quinta-feira, 23 de julho de 2015

O que o mito do Superman pode nos ensinar?



Há muito tempo penso que os super-heróis em geral não são simples figuras de entretenimento ou escapismo barato. Não; eu vejo nos super-heróis uma força pedagógica, na medida em que eles expressam e reforçam ideais morais a partir de seu exemplo. Os antigos gregos enxergavam seus heróis da mesma forma, e por isso Homero era considerado não apenas um poeta de grande imaginação, mas sobretudo um educador. Neste texto, procuro demonstrar alguns aspectos do mito do primeiro e mais arquetípico super-herói, o Superman, aspectos estes que podem nos ensinar algo sobre nós mesmos enquanto espécie humana, bem como guiar nossas vidas.

1. O Superman é símbolo de uma rejeição. Mas rejeição a quê? Rejeição a tudo que há de mais prosaico, insosso, baixo, débil, e patético na humanidade. Se somos predominantemente egoístas, Superman é inteiramente altruísta; se, fisicamente, somos naturalmente frágeis e débeis, ele, em contrapartida, é a imagem do poder encarnado. Em suma, ele é aquilo que deveríamos ser, mas que não somos. E ao ser tudo o que deveríamos ser, mas não somos, Superman representa-nos uma imagem de repúdio ao “humano, demasiado humano”1. Portanto, ao contrário do que muitos pensam, há muita agressividade na mera imagem do velho escoteiro. Algumas pessoas o odeiam, e com razão: pois se sentem ofendidas por ele, tal como o indivíduo vaidoso se sente ofendido pela simples presença daquele que ele sabe ser um rival superior. Para o narcisista, é extremamente difícil olhar para qualquer outra coisa que não o próprio retrato. Mais difícil ainda para ele é deparar-se com uma imagem que representa sua própria superação, e assim, que funciona como uma denúncia de suas próprias carências e defeitos. Por esta razão o Superman não se encontra em seus melhores dias de popularidade. Em tempos de selfie, isto é, em um período no qual presenciamos esta epidemia de narcisismo universal, um Super-homem não pode ser muito popular. Como escreveu brilhantemente Mark C. Henrie, “a psique da modernidade anseia por identificar-se com um protagonista e, acanhada, evita o julgamento implícito contra o prosaico que é expresso por meio da vida exemplar do herói”2. Mas justamente aí consiste uma das grandes virtudes de seu mito: ele nos convida à superação de nós mesmos e ao abandono do estado de mediocridade. Mas para aceitar este convite, primeiro devemos neutralizar nosso próprio egoísmo e vaidade, e parar de admirar apenas aquilo com o qual nos "identificamos".

2. Superman nos ensina o imensurável valor da compaixão, mas sem deixar de conciliá-la com a justiça. Poucos heróis demonstram tanta compaixão pelos mais fracos como o Superman. Diferentemente da maioria dos heróis, ele não luta motivado por emoções cuja base é egoísta, tal como o ressentimento pessoal ou a vingança. Seus pais não foram assassinados, e nem seu tio. Ele simplesmente não suporta ver outro homem sofrer, e por isso decidiu agir como herói. Mas apesar de seu grande coração, ele não hesita em dar ao vilão aquilo que este merece. Inocentes são dignos de compaixão. Mas o culpado deve ser detido, mesmo que por meio de super-pancadas. Muitos filósofos, sociólogos e psicólogos buscam "causas" para a maldade e comportamento antissocial, como se a espécie humana fosse fundamentalmente angelical e repleta de boas intenções e, portanto, como se devesse existir causas externas de nossa eventual corrupção. Assim pensam muitos homens. Mas um super-homem prefere pensar que todo indivíduo é dono de seu destino, e, por isso, na mesma proporção em que deve ser parabenizado por seus acertos, deve ser julgado e punido por seus erros. 

3. Superman é o “escoteiro”, um personagem “old fashioned”. E com isso demonstra que a defesa dos velhos valores e costumes define um verdadeiro super-homem. Apenas os pequenos escravos das circunstâncias seguem os modismos passageiros. E é melhor deixarmos os desejos de inovações radicais para vilões progressistas que sempre perseguem sonhos utópicos de dominação, tais como Lex Luthor. Sim, Superman é definitivamente aquilo que alguns chamam de “conservador cultural”, ou “tradicionalista”. E não há vergonha alguma em sê-lo, uma vez que esta é a marca deste homem superior.

4. Seu mito nos ensina o valor da família e o quão sagrada ela é, além de prestar uma singela homenagem à salutar simplicidade da vida rural. O que mais me agrada na versão produzida por John Byrne é que os pais adotivos do Superman estão vivos, e assim podemos acompanhar a relação familiar na qual um super-caráter pode ser forjado. O que seria do bom Clark Kent, não fosse a forte união matrimonial de um homem e uma mulher e o amor que ambos conferiram ao seu filho adotivo? Uma família unida e organizada é capaz de feitos maravilhosos! Além disso, jamais podemos esquecer que embora Clark viva na grandiosa e atribulada Metrópolis, o que faz dele verdadeiramente nobre é a sua origem simples adquirida na pequena Smallville.

5. Nada que é realmente bom pode vir deste mundo. O Super-homem não é um homem nascido na Terra, que se tornou superior após ler “Assim falou Zaratustra”, ou algum texto evolucionista de Herbert Spencer. Ele veio de um mundo “muito, muito distante”. Portanto, em meu modo de interpretar o mito do Superman, penso que ele nos ensina que devemos ser humildes enquanto espécie, e portanto ele afasta aquele humanismo patético que consiste na crença muitas vezes difundida de que somos capazes de realizar toda e qualquer coisa com base em nossa – supostamente profética e onipotente – racionalidade. “Não há limites para o homem!”. Há, sim. E justamente porque somos homens.

6. Super-heróis possuem super-poderes. É absurdo pensar que com inteligência, engenho, capital e algo como um cinto de utilidades podemos ser super-heróis. O mito do Superman afasta essa fantasia humanista. Se ele não tivesse super-poderes, então provavelmente seria apenas um homem comum, com uma família, uma casa, e um emprego, porque é isso que homens comuns e mentalmente sadios fazem. Portanto, paradoxalmente, penso que os personagens mais irreais são justamente aqueles que seriam supostamente mais realistas, tais como o Batman, Rorschach ou o Homem-de-ferro, pois, apesar de serem simples homens, eles realizam aquilo que não está ao alcance de nenhum homem realizar. Mas então o mito do Superman nos convida à vida prosaica, à mediocridade? Claro que não. Ele nos convida à realização do bem, mas dentro de nossas possibilidades. O Superman é um super-herói, porque dentro de suas possibilidades ele pode lutar contra super-vilões. Mas apesar de não contarmos com incríveis poderes, no entanto ainda podemos seguir seu exemplo de moralidade. Podemos tentar ser boas pessoas. Não podemos enfrentar fisicamente assaltantes armados ou impedir terremotos, mas podemos ser bons cidadãos, bons amigos, bons filhos, bons pais, bons maridos, etc. Este é o melhor meio de incorporarmos, em nossa vida concreta, aquele que é para mim o melhor aspecto deste mito: sua bondade e moralidade tipicamente cristãs. Como o próprio Superman diz em uma velha história da Era de Prata: “sejam bons uns para os outros, e todo homem pode ser um super-homem”3.





1 Em minha opinião, o Übermensch de Nietzsche também era “humano, demasiado humano”. Nossas cadeias – e algumas de nossas universidades – estão repletas de “humanos, demasiado humanos” deste tipo, isto é, pessoas que veem as tradições morais da humanidade como meros limites ao seu arbítrio e que anseiam liberar seus mais insólitos apetites “dionisíacos”.
2 HENRIE, Mak. C. “Russell Kirk e o coração conservador”, 2013, p. 59.
3 A história em questão foi chamada no Brasil de “Os últimos dias do Superman”. Foi escrita por Edmund Hamilton e desenhada por Curt Swan, sendo publicada originalmente em Superman 156, de outubro de 1962. No Brasil, foi publicada pela Panini na coletânea “A maiores histórias do Superman”, em 2008. 

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Grant Morrison: “Superman começou como um socialista”. Sinto muito, Morrison. Mas você está completamente errado.




Quando Grant Morrison publicou, em 2011, seu livro “Supergods: what masked vigilantes, miraculous mutants and a sun god from Smallville can teach us about being human” (aqui no Brasil sob o título “Superdeuses: mutantes, alienígenas, vigilantes e o significado de ser humano na era dos super-heróis”), eu não tive vontade de ler, embora o tema me agradasse muito. O motivo de meu desinteresse se devia ao fato de que já naquela época eu conhecia o incrível contraste que há entre a qualidade do trabalho do Grant Morrison escritor e o nível de patetice de suas próprias opiniões sobre os super-heróis que escreve. Além disso, folheando rapidamente a obra no período de seu lançamento, Morrison não me parecia dizer nenhuma novidade, diferentemente do trabalho de Christopher Knowles, “Our superheroes wear spandex” (aqui no Brasil publicado com “Nossos deuses são super-heróis”, pela Cultrix), onde o autor, entre outras coisas, procura identificar as raízes arquetípicas e místicas dos nossos super-heróis. Um trabalho ousado e brilhante. Mas agora retornemos a Morrison, nosso fantástico gênio superestimado...

