio de nosso corpo e seus sentidos. Assim, o promessa cristã de salvação, que dentro da lógica cristã deve permanecer transcendente (referente a um outro mundo e a um outro modo de existência), degenera-se em promessa de salvação terrena, de contentamento terreno, que há de realiza-se neste mundo, neste mesmo modo de existência. A salvação da alma degenera-se em salvação do corpo.
Sistemas de crença tradicionais como o cristianismo nos oferecem símbolos de salvação, uma escatologia que dá sentido à história. Porém, esta salvação e essa escatologia permanecem transcendentes, no sentido de que não se confundem com uma vida ou realização terrenas. O paraíso cristão não é deste mundo, e nem a salvação cristã se realiza neste mundo. O ideólogo, que é nada mais do que o messias politizado (e, portanto, é um falso messias), apropria-se deste simbolismo transcendente e aplica-o ao mundo imanente, isto é, ao mundo material que vivenciamos por intermédio de nosso corpo e seus sentidos. Assim, o promessa cristã de salvação, que dentro da lógica cristã deve permanecer transcendente (referente a um outro mundo e a um outro modo de existência), degenera-se em promessa de salvação terrena, de contentamento terreno, que há de realiza-se neste mundo, neste mesmo modo de existência. A salvação da alma degenera-se em salvação do corpo.
Meu exemplar de "Revolta contra a modernidade", de McAllister.
Obviamente, animado pela promessa de contentamento terreno e
por isso insensível à ideia de salvação transcendente, o homem moderno perde
todos os escrúpulos em relação aos meios que conduzem àquele fim. Se só existe este mundo, então tudo vale para torná-lo melhor. Neste contexto, a aniquilação
de alguns como condição sine qua non
da promoção da alegria de muitos já não parece ser uma ideia absurda; ao
contrário: torna-se moralmente justificável, e até necessária. E assim, surgem
os Stalins, Mussolinis, Hitlers, Maos, e outros ideólogos mais sutis, mas que possuem
em comum esta perturbadora aura de messianismo político comprovada pela devoção
cega e acrítica de seus seguidores.
Como fábula de super-heróis, “Guerra Infinita” cumpre sua
mais sublime missão: Thanos, o ideólogo, apesar de encantador, não deixa de ser
mostrado como o vilão da história, contra quem os bons heróis devem lutar. A
ideia de realização de paraísos terrestres não deve sobrepor-se à santidade da
vida, e a realidade, mesmo que acompanhada de tantas dores e dificuldades,
precisa ser incondicionalmente preservada diante da vaidade de revolucionários
enlouquecidos.
1 MCALLISTER,
Ted V. Revolta contra a modernidade: Leo Strauss, Eric Voegelin e a busca de
uma ordem pós-liberal. São Paulo: É Realizações, 2017.
segunda-feira, 1 de janeiro de 2018
"Cavaleiros do Zodíaco" contra o relativismo moral
Os Cavaleiros do Zodíaco no clássico design de Shingo Araki e Mich Himeno (com base no trabalho original de Masami Kurumada)
Revisitando alguns episódios do
clássico anime “Cavaleiros do Zodíaco” (ou Saint
Seiya, como é conhecido internacionalmente), deparei-me com um intrigante
diálogo entre Máscara da Morte (o corrupto e cruel cavaleiro de ouro do signo
de Câncer) e Mestre Ancião (cavaleiro de ouro do signo de Libra e mestre de Shiryu), no qual testemunhamos uma apaixonada defesa do
absolutismo moral, e consequente oposição ao relativismo moral.
Primeiro, cabe aqui alguns
esclarecimentos: por “absolutismo moral” entendo aquela doutrina segundo a qual
qualidades morais – como “certo” e “errado”, “ético” ou “antiético”, “moral” ou
“imoral”, “justo” ou “injusto”, “bom” ou “mau” – não podem ser intercambiadas, de
maneira que aquilo que é moralmente correto jamais há de ser confundido como o
moralmente errado, e um valor moral (tal como “vida” ou “propriedade” ou “bem”)
jamais há de ser confundido com um desvalor moral (como “assassinato” ou
“roubo” ou “mal”).
Diferentemente, por “relativismo
moral” entendo a doutrina segundo a qual qualidades ou valores morais não são
absolutamente distintos em si mesmos,
por serem aqui considerados elementos convencionados e subjetivamente
condicionados, de maneira que aquilo que é considerado injusto hoje, pode
facilmente ser considerado justo amanhã, e vice-versa, a depender das opiniões
e conveniências humanas. Para o relativista, não há critérios morais de
julgamento que sejam absolutos.
Obviamente, em função dos limites
naturais da capacidade de julgamento humano, o absolutista tem de admitir a
possibilidade de situações concretas nas quais o julgamento moral (inclusive
dele próprio) se torne difícil. Mas isso não significa que estas situações, quando
consideradas em si, não sejam
definidas de um ponto de vista moral; significa apenas que nós não conseguimos defini-las com precisão. Considerado em si, o
justo não se confunde jamais com o injusto, ainda que nem sempre nós, seres
humanos imperfeitos, sejamos capazes de notar a diferença.
O absolutismo moral encontra
forte paralelo com aquilo que eu gostaria de chamar de absolutismo
epistemológico: para este, a verdade jamais se confunde com a mentira, ou a
realidade, com a ilusão. É possível que nós nos enganemos em função de nossos
limites cognitivos, e eventualmente confundamos uma ilusão com a realidade. Mas
isso não significa que ilusão e realidade, ou verdade e mentira, sejam noções
intercambiáveis; significa apenas que nós não conseguimos separá-las em razão
de nossa própria incapacidade, embora considerados em si estes entes sempre sejam absolutamente distintos. Do fato de
que eu tenha visto ao longe um cavalo, e confundido-o com um unicórnio, não
muda o fato de que em si ele continua
a ser um simples cavalo.
Pois bem: tendo estas noções em
conta, pode-se notar que o sábio Mestre Ancião aparece como um legítimo
defensor do absolutismo moral, enquanto que o pedante e vaidoso Máscara da
Morte (embora bastante carismático, em minha opinião), apresenta-se como um
propagador do relativismo moral. Assim segue o diálogo, que acredito ter sido
mostrado no 39º episódio da “Saga do Santuário”[1]:
Máscara da Morte: - As definições de justiça mudam com o
passar do tempo; isso é uma coisa que a História já provou. O que Ares pretende
fazer agora pode ser diabólico, mas vencendo, ele será o justo. Ou seja,
Mestre: o errado pode se tornar o certo; se o senhor perder, o injusto passa a
ser o senhor. Está entendendo, Mestre Ancião?