Vasculhando textos sobre super-heróis e política na internet, deparei-me de maneira totalmente acidental com a afirmação “Superman is a socialist superhero”. Fiquei curioso, tal como qualquer pessoa fica quando diante de alguma afirmação absurda; afinal, por se tratar de um dos principais símbolos da cultura norte-americana, o Superman sempre me pareceu o oposto de ideais socialistas e coletivistas. Mas a América do Norte parece estar mudando... então resolvi conferir o real teor da oração apenas para ter certeza de que se tratava de alguma frase sensacionalista. E de fato era. O enunciado em questão era uma simples alusão à afirmação de Grant Morrison registrada no livro supracitado, onde ele escreve: “Superman começou como um socialista, mas Batman era o herói capitalista definitivo”. É fácil ver que a intenção de Morrison era apenas dizer que o Superman das primeiras histórias, datadas de 1938, era um socialista. Mas ao unir Superman e “socialismo” na mesma sentença, ele deu o primeiro passo para que leitores que possuem dificuldade de interpretação e jornalistas sensacionalistas chegassem à estranha conclusão de que Superman é socialista. Além disso, analisando as frases de Morrison em seu conjunto, percebe-se que se trata de um momento do texto onde o autor procura opor as qualidades e características dos dois heróis, na tentativa de destacar seus contrastes. “Superman tinha um patrão; Batman, um mordomo. Superman trabalhava sozinho; Batman tinha um parceiro. Superman era o dia; Batman, a noite. Superman era apolíneo; Batman, dionisíaco” etc, etc. Parece-me que, para dar continuidade à métrica das oposições, Morrison resolveu soltar a pérola em questão. Ora, se o Batman, cuja identidade secreta é a do rico industrial Bruce Wayne, é supostamente um capitalista1, e sendo Batman e Superman opostos, então o Superman em seus primórdios poderia ser considerado um socialista, não? – Não. Explico. E o primeiro passo da minha explicação será fazer o que quase ninguém faz nestes debates que envolvem super-heróis e política: começarei pela exposição dos conceitos utilizados no debate.

Desde o início do século XX, é difícil tomar a palavra “socialista” dissociada das teorias de Karl Marx. Eventualmente o termo “socialista” era também utilizado para se referir a teorias anarquistas na linha de Bakunin ou Proudhon (estes seriam os “socialistas libertários”), mas sua ligação com o marxismo se tornou muito mais forte e endêmica. De qualquer forma, “socialismo” se tornou sinônimo da crença de que o principal motor social é a estrutura econômica e a luta de classes a ela associada, a qual se tornou ainda mais acentuada com o fortalecimento do capitalismo e, portanto, para que esta luta termine, deve-se então eliminar, via revolução, a classe capitalista causadora deste conflito, juntamente com seu instrumento favorito de dominação: a propriedade privada. Em suma, os burgueses capitalistas, enquanto classe opressora, devem desaparecer; e os trabalhadores ou proletariado, que é a classe oprimida, deve operar este processo de desaparecimento. Portanto, em linhas gerais “socialismo” seria a ideologia que se compromete com este tipo de perspectiva social. Logo, se eu digo que o Superman “começou como um socialista”, com isso estou afirmando que o personagem era comprometido, em suas primeiras aventuras, com a eliminação da classe burguesa através da ação político-revolucionária. Em outras palavras, este Superman teria que fazer coisas como levantar a bandeira da foice e do martelo, gritar “trabalhadores, uni-vos!”, a bradar discursos contrários à propriedade privada dos meios de produção2. Mas em nenhum momento ele o faz. Jamais consegui encontrar, nestas primeiras histórias, uma única frase ideológica, classista e anticapitalista atribuída por Siegel ao seu Superman. Mas então de onde diabos Morrison tirou a ideia de que o Superman era “socialista”?

De fato, o Superman dos primeiros dias era um pouco diferente daquele que conhecemos hoje (ou que conhecíamos, até a recente reformulação dos “novos 52”). Ele era sem dúvida um herói, com um forte senso moral. A essência já estava lá. Mas o temperamento era diferente. O Superman era muito mais irritadiço e misterioso. Não vemos nele a atitude “escoteira” que hoje faz parte de seu caráter, isto é, seu desejo de seguir as leis escolhidas pela humanidade e de trabalhar ao lado das instituições democráticas e autoridades eleitas. Não; diferentemente do que Morrison escreveu em um trecho supracitado, se esse Superman era apolíneo, ele o era apenas em um sentido muito limitado, pois nele podemos testemunhar bastante da histeria emocional dionisíaca3. Embora sua aparência externa já fosse messiânica, no entanto, em muitos momentos suas atitudes são a de um Gólem ressentido, antipático e vingativo. Superman e Batman não eram tão diferentes como Morrison faz parecer. Este Superman já lutava pelos oprimidos, e por isso seu alvo eram todos os tipos de opressores que se manifestavam na sociedade americana daquele período. Superman não poupava ninguém que causasse o mal: ele enfrentava desde mafiosos, motoristas negligentes, e até mesmo técnicos de futebol irresponsáveis. Nestas circunstâncias, empresários capitalistas cruéis para com seus empregados também não poderiam escapar, e, talvez por esta razão, Morrison tenha interpretado este Superman como “socialista”4. Em Action Comics n. 3, temos um momento exemplar: Superman castiga o dono de uma mina que não tinha a menor consideração pelas condições de trabalho de seus empregados. Na história, Superman faz o empresário, chamado Thornton Blakely, passar pelas mesmas situações que seus empregados enquanto trabalhavam. A partir daí, Blakely compreende que era impossível trabalhar sob aquelas condições e, agora conscientizado, promete de bom grado a Clark Kent que irá cuidar da segurança de seus empregados. Em nenhum momento, Superman desejou que o país reformasse sua política econômica. Ele apenas desejou uma reforma moral daquele empresário em particular. Para Superman, o problema não estava no arranjo econômico da sociedade, mas na maneira como aquele indivíduo havia escolhido tratar seus empregados. Esta atitude está muito mais próxima de um conservadorismo da linha de Edmund Burke ou Russell Kirk do que de qualquer comportamento revolucionário de inspiração socialista.

Acredito que a história deste período com um conteúdo mais político seja aquela publicada em Action comics n. 8, que trata de delinquência juvenil. Nela, o Superman concorda explicitamente que a delinquência juvenil é produto das condições sociais miseráveis a que estes jovens são submetidos. No entanto, apesar de ele crer que a conduta criminosa de jovens seja produto de circunstâncias econômicas externas, o mesmo não parece se aplicar ao criminoso adulto da mesma história, que é tratado pelo Superman com extrema severidade (Superman chega a lançá-lo a incrível distância, como se fosse um simples objeto). Mas, apesar de seu explícito progressismo político relativo ao problema da delinquência juvenil, ainda não encontramos nenhum elemento suficiente para taxá-lo de “socialista”. Este relativo progressismo não chega aos extremos do socialismo. (Além disso, em fevereiro de 1940 já temos a famosa história "How Superman would end war", de Shuster e Siegel, onde o Superman derrota e captura os dois grandes ditadores socialistas daquele período, Hitler e Stalin, com o primeiro defendendo uma versão "nacionalista" de socialismo, e o segundo representando o socialismo marxista-leninista. Se Superman realmente começou como socialista em 1938, então aparentemente em 1940 ele já havia abandonado suas convicções...).

Talvez o ponto de vista de Morrison esteja amparado por uma interpretação hiperbólica daqueles fatos descritos. Interpretações hiperbólicas são bastante comuns na maioria das pessoas, pois elas possuem uma certa dificuldade em medir objetivamente as proporções das coisas. Assim, é comum muitos deduzirem, a partir de um simples olhar atravessado, uma explícita ameaça de morte; ou de uma tímida crítica construtiva, uma ofensa grave. Assim, é possível que a partir de pequenas atitudes representadas por Siegel e Shuster na figura do Superman, Morrison tenha deduzido, de maneira hiperbólica, que Superman era um ávido leitor de Karl Marx e – quem sabe? – frequentador assíduo das Internacionais. Mas será que poderíamos esperar mais de alguém que gostaria que a Mulher-Maravilha fosse lésbica e sadomasoquista, e que afirmou categoricamente que a base do conceito do Batman é “totalmente gay”5?