Mestre Ancião: - Seu tolo!
Máscara da Morte: - O que disse?
Mestre Ancião: - A injustiça nunca se torna justiça. E é
a própria história humana que prova que isso é verdade. Os impérios que
possuíam exércitos poderosos foram derrotados, e sumiram do fluxo da História:
este é o destino das forças do mal. O mal nunca deixará de ser o que é. E o bem
é uma coisa que não muda, por mais que o tempo passe: ninguém pode alterar esta
verdade nesta grande correnteza da vida2.
Logo, percebe-se que para o
Máscara da Morte a justiça não passa de uma convenção momentânea subjetivamente
condicionada. Mais precisamente, a justiça é apenas uma convenção imposta pelo
mais forte, pelo vencedor do conflito. Esta definição nos conduz ao Livro I da
obra “A República”, de Platão. Nele, Sócrates dialoga com o sofista Trasímaco
que, seguindo a tendência geral dominante entre os sofistas, apresenta-se como
um cínico relativista. Para Trasímaco, a justiça “não é outra coisa senão a
conveniência do mais forte” (338a-e). E vai mais além ao argumentar que a
injustiça é mais útil e proveitosa do que a justiça, na medida em que esta
serve apenas para restringir o súdito ou o fraco, enquanto que aquela é o meio
pelo qual o tirano satisfaz seus desejos e apetites (343a-e).
Mestre Ancião
Se Máscara da Morte é Trasímaco,
o Mestre Ancião é Sócrates (ou Platão). Sócrates ataca primeiro a posição de
Trasímaco em seu elemento utilitarista: para Sócrates, a injustiça não consegue
ser mais útil do que a justiça, nem mesmo para o homem injusto. E para explicar
esta asserção, Sócrates argumenta que, mesmo nos exércitos mais injustos e
cruéis, deve prevalecer alguma justiça entre seus membros, do contrário haveria
tantas discordâncias e dissensões entre eles que logo acabariam destruindo uns
aos outros (351 e 352a-e).
Este argumento utilitarista
encontra paralelo nas palavras do Mestre Ancião, na medida em que este afirma
que “os impérios que possuíam exércitos
poderosos foram derrotados, e sumiram do fluxo da História: este é o destino
das forças do mal”. Em minha maneira de interpretar, aquilo que o Mestre
disse corresponde à tese de Sócrates: pois para este a justiça é ordem,
harmonia; injustiça é caos, confusão, discórdia. Portanto, a injustiça ou o mal
em geral não são capazes de sustentar uma ordem, uma organização ou uma
harmonia, mas por sua própria natureza caótica, estão sempre condenados a
produzir efeitos temporários. Embora as injustiças possam eventualmente
triunfar, este triunfo é sempre efêmero. Mesmo toda a ousadia e ferocidade não
podem prosperar para sempre quando sustentadas pelas fundações caóticas da
injustiça. É como um edifício gigantesco construído muito rapidamente sobre
bases matematicamente imprecisas: ele está condenado a desmoronar.
O Terceiro Reich é um exemplo
emblemático disso. Apesar de todo o brilhantismo estratégico, tático e
tecnológico do exército alemão, o Terceiro Reich não conseguiu sustentar-se
diante do ódio e antipatia universais que sua doutrina provocou em todo o resto
do mundo civilizado. Todos sabemos que, no fim, Hitler teve de resistir
praticamente sozinho, uma vez que as outras duas nações do Eixo (Itália e
Japão) eram bastante frágeis e ofereceram pouca ajuda (para não dizer que só
atrapalharam, como foi o caso da Itália). Mas o que poucos comentam, é que
Hitler sempre sofreu com resistências internas, primeiro durante a década de 30
dentro da própria Alemanha (onde sofreu várias ameaças a verdadeiros atentados
à sua vida); depois, teve na França de Vichy um aliado no qual jamais pôde
confiar, e que só contribuiu para aumentar suas angústias e incertezas; e por
último, já durante a 2ª Guerra, teve que conviver com várias conspirações
elaboradas pela própria Wehrmacht, das quais resultou um atentado que quase deu
certo (a famosa “Operação Valquíria”). O Mal é em si caótico; e enquanto tal,
destituído de toda a harmonia e organização que conduzem ao êxito inabalável,
ainda que muitas vezes gradual.
E isso nos conduz à segunda e
mais importante parte da argumentação de Platão. Após demonstrar que a justiça
é socialmente mais útil do que a injustiça, Sócrates precisa agora provar para
os inquietos Glauco e Adimanto que, além de útil, a justiça é um bem que vale
por si (357a-d). É neste ponto que se prova que a justiça não é uma mera
convenção subjetivamente ou historicamente determinada, condicionada pelas leis
sancionadas pelo Estado ou pela conveniência do mais forte. E o argumento é o
seguinte: aquilo que vale para a vida social, vale com maior razão para a alma
do homem. Pois se no âmbito político os diferentes indivíduos, divididos em
diferentes classes profissionais, devem atuar de forma harmônica para garantir
a vida social sadia, do mesmo modo, cada indivíduo deve harmonizar suas
diferentes faculdades anímicas através do cultivo das virtudes cardeais (temperança,
coragem, sabedoria) para assim realizar sua ordem espiritual interna (e
consequentemente, a quarta virtude cardeal, que é a justiça). Para Platão,
justiça significa ordem, harmonia. O homem justo é aquele que cultiva a ordem
interna de sua alma.
Deste modo, a justiça deixa de
ser definida apenas em termos utilitaristas, pois apesar de ser socialmente
útil, esta não é sua verdadeira tônica. A justiça é um valor intrínseco, que
vale por si, porque é “a saúde da alma” (nas palavras de Werner Jaeger), tão
essencial ao espírito quanto é a saúde do corpo para a vida (444 a-e).
Portanto, na medida em que é uma virtude intrínseca à saúde da alma humana, ela
deixa de ser definida em termos puramente extrínsecos e arbitrários; deixa de
ser o “reflexo das variáveis influências exteriores do poder e dos partidos”
(mais uma vez, cito Jaeger) para se converter na ordem interior da alma do
indivíduo. Não importa o quanto o direito positivo é alterado, seja pela
conveniência do mais forte ou de qualquer outro grupo. Em sua raiz, a
justiça é harmonia da alma, e este seu conceito é atemporal. Consequentemente,
pode-se repetir aqui sobre a justiça aquelas belas palavras do Mestre Ancião,
quando este se referiu ao Bem em geral:
"é
uma coisa que não muda, por mais que o tempo passe: ninguém pode alterar esta
verdade nesta grande correnteza da vida".
[1] Este
diálogo pode ser assistido neste endereço: https://www.youtube.com/watch?v=IJHb_xwJ_Fw&t=1s
2 Uma questão
que ainda pretendo responder para mim mesmo é se este diálogo fora idealizado
pelo autor original do mangá, Masami Kurumada, ou se foi inserido apenas pelos
responsáveis pela adaptação da obra neste anime. Apesar de eu me considerar um
intenso admirador dos Cavaleiros desde quando o anime fora exibido pela Rede
Manchete, durante as tardes de 1994, eu nunca li o mangá, o que é certamente
uma negligência imperdoável de minha parte.
sexta-feira, 8 de dezembro de 2017
O Homem do Amanhã deve abandonar seu passado?
Desde que começou a ser publicado pela Panini aqui no
Brasil, em abril deste ano, o “renascimento” da DC devolveu-me o entusiasmo
pelas histórias em quadrinhos, principalmente porque o verdadeiro Superman
retornou. Além disso, os escritores Dan Jurgens (o velho e bom Jurgens...) e
Peter J. Tomasi têm feito um grande trabalho até aqui, apresentando-nos
histórias simples e agradáveis sobre um Superman seguro, confiante, determinado
e perfeitamente cônscio acerca dos princípios morais que devem orientar sua
conduta (a 5ª parte e conclusão da história “homens de aço”, publicada aqui
neste último mês de novembro, na edição 8 de Action Comics, é um grande exemplo disso). Se o Superman retomasse
totalmente seu uniforme tradicional (o atual é relativamente fiel ao clássico,
mas ainda tem diferenças significativas), tudo estaria perfeito. Portanto, em
geral devo parabenizar a DC Comics por atualmente realizar nos quadrinhos o
oposto da Marvel: enquanto esta insiste em projetos de descaracterização
de suas principais lendas para se acomodar a estranhos fetiches da atual moda,
aquela – aparentemente, em grande parte pela liderança do tradicionalista Geoff
Johns – reinveste nos aspectos icônicos de seus personagens mais importantes.
Mas este texto não é sobre a DC como um todo. É mais um
texto sobre meu herói favorito, o Superman. Mais especificamente, desejo
discutir uma ideia imposta por Peter J. Tomasi, que acredito ter potencial para projetar forte impacto
sobre o mito do Homem de Aço.
Em Superman Annual n.1
(publicada em janeiro nos EUA, mas em novembro aqui no Brasil, em Superman n. 8), o Homem de Aço é
confrontado pelo Monstro do Pântano. Motivo: segundo o Monstro (que é ligado à
natureza), o Superman estaria criando uma “perturbação no verde”, uma
“aberração vibracional”. Fundindo-se ao Superman, o Monstro do Pântano descobre que a razão desta anomalia é o fato de que ele “não aceitou este mundo como o seu”
(afinal, ele é um Superman de outra realidade, a realidade anterior ao “ponto
de ignição” do Flash e aos “novos 52”... acho cansativo explicar isso, então
pressuponho que o leitor conheça estes fatos); ele “ainda está se prendendo a
uma Terra da qual não faz mais parte”. Solução: o Superman precisa “libertar-se
do passado”, precisa ser “o homem do amanhã” e deixar “o passado para trás”. O Superman aceita o conselho do Monstro do Pântano.
Está aí um exemplo de uma bela história de quadrinhos: um
ensinamento moral a partir de metáforas. Quadrinhos de super-heróis jamais
deveriam ser outra coisa além de fábulas morais. O que Tomasi parece querer
expor é a importância que há em evitar que a fixação pelo passado nos impeça de
nos integrar ao presente e, consequentemente, de realizarmos o futuro. Tomasi
deixa claro que o passado jamais é perdido, pois ele faz parte de nós, e por
isso constitui a “base para o futuro”. Mas apesar de jamais perdê-lo, temos de
abandoná-lo.
Reconheço a qualidade desta história. Acho que a simples
razão de ela ter conduzido um leitor (neste caso, eu) a refletir sobre sua
mensagem já é prova suficiente desta qualidade. Mas algo nela me incomodou,
porque aqui Tomasi parece fazer o Superman dar as costas a um dos aspectos mais
atraentes (pelo menos para mim) de sua mitologia: seus sentimentos nostálgicos
em relação a um mundo passado, ao qual ele já pertenceu. E é justamente este
aspecto que está inscrito na melancólica expressão “O Último Filho de Krypton”,
e que fora maravilhosamente exposto em histórias imortais que jamais deixarão
de compor a mitologia do personagem, como a comovente “retorno a Krypton”,
escrita na década de 60 pelo criador Jerry Siegel e desenhada por Wayne Boring.
Capa de Superman n. 141, de novembro de 1960, que contém a clássica história "retorno a Krypton", de Jerry Siegel. A arte da capa é de Curt Swan.
Além disso, contrariando a tese de Tomasi, parece-me que é justamente este aspecto nostálgico, essa saudade derivada de um sentimento de pertencimento a um mundo passado, que faz do Superman o “homem do amanhã”. Pois ele só pode representar um modelo a ser seguido na medida em que se identifica com um outro mundo e com uma outra época, uma Era de Ouro que não encontra mais exemplo em lugar algum. Portanto, poderíamos dizer que a inscrição “O Último Filho de Krypton” conduz-nos ao belíssimo ensinamento bíblico segundo o qual não devemos nos conformar a este mundo (Romanos 12, 2). O Superman só pode ser o “homem do amanhã” porque ele é, acima de tudo, o homem de um passado melhor, o passado representado em Krypton. Ele jamais irá se conformar a este mundo porque na verdade ele é de outro mundo.
"The Last Son of Krypton", incrível arte do grande José Garcia-López. Vi esta imagem pela primeira vez ainda criança (provavelmente no final dos anos 80, quando era comercializada aqui no Brasil como figurinha autocolante), e sempre interpretei-a como uma alusão ao senso de nostalgia e tragédia intrínsecas ao mito do Superman.