1 Obviamente que esta suposição é extremamente problemática. Já vi algumas pessoas, sobretudo em websites norte-americanos, afirmarem que o Batman é conservador (no sentido vulgarmente atribuído ao termo nos dias de hoje) porque ele é um empresário capitalista. Mas Engels também era um empresário capitalista e, no entanto, era socialista até a alma. Isso seria uma contradição? De modo algum. Na verdade, a lógica do capitalismo não é inteiramente distinta da lógica do socialismo marxista. Ambos desejam a mesma coisa: a continuidade da produção das riquezas materiais. O ponto de discórdia consiste apenas no fato de que os socialistas acreditam que, em uma determinada fase histórica, o capitalismo não será mais capaz de desenvolver estas forças produtivas; acreditam que o capitalismo irá travá-las. Como dizia o soviético N. Colesov, “chega um momento em que as velhas relações de produção cessam de corresponder às novas forças produtivas e se transformam num empecilho ao seu desenvolvimento (...). Este conflito só pode ser resolvido pela substituição das velhas relações de produção por novas (“A propriedade social”, 1963, p. 15-16). Os defensores do capitalismo, diferentemente, acreditam que eventuais crises econômicas podem ser sanadas, sem que o sistema econômico capitalista precise ser extinto.
2 Sim, eu conheço muito bem a Graphic Novel “Red Son”, de Mark Millar. Mas estou falando do Superman regularmente publicado, e não de uma Elseworld – isto é, uma história alternativa excluída de qualquer cronologia do herói já considerada “oficial” – que apresenta uma visão totalmente isolada, ainda que interessantíssima. Além disso, o simples fato do Superman ser socialista em uma versão alternativa já demonstra por si só que a qualidade de “socialista” não pertence ao “verdadeiro” Superman.
3 Knowles, muito mais atento aos conceitos do que Morrison, escreve que “nos primeiros números de Action Comics, o Superman não era o Apolo sorridente e idealizado que conhecemos hoje”.
4 Entre pessoas de pouca formação teórica em linhas e pensamentos políticos, é quase lugar comum a opinião de que ser “capitalista” significa ser conivente com toda e qualquer forma de abuso social que empresários venham a cometer, enquanto que “socialista” significaria adotar qualquer tipo de postura crítica em relação à atuação destes empresários. É possível que Morrison trabalhe, ainda que de maneira pouco consciente, com conceitos falsos e reducionistas deste tipo.
5 Em entrevista à Playboy, Morrison disse: “Gayness is built into Batman ... Obviously as a fictional character he's intended to be heterosexual, but the basis of the whole concept is utterly gay. I think that's why people like it.”. 

quinta-feira, 11 de junho de 2015

"Liga da Justiça: crise em duas Terras" e a questão do significado moral de nossas ações




O longa animado “Justice League: crisis on two earths", escrito por Dwayne McDuffie, foi produzido e lançado já há alguns anos, mas somente agora tive a oportunidade (e interesse) em assisti-lo. Agora, arrependo-me amargamente de não tê-lo feito na época em que fora lançado. Devo admitir: é um excelente trabalho, e, diferente de muitos longas animados descartáveis lançados nos últimos anos (sejam eles produzidos pela Marvel/Disney ou DC/Warner), “Justice League: crisis on two earths" cumpre seu dever e honra aquela que, a meu ver, é a verdadeira finalidade de todo conto de super-heróis: fazer-nos vivenciar eventos fantásticos que, em última instância, conduzem-nos a questões morais. Pois muito mais do que do que apresentar histórias imaginárias sobre homens que voam e possuem superforça, as histórias em quadrinhos, desde a década de 30, propõem a resposta para a seguinte questão: considerando que um homem consegue voar e é superforte, o que ele deveria fazer com semelhantes poderes? Jerry Siegel e Joe Shuster respondiam, de maneira intuitiva através de suas histórias imaginárias, que tal homem deveria lutar pela verdade e justiça. Algumas décadas depois Stan Lee e Steve Ditko responderiam a mesma questão de maneira mais consciente através da famosa sentença: “com grande poder, vem grande responsabilidade”.

Dwayne McDuffie, por meio de “Justice League: crisis on two earths", convida-nos a aprofundar um pouco mais nossas intuições morais por meio do seguinte problema: considerando que exista uma lei física segundo a qual para cada uma de nossas ações e escolhas realizadas surge um outro mundo ou realidade no qual uma outra versão nossa realiza justamente a conduta oposta, qual seria então o real significado de nossas ações? Ou, dito de maneira mais simples: se para cada ação boa que realizo em meu mundo cria-se uma correspondente ação má em um mundo paralelo, que sentido haveria em ser bom? Não é meu interesse aqui discutir até que ponto o problema levantado em “Justice League: crisis on two earths" corresponde à teoria “dos muitos mundos”, seriamente proposta pelo físico Hugh Everett III, ou outras teorias científicas do gênero. Meu objetivo é simplesmente o de avaliar nossos juízos morais a partir daquela hipótese imaginária.

Dentro do conto escrito por McDuffie, o personagem que levanta esta questão é o Coruja, justamente a versão maligna do Batman que conhecemos. Ora, se o Batman escolheu ser um herói em nossa “realidade”, disso se segue que, assumindo aquela hipótese, as escolhas heroicas que Batman fez em nossa realidade produziram escolhas ruins em outra realidade (e vice-versa... McDuffie não nos explica quem é a causa de quem aqui: se as escolhas boas do Batman produzem as escolhas ruins do Coruja, ou se as escolhas ruins do Coruja produzem as escolhas boas do Batman). Portanto, se para cada escolha boa que os heróis fazem existe uma escolha má correspondente em outra realidade, disso se segue que à nossa Liga da Justiça, defensora da verdade e da justiça, corresponde em outra realidade uma Liga da Injustiça (ou, como é chamada no longa, “Sindicato do Crime”) que causa injustiças e mentiras. Não importa o quanto o Superman se esforce em nosso mundo. Em outro mundo, ele possui um correspondente exato, tão poderoso quanto, mas moralmente oposto, chamado de Ultraman. Tanto quanto o Superman protege nossa vida e liberdade, Ultraman massacra estes mesmos valores em outra realidade. Então resta-nos questionar: se para cada bem produzido em um mundo real há um mal produzido em outro mundo igualmente real, então que sentido há em fazer o bem (ou mesmo o mal)?

Refletindo sobre isso, o personagem Coruja percebe quantas “implicações filosóficas” intrigantes há aí. E sua conclusão filosófica não poderia ser mais niilista. Para o Coruja, a totalidade da realidade é um erro, um empreendimento sem qualquer sentido, e, por isso, a “única ação realmente significativa” (uma vez que todas as outras não possuem verdadeiro significado moral na medida em que coexistem com ações paralelas e moralmente opostas) é aquela que destrói todo este processo de criação cósmica. E assim inicia-se a busca do Coruja pela destruição da “Terra Primordial”, da qual derivaram todas as outras, e cuja extinção ocasionaria a destruição de todas as outras Terras paralelas. Apenas esta ação (de destruir a Terra primordial) não encontraria uma ação correspondente e oposta em outra realidade. Logo, a única ação realmente relevante.

Em um combate corpo-a-corpo com o Batman, o Coruja explica suas conclusões filosóficas. Infelizmente, este talvez seja o único ponto em que o filme me decepcionou. Diante das conclusões do Coruja, eu gostaria que McDuffie colocasse na boca do Batman boas argumentações que demonstrassem ao Coruja o erro de suas conclusões niilistas. Gostaria que o Batman dissesse “Coruja, você está errado por tais e tais razões”. Mas o Batman não argumenta, não demonstra ao Coruja seus erros. O homem-morcego se limita a enfrentar o Coruja, e expressar seu desejo de continuar sobrevivendo e, consequentemente, de impedir que o Coruja triunfe em seu plano de destruição universal. A frase mais filosófica que Batman pronuncia é um tanto fora de contexto, e sem grandes implicações para o poderoso dilema proposto por sua contraparte maligna: “nós dois olhamos para o abismo... mas quando ele olhou de volta, você piscou”. Frase muito expressiva, mas que não nos conduz a qualquer argumento. Isso me leva a questionar: será que McDuffie, secretamente, concordava com o Coruja? Ou será que o autor, mesmo não concordando com as argumentações do vilão, no entanto não conseguiu encontrar argumentos que o contradissessem? Ou ainda, se encontrou estes argumentos, talvez não quis expô-los na animação, por julgá-los prolixos demais e, assim, resolveu contra-atacar o niilismo com a força estética e expressiva da ação heroica dos personagens da Liga da Justiça?

Com relação a McDuffie, creio que jamais saberei a resposta. Mas acredito que a segunda hipótese explique muito bem os sentimentos da maioria dos telespectadores que assistiram ao filme. Nossa razão diz que o Coruja está certo. Seus argumentos, aparentemente, não podem ser contraditados. Mas, apesar disso, queremos que Batman o detenha (ainda que o mesmo não apresente argumentos à altura); queremos que a Liga da Justiça continue a lutar pelo bem, apesar de isso acarretar a existência do Sindicato do Crime. Queremos que nossos heróis perseverem em sua tentativa de triunfo, apesar de que, assumindo a teoria do Coruja, esse triunfo nunca possa ser inteiramente alcançado. Pois se levarmos sua teoria às últimas consequências (o que não foi feito por McDuffie), então para a derrota do Sindicato do Crime em sua Terra, surgiu um Sindicato do Crime triunfante em outra Terra, e uma Liga da Justiça que foi desmantelada. E podemos pensar até mesmo que, para a derrota do Coruja, corresponde a vitória de um outro Coruja, e assim, esse outro Coruja teria destruído uma Terra Primordial e, com isso, toda uma outra totalidade de Terras paralelas, o que nos levaria à conclusão de que não poderia existir uma única Terra Primordial... Se a grande lei do universo é na verdade a violação daquela que acreditávamos ser a maior de todas as leis – o princípio da não-contradição – então toda e qualquer coisa está condenada a coexistir sempre com seu contrário (ainda que este contrário se manifeste em outra realidade). E assim, o bem sempre irá vencer e perder ao mesmo tempo, ainda que vença em um mundo, mas perca em outro. Então a palavra final teria que ser a do Coruja: “que importa?”.