Aparentemente, Tomasi não teve a intenção de desvincular o Superman
e Krypton, mas apenas o Superman e a Terra anterior ao “ponto de ignição” e aos
“novos 52”. Porém, aquilo que vale para Terra anterior, valeria também para
Krypton. Afinal, segundo o Monstro do Pântano escrito por Tomasi, as anomalias
sofridas pelo ecossistema estavam sendo provocadas pelos sentimentos,
vivenciados pelo Homem de Aço, de não pertencimento à Terra atual (e com isso
Tomasi pressupõe uma forte vinculação entre o mundo subjetivo, onde se
manifestam sentimentos, e o mundo objetivo, no qual se expõem os fenômenos
naturais... mas creio que isso seja irrelevante, uma vez que o importante é a
mensagem moral da história). Além disso, Tomasi dissocia a ideia de “Homem do
Amanhã” da ideia de sentimentos de não pertencimento a este mundo, quando eu
acredito que deveria ser o contrário: o Superman é o Homem do Amanhã justamente
por causa de uma herança passada. Abandonar esta herança passada equivaleria a
um “conformar-se a este mundo”, e
assim, nenhuma renovação sadia – seja ela social ou espiritual – seria
possível.
Apesar destes apontamentos, acredito que há grande beleza na
mensagem de Tomasi. Para muitas pessoas, o passado é um fardo traumático que
deve ser abandonado, sob pena de estas mesmas pessoas jamais se integrarem ao
presente e construírem um futuro. Mas esta regra não deveria se aplicar ao
Superman e nem a quaisquer pessoas cujas origens, mesmo quando trágicas, nem por
isso deixaram de ser gloriosas.
sexta-feira, 24 de novembro de 2017
Liga da Justiça, um EXCELENTE filme de super-heróis que luta contra um vilão terrível: o automatismo do pensamento supostamente crítico
Durante a semana passada, assisti
na companhia de minha esposa o filme da Liga da Justiça, em seu dia de estreia
aqui no Brasil. Quando o filme começou, confesso que estava um pouco
pessimista. Nada do que eu tinha visto nos trailers havia realmente me
empolgado. Mas – talvez mais por sensação interna de dever do que de autêntico entusiasmo – fui assistir ao tão aguardado filme. E, contrariando minhas
modestas expectativas, devo dizer: foi uma experiência incrível! Empolguei-me
como há muito tempo não me empolgava com filme algum. Liga da Justiça mostrou-se um perfeito filme para o gênero de
Super-heróis, totalmente apropriado para todas as idades (como deve ser um
filme de super-heróis): nele há bons diálogos, cenas de ação empolgantes, humor
equilibrado, sólidas interpretações, um vilão inequivocamente malvado, excelente trilha sonora (seja bem-vindo novamente, mr. Elfman!) e a boa e velha luta do
bem contra o mal.
Saí da sala de cinema decidido a
voltar mais uma vez, no fim daquela mesma semana. Minha esposa também adorou.
Todo o público que estava conosco no cinema parecia ter sentido a mesma coisa.
As pessoas vibravam com os momentos de ação, riam nos momentos de humor...
Enfim, quando o filme terminou, a primeira coisa que pensei foi “a Warner
ganhou os críticos”. Quando retornei para ver o filme mais uma vez, quatro dias
depois, a sala estava completamente cheia (nunca tinha visto tanta gente em uma
sala de cinema) e, novamente, a reação do público foi extremamente calorosa.
Aliás, eu jamais havia testemunhado este nível de interação positiva do público
da sala de cinema em relação ao filme exibido. Não vi isso na exibição de nenhum
filme dos Vingadores, ou do X-Men, ou do Capitão América, ou da série Star
Wars, ou mesmo de qualquer filme da própria Warner. Posso dizer que presenciei,
em duas oportunidades, o absoluto sucesso do filme da Liga da Justiça em
relação ao seu público consumidor.
Por estes motivos fiquei
extremamente surpreso, mais tarde, com a receptividade negativa por parte dos
críticos profissionais em relação a este trabalho. E o detalhe de maior
importância é que a maioria destas críticas (talvez todas elas) direcionam-se a
problemas que podemos encontrar em QUALQUER filme do gênero, mas que só
ganharam peso ao serem compartilhados pelo filme da Liga.
Exemplos: muitos de seus
detratores afirmam que a história é simplória, previsível. Bom, eu não acho que
quando estes mesmos críticos foram assistir o primeiro filme dos Vingadores,
tenham imaginado por algum momento que a) todos os heróis da trama não iriam se unir durante o clímax da
história, ou que b) os Vingadores, unidos, seriam derrotados pelo vilão no
final. Os super-heróis são um gênero previsível. Sempre sabemos por que os
conflitos começarão (normalmente por causa de algum vilão megalomaníaco), e
como terminarão (os heróis vencerão o vilão megalomaníaco). A estrutura de uma história de super-heróis
é como a estrutura harmônica de um blues: altamente previsível e simples. O
que será determinante na aferição do nível de qualidade de um blues ou deste
tipo de história é o modo como esta
estrutura comum e repetitiva será preenchida. E neste quesito, Liga da
Justiça acertou em cheio, uma vez que a citada estrutura fora preenchida por
bons diálogos (com frases que já são marcantes), excelentes cenas de batalha
(que, de tão impressionantes, podem ser assistidas várias vezes), belíssima
trilha sonora, etc.
Também criticou-se o vilão
(Steppenwolf, ou Lobo de Estepe). Disseram que foi um vilão fraco, muitas vezes
no sentido de ser simplista (sim, pois provavelmente para estes críticos
inteligentíssimos, os desejos de dominação mundial de Loki, Ultron ou Caveira
Vermelha eram certamente dotados de uma complexidade e profundidade psicológica
dignas dos personagens de Tolstoi). Alguns também apontaram uma falta de
carisma ou personalidade (acusação bastante injusta, em minha opinião). Mas
devo lembrar estes críticos de que o reconhecidamente patético e desajeitado
Kylo Ren não foi um obstáculo para que os mesmos rendessem os maiores elogios a
Star Wars: o despertar da força.
Alegou-se também que Steppenwolf fora composto por computação gráfica (CGI) de
qualidade ruim. Não entendi muito bem esta parte. Achei Steppenwolf
graficamente tão convincente quanto o Hulk (e eu havia assistido Thor: Ragnarok tinha apenas uma semana),
isto é, não prejudica o filme, mas dá pra perceber com facilidade que se trata
de um desenho, e não de uma criatura real. Então se o telespectador não teve
problemas com o Hulk, ou com o Ultron, ou com inúmeros monstros que apareceram
nos filmes do Thor, então ele também não terá problemas com Steppenwolf.
Alguns disseram, em um costumeiro
tom de altivez, que há “furos” na narrativa (ó!). É claro que há falhas de
roteiro (que eu não consegui perceber, porque estava ocupado me entretendo com
o filme)... sempre há. Mas, por exemplo, quando Rey “despertou a força” em meio a uma luta
com Kylo Ren (citemos novamente Star
Wars: o despertar da força...), realizando, assim, em alguns poucos
segundos aquilo que Anakin e Luke levaram tempos e duro treinamento para
conseguir, poucos ousaram criticar, ou rebaixar as notas do filme em razão disso.
Obviamente, não estou dizendo que
Despertar da força, ou Vingadores, ou Thor etc. são filmes ruins. São todos bons filmes também. O que
quero dizer é que Liga da Justiça não
pode deixar de ser considerado um bom filme apenas porque possui algumas
inconsistências, uma vez que as citadas inconsistências parecem ser endêmicas ao
gênero super-herói/fantasia/ficção científica.
Para não dizer que absolutamente
nada me incomodou neste filme, devo citar a cena de abertura do filme, com o
Superman. A ideia da cena em si foi muito boa. Mas fica difícil não perceber
que Henry Cavill sofreu mudanças de computação gráfica na face, para apagar o
infame bigode que o ator teve de conservar por força de um contrato com o
estúdio de Missão Impossível 6. Fiquei
incomodado ao assistir. Porém, é preciso notar: esta cena (que talvez tenha
menos de 1 minuto de duração) foi a única em que qualquer alteração neste
sentido tenha sido perceptível (e mesmo assim, arrisco dizer que tenha sido
perceptível apenas para pessoas com familiaridade com a face de Cavill). Em todas as outras cenas com o Superman, não
pude notar nenhum traço de alteração decorrente de imagens geradas por
computador.
E isso nos leva a um outro ponto
deste texto: um fenômeno social já antigo, mas hoje mais evidente, que é a
falta de autonomia intelectual das pessoas. Pensar por si mesmo exige coragem,
porque te torna diretamente responsável por suas próprias opiniões. Mas
simplesmente seguir uma opinião formada – principalmente se a tal opinião
formada tenha sido produto gerado por supostos “peritos” no assunto – torna
tudo mais fácil, pois se você estiver errado, basta deslocar seu oponente para
o verdadeiro gerador da sua opinião. “Vá reclamar com ele... eu apenas repeti o
que ele disse”. Portanto, a heteronomia intelectual (que basicamente consiste
em pensar com a cabeça dos outros) é, em primeiro lugar, um sintoma de fraqueza
moral, porque denuncia o medo da responsabilidade proporcionada pelo pensamento
livre e espontaneidade do julgamento pessoal. É muito mais fácil viver como
animal de rebanho do que como um predador independente.
Pois bem: de maneira bastante
inusitada, o filme da Liga da Justiça demonstra este triste e persistente
sintoma social, pois é sem número o caso de pessoas que manifestam ódio e
desprezo por este filme com base na opinião de críticos. E a maior prova disso
é o caso dos efeitos de CGI sobre o rosto de Cavill. Muitas pessoas têm
declarado que TODAS as cenas com o Superman foram arruinadas graças a este
recurso, quando na verdade, conforme já dito, apenas a cena inicial do filme (e
que dura alguns poucos segundos) sofre deste problema. Estes patéticos “críticos”
por derivação chegam mesmo a cometer a gafe de postar, em redes sociais, imagens
do rosto de Cavill, mas que foram tiradas de outros momentos do filme onde não
há qualquer sinal de deformação por CGI, como se alterado o rosto estivesse. E
não faltam membros e pretensos membros do mesmo rebanho para expressarem suas
críticas, com ar de sapiência e superioridade, ao rosto do ator, que na verdade
aparece inalterado na imagem que é objeto de chacotas. Portanto, são pessoas que preferem seguir
opiniões formadas de antemão a tirar conclusões com base nas próprias
percepções e experiências. São autômatos do pensamento. Rebanho.
Claro que há muitos “haters” que
procuram se beneficiar desta situação. Hoje há pessoas que escolhem Marvel ou
DC como se fossem times de futebol. Mas sem o automatismo do julgamento, estes
“haters” teriam vergonha de manifestar suas opiniões. Se o fazem, fazem-no
porque se sentem fortemente amparados sobre a opinião de terceiros.
Por isso concluo que o grande
vilão contra o qual o filme da Liga da Justiça deve lutar é o automatismo do
pensamento daqueles petulantes e impotentes que se supõem críticos
independentes. Esta mentalidade de rebanho já provocou consequências severas.
Afinal, o filme da Liga faturou até aqui muito menos do que o esperado, graças
a esta infundada epidemia de calúnia virtual. Mas isso não é nada comparado às
consequências sociais mais graves que resultam, de tempos em tempos, daqueles
que alienam a própria capacidade de percepção em nome da covardia – porque têm
medo de assumir a responsabilidade que decorre da liberdade intelectual – e da
vaidade – pois no fundo também desejam aparentar esperteza e sofisticação
diante de seus verdadeiros mestres e condutores.
sábado, 4 de novembro de 2017
Algumas palavras sobre Jack Kirby e sua série "Superpowers"
Parabéns à equipe da Panini por trazer aos leitores brasileiros os dois volumes da série "Superpowers", trabalho do grande Jack Kirby (com a valiosa colaboração dos roteiristas Joey Cavalieri e Paul Kupperberg, e do desenhista Adrian Gonzales).
Enquanto lia as histórias, não pude evitar de pensar no quanto a boa fama de Kirby é merecida. O homem realmente tinha uma imaginação inigualável. Seus trabalhos sempre nos trazem esta sensação de que estamos presenciando um evento fantástico e épico. Sua arte e escrita são dotadas daquele tipo de simplicidade e magia capaz de oferecer-nos momentos de salutar alegria, tão vitais ao fortalecimento e renovação de nosso espírito. Seus heróis trazem consigo um senso de força e grandeza que contrasta imensamente com o tom prosaico que marca as aventuras e personalidade dos personagens nos quadrinhos atuais, sobretudo daqueles que hodiernamente são produzidos pela Marvel Comics, hoje inundada por escritores de tendências contraculturais, os quais, cegados por certas ideologias da moda, investem sua imaginação em ataques à cultura do Ocidente e de sua própria pátria. Os heróis de Kirby protagonizam épicos; comparados a eles, os heróis envenenados pelo Zeitgeist do momento - e que por isso são retratados como portadores das deformações e carências tipicamente humanas - apenas atuam em ridículos romances.