Mas eu creio que exista um modo de contradizer o Coruja, e provar filosoficamente que, apesar do bem jamais triunfar verdadeiramente, no entanto, a busca pelo bem continua a se justificar. E meu argumento principal consiste basicamente no seguinte: nossas intuições morais não estão baseadas em resultados. Se a moralidade tivesse uma base meramente pragmática ou utilitarista, isto é, se o bem se definisse pelo seu resultado externo ou sua propriedade de produzir vantagens, então o Coruja teria toda razão. Mas o fato é que nossa consciência moral emite juízos e convicções que independem do sucesso de nossas ações. Antes, ela apenas emite sentenças que valem em si mesmas. Dito de modo mais filosófico, nossa consciência moral enuncia o que devemos fazer independentemente daquilo que efetivamente fazemos e que efetivamente podemos concretizar. Em suma: ela separa o mundo do Ser (isto é, o conjunto de relações causais e efetivas que ocorrem no mundo externo) do mundo do Dever-ser (que se reporta apenas a nossas regras morais e, portanto, enuncia aquilo que devemos fazer com uma certa independência das relações causais e efetivas que se pronunciam e atualizam na ordem do Ser). Mas tudo isso apreendemos de maneira não refletida, mas intuitiva. Isto é, sabemos que a Liga da Justiça deve sempre fazer bem; apenas não conseguimos justificar por quê. Por isso, torcemos pela Liga da Justiça, ainda que saibamos que, assumindo a teoria do Coruja, esta mesma Liga da Justiça nunca poderá triunfar absolutamente, senão muito relativamente.


Portanto, esta seria a grande lição deixada por “Justice League: crisis on two earths". A lição de que não importam as evidências científicas em contrário, nossa consciência moral jamais abandonará suas convicções, porque ela não está subordinada às leis que dirigem o mundo externo. Neste mundo externo, vigora o fatalismo da causalidade física e a incerteza quanto ao destino moral da humanidade. Em nosso mundo interno, diferentemente, percebemos nós mesmos como agentes livres e eternamente responsáveis pelas nossas ações, independentemente de seus resultados e antecedentes. 

domingo, 14 de dezembro de 2014

Why Captain America is conservative

by Rogério M. O. Filho

I’ve seen a lot of people arguing about the political leaning of Captain America. And after reading various texts and articles throughout the web, I finally have concluded: Captain America is conservative. Why? Well, before answer that question, I think we must begin by the definition of the central concepts: what does it mean to be “liberal” (in American sense of the word)? What does it mean  to be “conservative” (when such word is used inside United States of America)? – as David Hume wrote in his Enquiry concerning human understanding, when “a controversy has been long kept on foot, and remains still undecided, we may presume that there is some ambiguity in the expression, and that the disputants affix different ideas to the terms employed in the controversy.

If by “conservative” we understand a jingoistic attitude, a blind optimistic nationalism, an egotistical obsession by the protection of own money and patrimony as if “freedom” had only an economical extension, a fanatical individualism, and the opinion according which the authority of government and the safety is more important than freedom, so I must say: Captain America is not conservative. But none of those qualifications can be considered a definition of true conservatism. Conservatism is not pure individualism:

“True Conservatism, conservatism uninfected by Benthamite or Spencerian ideas, rises at the antipodes from individualism. Individualism is social atomism; conservatism is community of spirit” (KIRK, 2001, p. 242) [1].

The image of conservative as simply the rich capitalist is a caricature:

“In America an impression began to rise that the new industrial and acquisitive interests are the conservative interest, that conservatism is simply a political argument in defense of large accumulations of private property, that expansion, centralization, and accumulation are the tenets of conservatives. From this confusion, from the popular belief that Hamilton was the founder of American conservatism, the forces of tradition in the United States never have fully escaped” (KIRK, 2001, p. 229).

According to Russell Kirk – maybe the greatest expert on American and English conservatism in all the world – the first founder of true conservatism in America was John Adams (p. 71) whose “primary concerns” were “private and public virtues” (p. 99). Conservatism is much more about morals than economical issues. That’s the reason why true conservatism has as greatest feature the belief in a moral transcendent order, which is independent of individual subjective opinions and momentary preferences. Such moral order is gradually revealed only through the concrete and reiterated experience; such kind of experience receives the name of “tradition”. That’s the reason why a true conservative is always an uncompromising defender of traditions and moral principles, "the permanent things", such as equal justice – or equality before God and courts of law, which is completely different from equality of condition and economical levelling  – personal freedom, private property, and recognition of own individuality (the last two are closely linked with freedom) .

Such rigidness which characterizes the conservative mind contrasts the progressive or liberal mind. For the american progressive or liberal – they mean the same in United States – the world must change according the new exigencies of the social and economical circumstances. That’s the reason why Bentham’s and Mill’s english utilitarianism is almost the complete synonym of american liberalism: because they share the belief that nothing but the satisfaction of the majority can be sacred. Because of that, they – American liberals and English utilitarians – must be progressives: as long as the opinions and moods always change, so the laws and moral principles which rule the society must be changed as well – except, of course, the principle of general utility or majority happiness. There’s no object of spiritual devotion here, except the general happiness itself.

I think now it is clear for the reader – who knows something about Captain America – in which side of american political spectrum we can put our star spangled hero. The Captain is a traditionalist whose concept represents a man entirely devoted to those principles on which America was originally created. He doesn’t represent the American government transitory policies; he doesn’t represent this or that party; these or those groups of interest. He only represents the American principles and the American traditions. Nothing less, nothing more. As Frank Miller said before[2], Captain America is “a wonder anachronism”. This means: he’s always standing for those principles and traditions which make what America really is in its core and essence, but which is always threatened by new transitory desires of novelties from naive people or radical governments. Captain America is the tradition itself when it is standing against radical progress. And such posture incorporates the truest meaning of conservatism. Besides, the modern American liberals uphold firstly economic equality - although I believe they do not support socialism - while the conservatives, since Edmund Burke in England and John Adams in USA, support firstly personal freedom. And Captain America is not the "Sentinel of Equality", but the "Sentinel of Liberty". 

I think the most emblematic instance of that conservative attitude is the Civil War story (2006), written by Mark Millar. What makes Civil War a good example is the fact that it is explicitly political. Civil War begins when American government promotes a radical change in legislation: it creates a “superhuman registration act”, according which the superheroes must act under official regulation, as long as they’re considered “living weapons of mass destruction”. The new law converted them in something akin to police officers. One dangerous and abusive effect of such law is the legal obligation of revealing the secret identities. The heroes who don’t obey the new law, are punished as criminals. Captain America leads an anti-registration group because he disagrees with the new law, basically arguing that it is against liberty and that “masked heroes have been a part of this country for as long as anyone can remember”. Therefore, according to Captain America, the new law violates the American traditions. On the other hand, the hero Iron Man, who supports the radical new law, is the reformer or progressive here. Civil War shows us another aspect of liberal thought: it is based on what I would like to call "bad induction" as long as the enthusiastic desire of novelties comes sometimes from an unique happening (here, the tragedy in Stamford). On the other hand, the conservative thought is based on "good induction", as long as the traditions are made up by very long and reiterated experience. Some people interpreted Civil War as a parable for the gun control problem, where Captain America would represent the conservative side against the gun control and supporting the personal freedom and personal responsibility, and traditions. I think it is a good interpretation.




I’ve seen some people saying that Captain America would be a liberal because he was created during Franklin Roosevelt’s New Deal times, and so he would be a Democrat; that Steve Rogers grew up in Brooklyn and became an artist, and artists during that time were in general left-wingers and Democrats; and so on [3]. I think such arguments are logically vicious as long as they are based in generalizations and real-life assumptions. Besides, the character Captain America – so far as I know – never spoke in defense or favored any real political party, as the Republican Party or Democratic Party. The reason why he was never interpreted as a political party follower is because his concept is that of a man who represents the America, and not some partisan interest. When Captain America was created by Simon and Kirby, there was no serious political division inside United States of America. The internal problems in national economy were left aside because all the Americans had a common enemy: the National Socialist Party in Germany and its followers. America was never so united, except in its own Independence War. The legal and economical battles between Republicans and Democrats inside USA were left aside for the battle between the principles of freedom and nazi authority in international field. Therefore, Captain America is the product of the Second World War, and not of New Deal ideology [4].