Em "Superpowers", não encontraremos super-heróis dúbios, sinais de relativismo moral, ou tentativas patéticas de doutrinação política. "Superpowers" é tudo aquilo que os quadrinhos de super-heróis jamais deveriam deixar de ser: histórias simples e agradáveis, onde os heróis representam o bem, e os vilões, o mal. Aqui, os heróis não se comprometem com ideologias particulares, mas com valores morais universais. Portam-se como verdadeiros guardiões das mais profundas e elementares convicções éticas da humanidade, e, neste sentido, podemos dizer que este trabalho de Kirby presta sua modesta contribuição à preservação das "coisas permanentes" (segundo a expressão do poeta T.S. Eliot).
E, em tempos onde o próprio significado de "arte" sofre distorções (para acomodar as predileções funestas de certos espíritos doentes), tem-se aqui um exemplo de verdadeira obra artística, porque expressa à sua maneira o sublime e o belo em vez de exibir grosseiramente neuroses particulares, e por isso tal obra pode ser igualmente apreciada por pessoas de todas as idades.
Meu veredito: "Superpowers" é leitura obrigatória a todos os fãs do super-heroísmo clássico, e recomendada mesmo àqueles que, embora não sejam apaixonados pelo gênero, apenas desejam obter satisfação a partir do contato com uma boa história em quadrinhos.
sábado, 16 de setembro de 2017
ALERTA! Até mesmo o G.I.Joe caiu nas mãos dos SJW's.
Nesta imagem está representada toda a essência, todo o
espírito dos valorosos Comandos em Ação: força, disposição, bravura, coragem. Principalmente
esta última, reconhecida desde Platão como uma das quatro virtudes cardeais,
intrínseca ao guerreiro, e que durante a Segunda Grande Guerra o brilhante
general Patton tentou extrair, inutilmente, de um soldado covarde, ao esbofeteá-lo. Percebe-se também nesta imagem toda aquela atmosfera de orgulho e otimismo que caracterizavam os EUA no período liderado pelo presidente Ronald Reagan, quando aquela nação havia reassumido, sem qualquer falsa modéstia, a ideia de um destino, que seria sua missão histórica: a conservação da liberdade do Ocidente diante do autoritarismo que vinha do leste europeu, cuja expressão máxima era o socialismo internacional da União Soviética.
O G.I. Joe é carregado de uma simbologia que até hoje expressa estas ideias, tornando a famosa franquia de personagens militares da Hasbro uma espécie de anacronismo dentro da atual cultura pop (e quando digo que o G.I.Joe é anacrônico, estou fazendo um elogio). Nestas circunstâncias, é de se imaginar que a atual esquerda radical norte-americana - caracterizada por um intenso anti-americanismo e sentimento de repúdio aos valores tradicionais do Ocidente, e que se expressa nas atitudes histéricas de grupos radicais como o ANTIFA e os SJW's (Social Justice Warriors) - correria dos produtos relacionados ao G.I.Joe como o diabo foge da cruz. Mas esta suposição mostrou-se ingênua, porque subestima a obsessão que essa gente tem por hegemonia cultural. E por que digo isso? Por causa das atitudes do atual escritor da série de quadrinhos do G.I.Joe, Aubrey Sitterson.
O G.I. Joe é carregado de uma simbologia que até hoje expressa estas ideias, tornando a famosa franquia de personagens militares da Hasbro uma espécie de anacronismo dentro da atual cultura pop (e quando digo que o G.I.Joe é anacrônico, estou fazendo um elogio). Nestas circunstâncias, é de se imaginar que a atual esquerda radical norte-americana - caracterizada por um intenso anti-americanismo e sentimento de repúdio aos valores tradicionais do Ocidente, e que se expressa nas atitudes histéricas de grupos radicais como o ANTIFA e os SJW's (Social Justice Warriors) - correria dos produtos relacionados ao G.I.Joe como o diabo foge da cruz. Mas esta suposição mostrou-se ingênua, porque subestima a obsessão que essa gente tem por hegemonia cultural. E por que digo isso? Por causa das atitudes do atual escritor da série de quadrinhos do G.I.Joe, Aubrey Sitterson.
Sitterson pertence a esse seleto e exótico grupo de norte-americanos que publicamente
se diz socialista - mas um socialista moderno, mais incomodado em fazer o mea culpa por ter nascido branco, e nos
EUA, do que em resolver problemas ligados à má divisão do capital(1). Ainda mais estranho é o fato de que
ele se diz fã do G.I.Joe, mas assim que começou a trabalhar na franquia, esforçou-se
no sentido de mudá-la radicalmente. E até onde eu sei, só desejamos alterar
aquilo que nos incomoda, não aquilo que amamos.
Ele simplesmente ignorou os três grandes líderes (Hawk, Duke
e Flint), para colocar a personagem Scarlett na liderança. As histórias perderam
seu tom militar, e se tornaram mais infantis, onde os adversários são criaturas
exóticas, como dinossauros e insetos gigantes. O G.I. Joe também deixou de ser americano para se
tornar um grupo internacionalista, que "pensa e age globalmente", conforme as palavras da líder Scarlett (o que viola o clássico slogan “a real
american hero”, estampado nas cartelas das action figures desde 1982).
G.I.Joe clássico. G.I.Joe SJW
Os fãs se irritaram e conflitos no Twitter e em outros meios
de comunicação começaram. Aparentemente se divertindo com a situação, Sitterson
resolveu transformar o soldado Salvo (um personagem de design brutal e
agressivo) em uma mulher negra e obesa. Afinal, o importante é ser inclusivo.
Os fãs odiaram, e os conflitos continuaram. A essa altura, Sitterson -
utilizando-se de técnicas comuns aos Social Justice Warriors(2), em cujo grupo ele se encaixa - começou
a acusar os fãs da franquia de serem "intolerantes", “contrários à
diversidade e às minorias” etc. Neste contexto, vale mencionar que personagens femininas, como Cover Girl, Lady Jaye e a própria Scarlett, estão bastante masculinizadas nos traços estilo mangá de Giannis Milonogiannis. É estranho como pessoas que advogam com tanta paixão pela causa da "inclusão", escolhem converter todas as mulheres em seres andróginos, como se quisessem expulsar toda manifestação de feminilidade de seus trabalhos.