Besides, the political parties as well their members are historically very shifting about their own political leanings, and the public itself in United States is always changing its own concepts about what does it mean to be "conservative" and "liberal". Franklin Roosevelt`s Foreign (interventionist) Policy could be considered "liberal" in 40`s, but today it would be easily called "conservative". In 18. century, Hamilton`s federalism was considered "conservative"; today, it seems much more "liberal"; and so on. That`s the reason why we can see so much people defending "liberal" ideas which are, in reality, conservative ideas, and conversely, so much people who imagine themselves as "conservatives", when they`re publically defending liberal conceptions [5].

On the other hand, I tried (predominantly based on Kirk`s work) throught this article to give an universal (and very abstract) concept about "American conservatism" and "American liberalism". The first means an uncompromsing attitude toward principles and fidelity to traditions; the second means compromissing attitude and progressive actions, always searching the circunstancial welfare and happiness of society. Anyway, in United States of America even some liberal people has a very traditionalist or conservative leaning because such people respect tha Federal Constitution - called by Kirk "the most sagacious conservative document in political history" - and supports traditional means of change, such as the parliamentary dialog and non-violent protests (that is, they can be progressives about the changes, but not about the means). (Therefore, it is very hard to find, at least in USA, people who are "pure" liberals or "pure" conservatives - as even conservatives sometimes can desire some kind of reform as well). In other countries which are much more radicals and progressives, the Constitutions mean something akin to mere pieces of paper [6].

A good instance of how Captain America doesn’t represent political parties, but simply traditional principles, is the classic Captain America #260 (1980), produced by Roger Stern and John Byrne. In that story, Captain America rejects the candidacy for US presidency, because as a politician he would be “ready to negotiate, to compromise”, but his duty is preserving “the dream”. In other words, Captain America could never put in relativism the “dream” – the American principles or the original project from the founder fathers – through the negotiating and compromising which is an essential part of political activity [7].


Therefore, when I say Captain America is conservative, I’m not affirming that Captain America is a supporter of any political party which by now is considered “conservative”, such as Republican Party, or supporter of any “conservative” movement, such as Tea Party. Such affirmative would be so incorrect as to say he’s a liberal because he would be a Democrat. Captain America could never represent a particular political party, because he doesn’t represent particular interests, but America principles and traditions. Because of his fidelity and uncompromising attitude toward those principles and traditions, Captain America can be easily considered a conservative.



[1] KIRK, Russel. The conservative mind. Seventh revised edition by Regnery Publishing.


[3] This kind of opinion has found great expression through this interesting article: http://www.lawyersgunsmoneyblog.com/2013/10/steven-attewell-steve-rogers-isnt-just-any-hero

[4] I know when the first Captain America issue was published, USA was not directly at war. But the plot was already about the battle against nazi Germany, and not some kind of New Deal proselytism.


[5] Therefore, it cannot be a surprise that Captain America co-criator, Joe Simon, who supported american interventionism at Second World War, supported George W. Bush and the war in Iraq and Afghanistan after the 9/11 attacks (see http://www.salon.com/2011/07/19/captain_america_politics/). In 40`s that was a "liberal"attitude; today, it is a "conservative" atittude. So I ask you: is Joe Simon "liberal" or "conservative"?  

[6] I can take my own country - Brazil - for instance. In Brazil, we have had 9 different Constitutions since 1822. Brazil is always trying to change... As a reflexion of political instability in Brazil - because of the absence of truly conservative ideas - we have political parties which represent all sort of interests and ideologies, from classical liberalism until marxism. For the most people who lives in countries as Brazil, the difference between liberals and conservatives in United States seems to be almost totally absent. 

[7] I think Mark Gruenwald`s long run on Captain America title is another excellent example of Steve Rogers unbreakable morality as well his uncompromising attitude toward political issues.


terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Chuck Dixon e Paul Rivoche denunciam o relativismo moral nos quadrinhos modernos

O texto abaixo, escrito por Chuck Dixon e Paul Rivoche, foi publicado no Wall Street Journal em 8 de junho deste ano (http://www.wsj.com/articles/dixon-and-rivoche-how-liberalism-became-kryptonite-for-superman-1402265792). Por concordar inteiramente com seu conteúdo, resolvi traduzi-lo e publicá-lo no meu blog, Heros Invictus. Obs.: é de suma importância notar que os autores se utilizam da expressão "liberalismo" e "liberal" no sentido atribuído à palavra pelos norte-americanos, e que difere consideravelmente do liberalismo clássico nascido na Europa.


Como o liberalismo se tornou uma kryptonita para o Superman
Um conto sobre o declínio dos quadrinhos modernos ao relativismo moral

Por Chuck Dixon a Paul Rivoche

Na edição de número 900 da Action Comics, Superman decide ir às Nações Unidas e renunciar sua cidadania norte-americana. “’Verdade, justiça e estilo de vida americano’ – não é mais o bastante”, ele diz desanimado. Esta edição, publicada em abril de 2011, é, talvez, o exemplo mais dramático do declínio dos quadrinhos modernos ao politicamente correto, ambigüidade moral e ideologia esquerdista.

Nós somos artistas de quadrinhos e quadrinhos são nossa paixão. Mas, mais importante, eles têm inspirado e formado milhões de jovens americanos. Nosso medo é o de que os jovens leitores da atualidade estejam sendo mal servidos por um meio que frequentemente apresenta heróis que fazem concessões no campo da moralidade ou que não são diferentes dos criminosos que eles combatem. Com a ascensão do relativismo moral, “verdade, justiça e estilo de vida americano” perdeu seu significado.

A história começa nos anos 30. Superman, quando apareceu inicialmente nos primeiros gibis e depois no rádio e na TV, não era apenas “capaz de saltar edifícios com um simples pulo”; ele também era bom, justo, e maravilhosamente americano. Superman e outros “super-heróis” como Batman faziam de tudo para distinguir a si mesmos de vilões como Coringa e Lex Luthor. Superman até mesmo enfrentou a Alemanha nazista e o Japão imperial durante a Segunda Guerra Mundial.

O Superman também realizou cruzadas domésticas, sendo a mais famosa aquela contra a Ku Klux Klan. Um homem familiarizado com a Klan, Stetson Kennedy, confrontou os produtores do programa de rádio durante os anos 40 com alguns dos códigos secretos e rituais da Klan. Os produtores do programa desenvolveram mais de 10 episódios anti-Klan, “The Clan of the Fiery Cross”, que foram ao ar em junho de 1946. A oposição inequívoca assumida pelo programa de rádio ao fanatismo reduziu nitidamente o respeito de jovens americanos brancos pela Ku Klux Klan.

A família de um de nós, Paul Rivoche, fugiu da Rússia Soviética. O fato de que os criadores do Superman, Jerry Siegel e Joe Shuster, foram eles próprios imigrantes, inspirou Paul. Superman era um tipo de imigrante, que veio de Krypton – um planeta “muito, muito distante” – para a Terra. Paul cresceu no Canadá, mas ele quis retratar por meio de sua arte e ilustrações a admiração pela América do Norte e Estados Unidos. Um idealismo semelhante levou Chuck, o escritor em nossa equipe, aos quadrinhos.

Nos anos 50, as grandes empresas de publicação, incluindo a DC e aquela que mais tarde se tornaria a Marvel, criaram o Comics Code Authority, uma associação de regulação que emitiu regras como: “Crimes jamais devem ser representados de modo a criar simpatia pelo criminoso”. A ideia por trás do CCA, que tinha uma estampa de aprovação na capa de todos os gibis, era a de proteger o grande público daquela indústria – crianças – de histórias que poderiam glorificar o crime violento, o uso de drogas e outros comportamentos ilícitos.

Nos anos 70 (nossos primeiros anos nesta indústria), ninguém realmente alterou a fórmula dos super-heróis. O CCA mudou seu código para permitir “descrições complacentes do comportamento criminoso [...] e corrupção entre funcionários públicos” mas apenas “na medida em que seja retratado como excepcional e que o culpado seja punido”. Em outras palavras, ainda existiam sujeitos bons e sujeitos maus. Ninguém se importava com a preferência política de um artista se ele pudesse escrever ou desenhar dentro do cronograma. Os quadrinhos eram uma irmandade que transcendia a política.

Os anos 90 trouxeram uma mudança. A indústria enfraqueceu e eventualmente revogou a CCA, e os editores começaram a evitar a contratação de artistas conservadores. Um de nós, Chuck, expressou a opinião de que uma história aberta sobre AIDS não era apropriada para gibis endereçados às crianças. Os editores rejeitaram a ideia e pediram para ele se desculpar aos seus colegas apenas por tê-la expressado. Em seguida, Chuck passou a ganhar menos trabalho para realizar.

Os super-heróis também mudaram. Batman se tornou sombrio e ambíguo, um tipo de monstro infeliz. Superman se tornou menos patriótico, culminando em sua decisão de renunciar à cidadania norte-americana para que assim ele não fosse visto como uma extensão da política externa dos EUA. Um novo código, menos explícito mas muito mais forte, substitui o antigo: o código do politicamente correto e da ambigüidade moral. Se você discordasse da maioria dos editores de esquerda, você seria silenciado.