Salvo clássico
Salvo (ou Salva, ou Salvx... eu sei lá) SJW
Outro episódio lamentável ocorreu quando uma edição fora publicada com uma capa explicitamente homossexual para comemorar o orgulho gay. Mas o pior não era o estilo, mas a qualidade artística do trabalho, que é realmente muito ruim. Além disso, sejamos honestos: o G.I. Joe não é gay. Representá-los como gays seria tão insensato e ofensivo aos fãs quanto representar Apollo e Midnighter, heróis homossexuais do Stormwatch, como heterossexuais. Trata-se de uma violação do conceito dos personagens. Por este motivo tão simples, os fãs do G.I.Joe protestaram, e Sitterson acusou-os de "homofóbicos" (é claaaaro!).
O fuzileiro naval Gung-Ho e os motociclistas Dreadnoks representados pelo desenhista Ed Luce, na infame "capa gay" do G.I. Joe. Os fãs odiaram. Para Sitterson, eles estão sendo preconceituosos.
A lógica de Sitterson é bem simples, e conhecida por
conservadores há muito tempo (pois são as maiores vítimas dela): se você não
concorda comigo, vou atribuir a você uma série de calúnias, e encaixá-lo em
estereótipos odiosos. Devemos admitir: é uma estratégia e tanto, principalmente
em um mundo dominado pela preguiça intelectual, onde a maioria das pessoas
preferem apenas ler nomes a compreender argumentos. Em um mundo assim, meros
caluniadores levam a vantagem.
A tensão já era grande. E Sitterson decidiu piorar tudo. No dia 11/09, aniversário
da tragédia das torres gêmeas, Sitterson ofendeu os sentimentos patrióticos de
seu público, ao escrever no seu Twitter que se tratava de uma
"Self-centered National Tragedy remembrance from people who were not
anywhere near New York City day" (isto é, ele associou o pesar coletivo sobre a tragédia com sentimentos egoístas, além de
insinuar a falta de sentido na atitude de pessoas que lamentam o fato sem terem
estado presentes em NY no dia do ataque).
Foi a gota d´água para os patrióticos fãs do G.I.Joe. Sites
de expressão sobre a franquia como Yojoe.com e o blog Generalsjoes escreveram
notas de que não mais iriam comentar as publicações da editora IDW, enquanto
Sitterson trabalhasse para ela. Muitos outros fãs passaram a se manifestar
incansavelmente nas redes sociais contra Sitterson, o que está ocorrendo até
agora. Por outro lado, Sitterson conseguiu apoio do site Bleeding Cool e Mary Sue.
Neste último, principalmente, os fãs foram veementemente atacados, taxados de
“extremistas de direita”, e de todos os outros lugares-comuns que acompanham este nome. A própria franquia como um todo fora atacada, sob a
acusação de “ser um gibi militar que glorifica o exato oposto da inclusão”, e por isso Sitterson estaria apenas tentando aumentar o nível de representatividade nas
histórias. Difícil não perceber o quanto o autor do texto desconhece o universo
do G.I.Joe, que sempre contou com personagens femininas (sempre muito fortes,
como a própria Scarlett e Lady Jay) e de outras etnias (temos personagens
negros como Roadblock, Stalker e Doc; asiáticos como Quick Kick e Storm Shadow;
nativos-americanos, como Spirit e Airbourne), e até portadores de deficiências físicas (como o mudo
Snake Eyes).
Mas agora vamos ao segundo ponto de toda esta história, e
que me irritou profundamente: a atitude ingênua de alguns fãs que, infelizmente, parecem expressar a tendência de um número muito maior.
Conversei com alguns deles pelo Facebook, e a maioria se incomodou
mortalmente quando eu decidi fazer críticas aos posicionamentos políticos de
Sitterson. Um fã alegou que o debate não pode ser político, e com isso ganhou apoio de outras pessoas. Meu Deus. Infelizmente,
ninguém avisou a estas crianças grandes e que falam muito bonitinho, que
Sitterson e seus amigos tornaram o
debate político, e sem pedir o consentimento de ninguém. Isto é: Sitterson veio
armado com facas para o combate, mas as crianças com quem falei insistem em enfrentá-lo com mãos vazias. Afinal, atitudes como essa geram belas palavrinhas de ordem no facebook.
E qual a raiz desta hostilidade às denúncias ao modus operandi político de Sitterson?
Pelo que pude perceber, em parte alguns se identificam com esse posicionamento
(embora não tenham gostado do progressivismo do autor aplicado a seus heróis)(3) em parte, alguns realmente não querem
misturar políticas a este assunto.
Eu consigo entender este último posicionamento, mas ele é
ingênuo. Lutar contra um adversário explicitamente político, que se utiliza de uma
desonrosa retórica política (embora tremendamente eficiente), sem denunciar estes
mesmos artifícios, alegando apenas que ele "escreve mal" ou que "não respeita a essência dos personagens", é como enfrentar
de mãos vazias um adversário fortemente armado, conforme já dito acima. Além
disso, ignorar o elemento político no modo de pensar do adversário, quando este
elemento político é fortemente constitutivo em sua personalidade e motivações,
equivale a não compreendê-lo e, em geral, não combatê-lo de modo algum.
A ofensa aos sentimentos ligados ao 11/09 foi apenas a ponta
do iceberg, uma simples consequência do anti-americanismo doentio de Sitterson.
São as raízes ideológicas deste anti-americanismo que devem ser identificadas e
denunciadas. Mas isso, estes fãs estranhamente educadinhos demais – apesar de
estarem sendo massacrados publicamente pela retórica de Sitterson, do Bleeding
Cool, Mary Sue e sabe-se Deus por quem mais – não ousam fazer, porque criticar
publicamente as raízes ideológicas dos SJW’s exige colhões.
A boa medicina consiste em combater os sintomas de uma
doença ao mesmo tempo em que se identifica e se combate sua causa. O
curandeirismo primitivo, por outro lado, combate apenas os sintomas, sem se
preocupar com a causa da doença. Estes fãs polidos do G.I.Joe são exemplos de curandeiros
supersticiosos do debate público. E como curandeiros supersticiosos, estão
destinados à prática de uma medicina fracassada.
É importante lembrar que muitos fãs do G.I.Joe perceberam
isso, e tiveram a coragem de dizer publicamente que o simples fato de um
socialista escrever histórias do G.I.Joe já é uma total incoerência. Opiniões assim podem ser lidas do fórum Hisstank,
composto exclusivamente de fãs da franquia.