O problema do politicamente correto ultrapassa os quadrinhos tradicionais e se estende até às Graphic Novels. Estes trabalhos, a despeito do título, não são todos fictícios. Por anos uma Graphic Novel de “A People’s History of American Empire”, de Howard Zinn, tem sido ensinada nas escolas americanas. Há até mesmo uma versão cartoonizada de “Working”, de Studs Terkel. Che Guevara, a cubano marxista e revolucionário, é o assunto de muitas Graphic Novels, assim como a anarquista Emma Goldman.

Porém, nem todos os quadrinhos e Graphic Novels papagueiam a linha progressista. “Maus” e “Persepolis” venderam muitas centenas de milhares de cópias, e são ensinadas nas escolas. Nenhum destes grandes sucessos pode ser chamado de “esquerda” ou de “direita”. “Os Incríveis”, da Pixar, são uma parábola sobre o mal que há em rebaixar grandes pessoas porque elas exibem grandes talentos. Podemos, se quisermos, encontrar conteúdo libertário nos “X-Men”. Entretanto, a mensagem geral que a maioria dos quadrinhos modernos tem enviado é – em um mundo moralmente ambíguo largamente criado pelo império americano – “olhe para a esquerda”.

Isso seria menos importante se os quadrinhos estivessem desaparecendo. Mas eles estão mais populares do que nunca, como evidenciado por sucessos de Hollywood como “X-Men”. Um terço dos professores que têm o inglês como segunda língua nos EUA usam quadrinhos. Se você duvida do futuro desta mídia, olhe o Amazon, que comprou a ComiXology, uma companhia que traduz gibis para e-books. Ou tente ir neste mês de julho à Comic-Com, a convenção anual de quadrinhos.

Como um colega nosso escreveu recentemente na comicsbeat.com, quando se trata de compensar o atraso em relação à esquerda nos quadrinhos modernos, “os conservadores estão fazendo o curso de recuperação”. Como nossa contribuição àquele curso, nós dois investimos anos na Graphic Novel de “The Forgotten Men”, a nova história da escritora conservadora Amity Shlaes para a Grande Depressão. Mas o nosso é apenas um livro. Nós esperamos que os conservadores, os livre-comerciantes e, sim, os liberais que apóiam a livre expressão, juntem-se a nós. É hora de retomar os quadrinhos.


Sr. Dixon é autor de centenas de quadrinhos e ajudou a criar personagens como Bane e The Spoiler (Salteadora). Sr. Rivoche foi co-criador de Mr. X e ilustrou dezenas de capas do Batman, Superman e Homem-de-Ferro. 

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

O Reino do Amanhã: uma interpretação conservadora





O que é conservadorismo?

Creio que, quando se fala vulgarmente em “conservadorismo”, a principal ideia que vem à mente das pessoas é a de um tradicionalismo teimoso e fanático, resistente a toda e qualquer sugestão de progressos e mudanças sociais. Na verdade, esta é uma concepção caricata. Pois, como bem ensina Russell Kirk – provavelmente o maior conhecedor e estudioso do conservadorismo – em sua obra The conservative mind, ainda que seja bastante característico das ideias conservadoras a oposição às abruptas inovações políticas, morais e sociais, isso não ocorre por um estranho fetichismo no sentido de se opor a tudo que é novo, mas porque crê-se que o melhor desenvolvimento de uma sociedade se realiza através da equilibrada continuidade e no respeito pelas tradições, as quais, em sua maior parte, não resultam de caprichos e do arbítrio de acadêmicos idealistas, idiotas e solitários, mas surgem como reflexo da natureza concreta do ser humano. Disso se segue a crença dos conservadores em uma ordem moral transcendente, traduzida em princípios morais fixos, continuamente descobertos e reafirmados pelas tradições, e cuja alteração ou corrupção abala as estruturas mais seguras da sociedade, precipitando-a, assim, em um estado de confusão e desordem. Dito de modo mais simples, o verdadeiro conservador é aquele que preza as tradições em detrimento dos sonhos utópicos, não por uma resistência caprichosa ou patológica contra tudo aquilo que é novo, mas porque sabe que a voz da experiência passada é mais sábia do que a consciência da massa entusiasmada quando diante da expectativa de milagrosas mudanças.

As motivações conservadoras e a história de Reino do Amanhã

            Mas que tipo relação isso tudo teria com a graphic novel O Reino do Amanhã? Creio que uma relação bastante forte. Pois se fôssemos tentar apreender o argumento essencial que permeia o Reino do Amanhã, então, creio que eu, que seria este: que é extremamente nocivo abandonar nossas tradições morais, representadas por nossos heróis tradicionais, para então adotarmos, incentivados por algum entusiasmo sentimentalista e momentâneo, um novo código moral representado por novos heróis supostamente progressistas. Devo deixar claro que desconheço inteiramente as posições políticas adotadas por Mark Waid e Alex Ross, os criadores de Reino do Amanhã. E isso pouco me importa, uma vez que a obra verdadeiramente boa deve sempre se desligar das preferências subjetivas de seus autores para adquirir vida própria. Mas certamente Mark Waid e Alex Ross conceberam o Reino do Amanhã dentro de um espírito tipicamente conservador, no sentido de que sabiam que precisavam proteger e restaurar as antigas tradições das histórias em quadrinhos, pelas quais os heróis seguiam um código moral bastante rígido, em oposição aos novos “heróis”, moralmente ambíguos e psicologicamente doentes. O Reino do Amanhã fora concebido em meados dos anos 90, quando o Superman perdia cada vez mais sua popularidade, a versão de Frank Miller para o Batman era considerada a versão definitiva do mesmo (e, lamentavelmente, ainda é...), o Wolverine tinha muito mais destaque do que o Capitão América, e a editora Image – uma verdadeira fábrica do anti-heroísmo vazio e descartável – adquiria cada vez mais sucesso. Neste panorama, as histórias em quadrinhos já não eram mais alegorias morais, mas simples expressões artísticas e da imaginação destituídas de qualquer compromisso ético. Através de Reino do Amanhã, Mark Waid e Alex Ross buscavam reverter este quadro.
            Como já é bem sabido por qualquer fã de quadrinhos, toda a trama de Reino do Amanhã se passa em um futuro possível, onde há precisamente 10 anos, o maior de todos os heróis, o Super-homem, decidiu aposentar-se. A consequência de sua aposentadoria foi o afastamento de todos os heróis do passado e o surgimento de uma nova geração de vigilantes que, no melhor estilo Image, adotam uma postura neurótica e indiferente a princípios morais e à vida humana. Parecem lutar por lutar, em vez de lutar pelo que é certo. Assim, a população humana se vê cada vez mais ameaçada por esta geração de metahumanos desequilibrados.
            Mas o que realmente nos interessa até aqui é o motivo da aposentadoria do Super-homem. Por que teria ele desistido da humanidade? Na verdade, foi a humanidade que desistiu dele. No passado, Metrópolis viu surgir um novo protetor: Magog. A postura de Magog era aquela reverenciada pela massa de leitores dos anos 90: homicida implacável, com algumas cicatrizes e elementos cibernéticos em seu traje (qualquer semelhança com o Cable de Rob Liefeld não poderia ser mera coincidência). Magog era a suma do anti-heroísmo comercialmente vitorioso dos anos 90, tanto no aspecto estético quanto no aspecto psicológico. E, com a utilização de mais um recurso metalinguístico, a população de Metrópolis igualmente passa a adorar este novo protetor, bem como a aceitar seus métodos inovadores (e bastante violentos). Com isso, verifica-se a ruptura com a antiga tradição ética representada na figura do Super-homem: aos olhos dos cidadãos de Metrópolis, o velho “escoteiro” estava ultrapassado.
            Tomado pela decepção e amargura, o Super-homem se recolhe em sua Fortaleza da Solidão. Para enfatizar seu desligamento em relação à humanidade, ele até mesmo abandona a identidade de Clark Kent.

O conservadorismo se introduz na história...

            É precisamente neste momento que a tese conservadora se afirma em Reino do Amanhã. Pois de acordo com a história, ao dar as costas ao antigo (representado no personagem Super-homem) para abraçar de maneira entusiasmada o novo (representado no personagem Magog), o povo da Terra se coloca em uma rota que os conduzirá à desordem e destruição. Não nos enganemos: a população de Metrópolis não trocou simplesmente um herói pelo outro, mas revogou toda uma tradição, todo um conjunto de princípios, para substituí-los por uma concepção inteiramente nova sobre o que deveria ser o heroísmo. Mas de acordo com os conservadores, o elemento que dá sustentação, harmonia e coerência a uma sociedade, é precisamente o conjunto de seus princípios éticos tradicionais. Ao romper com estes princípios, a população de Metrópolis perdeu seu chão, seu ponto de sustentação, e a consequência disso foi o desmoronamento de seu edifício ético, político e social. Dez anos depois, tudo é medo, caos e desordem. A expressão “herói” adquire um sentido pejorativo, uma vez que os heróis atuais estão entre os principais agentes do caos. O reverendo Norman McCay começa a ter visões sobre o apocalipse. E Magog, com seu grupo de “heróis”, em um ato violento e imprudente, provoca uma onda de destruição que varre todo o estado do Kansas, e partes de Iwoa, Missouri e Nebraska. Milhões morrem.
            Com isso, o Super-homem se vê forçado a retornar. Seu retorno é épico, e certamente um dos pontos altos de toda a série: em super-velocidade, ele salva dezenas de pessoas em um teleférico ao mesmo tempo que detém sete metahumanos da nova geração que ali se digladiavam. Todos aplaudem e choram emocionados. Mas o reverendo Norman McCay continua a ter visões sobre o apocalipse, e por isso ele pressente que o retorno do Superman não irá resolver todos os problemas.

A sabedoria de Orion

            E McCay está certo. Diante de todo o caos, o Super-homem parece se ver forçado a adotar uma postura um tanto autoritária. Ele e sua Liga da Justiça realizam uma verdadeira cruzada pelo mundo, onde convertem metahumanos rebeldes e aprisionam aqueles que se recusam a seguir seu auxílio e liderança. O Super-homem é bem intencionado, mas suas ações são uma perfeita expressão do tradicionalista confuso que sabe que precisa reagir, mas não sabe ao certo como. As constantes sugestões da belicosa Mulher-Maravilha também não ajudam.
            Embora o Super-homem sempre prime pela razoabilidade e diálogo, sua amiga amazona encarna o lado mais doentio da mente reacionária: para a Mulher-Maravilha, parece que a resposta para todos os problemas é sempre a guerra. Do outro lado temos Batman, que adota uma postura de aristocrata arrogante e que se acha no direito de fazer a si mesmo a exceção de todas as regras. Assim, quando o Superman ressurge com a Liga da Justiça, Bruce Wayne rechaça os pedidos de auxílio e ajuda do Homem de Aço, sob o pretexto de que a Liga da Justiça é totalitária. Mas, enquanto acusa o Super-homem, ele controla através dos computadores de sua batcaverna centenas de vigilantes e androides que patrulham e vigiam Gotham City 24h por dia, convertendo, assim, uma cidade inteira em um estado policial onde todos sentem medo. E Batman ainda deseja estender seus domínios sobre outras cidades...
            Com a persistência das dificuldades em sua cruzada, o Super-homem vai até Apokolips procurar conselhos do deus Órion, que agora governa aquele mundo no lugar de seu pai, Darkseid. Superman se desaponta ao ver que, apesar do governo de Orion, Apokolips continua a ser o mesmo inferno. Neste momento ocorre este intrigante diálogo:

Superman: “Francamente, Orion. De todos os velhos aliados que eu tenho encontrado, você é o que me desapontou mais. Você é um deus. Você tem o poder de mudar seu mundo”.

Orion: “Ou de destruí-lo. Temo que você ficaria surpreso com o quanto uma coisa pode facilmente levar à outra.



Este momento não havia sido retratado na primeira publicação de Reino do Amanhã, por extrapolar o limite de páginas. Portanto, só passamos a conhecer este diálogo nos encadernados e edições especiais posteriores. É lamentável, pois julgo que este é um momento chave para se entender a mensagem principal de Reino do Amanhã. O que Orion faz é expor ao Super-homem um pouco de sapiência política, que mentes privilegiadas como as de Edmund Burke e John Adams já possuíam, mas que o personagem Super-homem aparentemente desconhecia. Aquele que tem o poder para mudar, também tem o poder para destruir. E, por isso, os atos de mudança podem ser facilmente convertidos em atos de destruição. Portanto, o que Mark Waid faz, de maneira brilhante, através do personagem Orion, é denunciar a íntima associação que há entre mudança e destruição. Quando a primeira se apresenta, é bem provável que a segunda também se apresente. Por isso, precisamos tomar muito cuidado com nossos ímpetos de inovação. Esta é a mensagem de Orion para o Superman. Mas este último, naquele momento, não conseguiu perceber o valor das palavras de Orion. “Você não tem nada a me ensinar”, diz o Superman a Orion. O Superman estava tão comprometido com sua cruzada, com seu desejo de regenerar a humanidade, de mudar as coisas, que ele se mostrava incapaz de perceber que foi este mesmo desejo de mudança e inovação que provocou toda aquela situação caótica que agora ele, Superman, buscava reverter. Pois foi por causa do desejo de mudança que a humanidade havia adotado Magog como novo protetor e padrão moral.
            O desfecho de Reino do Amanhã provou que o mais sábio personagem da série – ao menos do ponto de vista político – era Orion. As decisões inovadoras do Superman – consistentes em construir um Gulag para metahumanos desajustos, sem qualquer consentimento dos líderes políticos da humanidade – conduzem a uma batalha final e arrasadora entre centenas de seres super poderosos. A humanidade, amedrontada, lança explosivos nucleares sobre o local da batalha na esperança de exterminar todos os metahumanos. Superman sobrevive, e, em um momento de fúria, dirige-se ao prédio das Nações Unidas para se vingar. O reverendo Norman McCay, conduzido pelo Espectro, consegue chegar a tempo e expor ao Super-homem seus erros. O Super-homem havia passado muito tempo solitário. Havia esquecido seu lado humano, e, por isso, quando retornou da aposentadoria, colocou-se numa posição sobre-humana, como novo messias que deveria decidir sozinho o destino da humanidade. Com isso – e estas não são palavras de Waid, mas minhas – ele se comprometeu com a concretização de uma utopia que a própria humanidade não teria condições de suportar.

Conclusão

Todos haviam errado. No passado, a humanidade comprometeu-se com um ideal de mudança que excluía o Superman. No presente, o Superman se comprometeu com um ideal de mudança que excluía a vontade da humanidade de suas decisões políticas. Em ambos os casos, todos traíram suas antigas tradições, seu antigo ideal de heroísmo, e, por isso, pode-se dizer que a humanidade traiu o Superman no passado, e agora o Superman traía a si mesmo no presente. Mas no fim, todos reconhecem seus erros e retomam sua antiga tradição, abandonada há dez anos: a humanidade volta a valorizar o antigo herói, e o antigo herói recupera sua relação de cooperação com a humanidade. Ele não mais se colocará acima da humanidade, mas se posicionará ao lado dela, como seu nobre protetor e servidor. E para enfatizar a restauração da antiga aliança, ele retoma a identidade de Clark Kent.

            Por essa exposição, reitero minha posição segundo a qual entre as grandes mensagens de Reino do Amanhã está aquela segundo a qual sempre devemos respeitar nossos princípios tradicionais, e que sempre devemos ser cautelosos diante de nossos ímpetos de inovação, uma vez que a mudança e a destruição são realidades extremamente próximas e afins. Precisamente o que sempre ensinou aquele conservadorismo esclarecido, inaugurado por Edmund Burke e brilhantemente professado por Russell Kirk. 

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

O Surfista Prateado e a parábola da indignidade humana...


Há muito tempo não me sentia tão tocado por uma história em quadrinhos como me senti ao ler “Parábola” - história protagonizada por Norrin Radd - o Surfista Prateado - e escrita por Stan Lee e desenhada por Moebius. (Na verdade, creio que a última vez que uma história me tocou tanto foi há uns 18 anos atrás, quando “Reino do Amanhã” fora lançada pela primeira vez). Mas o que faz esta história ser tão fantástica? 

Primeiramente, devo dizer que a arte de Moebius é realmente bela. Certamente a versão de Moebius para o Surfista Prateado é uma das melhores que já vi. Além disso, Moebius possui uma impressionante capacidade de transmitir, por meio de sua arte, uma complexa mistura entre simplicidade e profundidade espiritual. Como estou tratando aqui de uma impressão estética, faltam as palavras mais adequadas para explicar... na verdade, não há o que explicar: o trabalho de Moebius é simplesmente belo. Posso apenas dizer que a arte de Moebius é oposta à arte de gente como Todd Mcfarlane, Jim Lee ou Rob Liefeld: enquanto os traços de Mcfarlane e cia. esbanjam sombras e minuciosos garranchos, em Moebius todos os traços são claros e simples; e enquanto Mcfarlane e cia. faz tudo parecer infantil e superficial, Moebius confere à história um intenso tom de profundidade poética e espiritual. Basta olhar a capa de “Parábola” – com as belas expressões de Galactus e do Surfista Prateado – para o leitor saber que esta não é uma história em quadrinhos comum.

                                                                            O Surfista Prateado de Moebius.