Há pessoas exigindo que Sitterson seja demitido. Exemplo disso é o bom canal do youtube Diversity & Comics, que realiza um trabalho notável e bastante importante quando se trata de denunciar as maquinações de autores ideologicamente orientados que buscam, mesmo através dos métodos mais sub-reptícios, converter quadrinhos dos heróis favoritos das pessoas em panfletagens políticas de baixíssimo nível. Já falei o que penso sobre autores serem demitidos por motivos semelhantes anos atrás neste mesmo blog, quando
inúmeros leitores homossexuais organizaram um boicote e exigiram da DC Comics a
demissão do escritor Orson Scott Card, quando este fora anunciado como novo
roteirista do Superman. Motivo? Card era contra o casamento gay(4).
Interessante notar que, na oportunidade, os gays e seus simpatizantes conseguiram
o que queriam. Nada escrito por Card sob o título do Superman fora publicado.
Os fãs do G.I.Joe, por outro lado, estão reclamando desde o início do ano até o presente momento, sem
alcançar resultados. Left wins; Right
loses. Ah, peço perdão à ala polida de leitores do G.I.Joe por ofender seu
puritanismo apolítico ao associá-los à “direita”. Foi um lapso.
Não concordei com a ideia de demitir Card, e não concordo com a ideia de demitir Sitterson. Muitos podem contra-argumentar dizendo que são casos diferentes, uma vez que Card sequer teve a chance de escrever o Superman (isto é, Card fora chutado do título do Superman por preconceito, no sentido mais estrito do termo, uma vez que seus opositores já o odiavam antes mesmo de conhecer seu trabalho como escritor), enquanto que os fãs do G.I.Joe estão fartos de Sitterson há tempos, em razão das reformulações absurdas e constrangedoras que ele de fato incorporou aos seus heróis favoritos. Este argumento faz todo o sentido. Mas creio que em um mundo livre quem deve decidir quem será demitido não é o puritanismo de fãs, mas o mercado. Que Sitterson fique no gibi do G.I.Joe, enquanto estiver vendendo. Se estão incomodados, basta não comprar as revistas. Isso forçará a demissão de um mal escritor, por meio da própria lei do mercado. Por outro lado, se o título sob o comando de Sitterson continuar vendendo, isso significa que muitos leitores do G.I.Joe estão gostando dos rumos impostos por Sitterson, e portanto, eles se merecem. O mercado é justo. Mas exigirmos histericamente que alguém perca o emprego apenas porque não gostamos das opiniões desta pessoa, é simplesmente patético.
Além disso, é infrutífero atacar Sitterson. Ele é apenas mais um indivíduo escrevendo tolices no twitter e destruindo o entretenimento de leitores de quadrinhos. Ele é um mero efeito, um joguete em uma longa cadeia causal. Deve-se denunciar e combater a causa primeira disso tudo. O problema está na base ideológica que inspira as palavras e ações destes indivíduos. Portanto, é esta base ideológica que deve ser denunciada, exposta, e atacada. Apenas pressionar uma empresa para que ela demita um funcionário é, além de moralmente baixo, totalmente inútil.
Não concordei com a ideia de demitir Card, e não concordo com a ideia de demitir Sitterson. Muitos podem contra-argumentar dizendo que são casos diferentes, uma vez que Card sequer teve a chance de escrever o Superman (isto é, Card fora chutado do título do Superman por preconceito, no sentido mais estrito do termo, uma vez que seus opositores já o odiavam antes mesmo de conhecer seu trabalho como escritor), enquanto que os fãs do G.I.Joe estão fartos de Sitterson há tempos, em razão das reformulações absurdas e constrangedoras que ele de fato incorporou aos seus heróis favoritos. Este argumento faz todo o sentido. Mas creio que em um mundo livre quem deve decidir quem será demitido não é o puritanismo de fãs, mas o mercado. Que Sitterson fique no gibi do G.I.Joe, enquanto estiver vendendo. Se estão incomodados, basta não comprar as revistas. Isso forçará a demissão de um mal escritor, por meio da própria lei do mercado. Por outro lado, se o título sob o comando de Sitterson continuar vendendo, isso significa que muitos leitores do G.I.Joe estão gostando dos rumos impostos por Sitterson, e portanto, eles se merecem. O mercado é justo. Mas exigirmos histericamente que alguém perca o emprego apenas porque não gostamos das opiniões desta pessoa, é simplesmente patético.
Além disso, é infrutífero atacar Sitterson. Ele é apenas mais um indivíduo escrevendo tolices no twitter e destruindo o entretenimento de leitores de quadrinhos. Ele é um mero efeito, um joguete em uma longa cadeia causal. Deve-se denunciar e combater a causa primeira disso tudo. O problema está na base ideológica que inspira as palavras e ações destes indivíduos. Portanto, é esta base ideológica que deve ser denunciada, exposta, e atacada. Apenas pressionar uma empresa para que ela demita um funcionário é, além de moralmente baixo, totalmente inútil.
(1) Como sinto
falta dos socialistas mais ortodoxos. Ao menos eles se dedicavam a problemas
realmente relevantes e concretos, como a inegável pobreza material existente neste
mundo tragicamente desigual. A solução apontada se mostrou débil, mas o simples
fato de se ocuparem com um problema social relevante já passa como uma grande
virtude para os padrões de inteligência atuais.
(2) Sobre o
significado dos SJW’s, ver meu texto publicado neste blog, em 5 de maio deste
ano.
(3) Estes
ficaram irritados comigo quando eu disse que ao menos podíamos extrair alguma
lição de toda essa situação: como os SJW’s atuam criminosamente em relação aos
conservadores, ao associá-los com ALT-Right, nazistas, etc. Fui chamado até
mesmo de ignorante, apesar de que foram meus interlocutores que demonstraram
uma ignorância atroz sobre o significado de conservadorismo, associando-o à
alt-right e aos nazistas, e assim concordando com a retórica da qual agora eles
próprios são as vítimas. E aqui tenho que fazer a mea culpa: este autor não imaginou que houvessem esquerdistas
(inclusive radicais) entre os admiradores do G.I.Joe. Reconheço que foi
ingenuidade minha realizar juízos apriorísticos a partir de raciocínios
coerentes. Pois coerência é uma coisa que decididamente falta a estes tempos.
(4) Muitos sites e blogueiros de esquerda estão defendendo Sitterson, dizendo que é absurdo exigir a demissão de alguém por motivos ideológicos. Gostaria de saber onde estava a maioria destes heroicos defensores da liberdade de expressão, quando a pessoa atacada era Orson Scott Card.
(4) Muitos sites e blogueiros de esquerda estão defendendo Sitterson, dizendo que é absurdo exigir a demissão de alguém por motivos ideológicos. Gostaria de saber onde estava a maioria destes heroicos defensores da liberdade de expressão, quando a pessoa atacada era Orson Scott Card.
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