E assim chegamos ao outro elemento que faz esta HQ tão especial: a história, ou, mais precisamente, os diálogos. Se a arte de Moebius transmite profundidade, assim também fazem os diálogos escritos por Stan Lee. Na verdade, parece-me que aquilo que Moebius realiza esteticamente – com seus traços simples, mas ao mesmo tempo portadores de profunda riqueza espiritual – Lee realiza intelectualmente, com diálogos por vezes ingênuos, mas carregados de intensa sabedoria, intuição filosófica, e até mesmo beleza poética. E é exatamente este último ponto que mais me impressiona: a intuição filosófica de Stan Lee sobre o caráter geral da humanidade. Como na maioria das histórias do Surfista Prateado (talvez em todas elas) escritas por Stan Lee, também em “Parábola” vemos o mais nobre herói da Marvel diante de uma espécie humana predominantemente ignorante, estúpida e selvagem. Discordando inteiramente da tradição filosófica do Iluminismo, baseada na concepção segundo a qual o ser humano é, acima de tudo, um ser racional, o Surfista Prateado de Stan Lee sustenta a triste convicção de que o homem, apesar de possuidor de alguma racionalidade, ainda é quase inteiramente dominado pelas suas paixões irracionais. Por este motivo, quando o gigantesco Galactus chega à Terra, toda a humanidade se curva fanaticamente diante do mesmo, e passa a venerá-lo como um deus. Como o próprio Surfista Prateado constata, a raiz da veneração humana por Galactus não é a busca pela virtude ou excelência moral, mas a malévola e insana idolatria pelo poder. Pois Galactus é justamente isso: poder destituído de moralidade. E como o desejo de Galactus é a total corrupção e destruição da humanidade, sua primeira ordem é o “façam o que quiserem”, e os fiéis, cegados pelo próprio fanatismo, logo põem em prática a máxima de seu novo deus, revogando a ordem social e instaurando em seu lugar o estado de pura mixórdia. E o mundo, que já não era bom, torna-se ainda pior.

Antes que alguém possa concluir de maneira precipitada que “Parábola” seja algum tipo de crítica simplória às religiões, crítica esta cuja finalidade seria a de professar o ateísmo raso ao assumir máximas otimistas do tipo "são as religiões que cegam o homem e o predispõem à irracionalidade"¹, devo dizer a semelhante intérprete que a mensagem da história é outra. Na verdade, “Parábola” é uma verdadeira defesa do sagrado e do espírito divino. Não se pode assumir outro ponto de vista na medida em que o próprio protagonista, o Surfista Prateado, é uma representação de nossos arquétipos messiânicos, e, em especial, de Jesus Cristo. A afinidade entre Norrin Radd e Jesus Cristo não fica evidenciada apenas na moralidade totalmente cristã defendida pelo herói cósmico, mas até mesmo na ambiguidade comportamental assumida pelo Surfista diante da humanidade. Tal como o Cristo descrito em nossos evangelhos, também o Surfista Prateado alterna, com relação aos homens, entre sentimentos de severa condenação e profunda compaixão. Assim, em Mat. 17-17, Cristo se irrita: "Ó gente incrédula e perversa! Até quando deverei ficar convosco? Até quando terei de suportar-vos?". Também temos em Mat. 21-12 a famosa passagem na qual Jesus, furioso, expulsa violentamente todos os comerciantes do Templo, e destrói seus bens e mercadorias. Mas em Luc. 23-34, mesmo após o crucifixo, ele sente pena da humanidade: "Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem". De modo bastante parecido, o Surfista Prateado também mistura juízos de condenação² ("sinto pouca compaixão por eles... seus ferimentos são todos autoinfligidos") e de estoica tolerância motivada pela compaixão ("não são maus... apenas não pensam"). Logo, como poderia o Surfista Prateado, um personagem profundamente religioso, ser utilizado para fins antirreligiosos? Certamente ele não poderia. Portanto, a crítica de "Parábola" não pode recair sobre a religião, mas sim sobre o fanatismo religioso (do qual o próprio Cristo foi uma grande vítima).

Em razão do forte enraizamento na moralidade cristã, "Parábola" também exibe uma forte e explícita crítica ao hedonismo – uma vez que a máxima de Galactus é justamente “faça o que tu queres...” – e, mais sutilmente, ao relativismo moral – nas palavras do próprio Galactus: “não existe nada errado! Não existe pecado! Prazer é tudo!”³. O fanatismo religioso certamente pode levar uma massa de indivíduos à prática de semelhantes máximas e ideias. Mas a ausência completa de religião e de ligação com o sagrado também pode conduzir os indivíduos ao mesmo estágio de falência moral. Portanto, entre os extremos do fanatismo religioso e da descrença radical, “Parábola” propõe a fé racional. Daí a advertência do Surfista Prateado: "fé sem juízo apenas degrada o espírito divino".

  "Fé sem juízo apenas degrada o espírito divino", diz o Surfista Prateado.


O "deus" Galactus professa a religião do hedonismo e relativismo moral (não seriam precisamente estas as "religiões" com maior número de adeptos na atualidade?) 

A crítica de Stan Lee parece não atingir apenas o comportamento moral do ser humano, mas também, por extensão, seu comportamento político. É bastante digno de nota o fato de que as pessoas parecem venerar Galactus pelo fato de seu discurso libertino soar como um discurso de "liberdade" - justamente a liberdade favorita do populacho, consistente em poder fazer tudo o que se deseja de acordo com os próprios desígnios pessoais. Galactus oferece à humanidade um mundo no qual todos têm direitos, e nenhum dever. Eventualmente, esta denúncia do populismo e da curta inteligência das massas torna-se mais direta, quando, por exemplo, o Surfista observa que "não há multidão agressiva que ouça uma voz sensata solitária".

“Parábola” também se opõe àquela outra tendência tão irmanada ao relativismo moral: o utilitarismo. Se o relativista defende a ideia de que não há critérios absolutos de avaliação moral, e que, portanto, qualquer ato pode ser igualmente considerado moral ou imoral, sem a menor contradição; o utilitarista, imbuído do mesmo espírito, dirá que um ato é moralmente bom apenas porque suas consequências são úteis ou desejáveis, e moralmente ruim apenas porque suas consequências são inúteis ou indesejáveis. Contrariando inteiramente as concepções utilitaristas, o Surfista Prateado não se importa com a utilidade que seus atos heroicos produzem: ele sabe que tentar defender a humanidade de sua própria loucura, selvageria e idolatria irracional pode ser algo bastante inútil e infrutífero, mas ele prossegue em sua missão heroica sem hesitação. Como o próprio herói se expressa: “que nosso objetivo seja sempre o que nos leva em frente, e não as chances de sucesso”.
                                                                  Em diálogos como este, fica evidente a ética 
                                                         não-utilitarista assumida pelo Surfista Prateado de Stan Lee.

E, infelizmente, em um dos desfechos mais tristes e trágicos já apresentados em uma história em quadrinhos, o Surfista Prateado, que consegue enfim expulsar o todo-poderoso Galactus do planeta Terra, no entanto não é capaz de expulsar do coração e mente humanos toda a sua baixeza moral e intelectual. A ignorância e loucura humana não cedem nem mesmo diante do exemplo e do heroísmo do Surfista Prateado, e, por isso, ao herói resta apenas recolher-se, resignado, na solidão espacial. Sim, o herói fracassa. Ironicamente, o único a reconhecer os sacrifícios do Surfista Prateado é justamente um dos vilões da história, o corrupto líder religioso Candell, o qual, ao final, conclui desesperado que a humanidade é moralmente indigna: "Por que fez isso? Você podia ter tudo! Podia ser um deus! Jogou tudo fora... só por nossa causa! E o mais trágico é que... nós não merecemos!". Esta parábola seria uma grande calúnia dirigida à humanidade... se não fosse profundamente verdadeira.



Notas:

¹Sim, otimista, pois por trás de semelhante máxima se esconde a crença (muito mais absurda do que qualquer crença religiosa!) na perfectibilidade e inocência da raça humana, pois quando se afirma semelhante máxima, está se afirmando com isso que a baixeza humana é "efeito" de uma "causa" externa à própria humanidade. Isto é, julga-se que a humanidade é naturalmente e essencialmente boa, embora seja corrompida por inimigos externos, tais como o "fanatismo religioso". Mas é óbvio que o fanatismo e idolatria irracional - sobretudo por figuras que representam poder - não é resultado de uma imposição externa (sabe-se lá de quem!), mas é emanação direta da própria imperfeição intelectual e moral inerentes à raça humana. Stan Lee defende este ponto de vista ao inserir a seguinte reflexão na cabeça do Surfista Prateado: "eles têm sede de liderança como um bebê anseia pelo leite materno... certamente é por isso que são presas tão fáceis de tiranos e ditadores". Como um bebê que anseia pelo leite materno - logo, estamos diante de uma inclinação humana originária, radical e congênita, tal como o desejo instintivo pelo leite materno.

²Na terceira edição de sua primeira série solo (escrita por Stan Lee e desenhada por John Buscema), o Surfista Prateado perde totalmente a paciência com a humanidade, lembrando muito a passagem de Mat. 21-12. Vale lembrar que esta edição ficou marcada pela primeira aparição de Mefisto, cujo maior desejo é corromper a alma pura do Surfista. Qualquer semelhança com Mat. 4 (onde Cristo é tentado no deserto pelo diabo) não pode ser mera coincidência.

³Alguém poderia me objetar dizendo que a frase "não existe nada errado! Não existe pecado! Prazer é tudo", não reflete posições relativistas, mas apenas hedonistas ou moralmente niilistas. Mas dizer que um mesmo ato pode ser relativamente bom ou relativamente mau, é o mesmo que dizer que não existe nada que seja bom em si, ou mau em si, ou intrinsecamente bom, ou intrinsecamente mau, etc. Ora, do ponto de vista semântico, a mensagem de Galactus é justamente esta: "não existe nada errado (em si)! Não existe pecado (em si)!". O relativismo moral é apenas hedonismo e niilismo disfarçado.